Deus no Código
Das escrituras da Índia antiga aos escritos de Bahá’u’lláh, uma herança de milênios desafia a inteligência artificial a compreender o que significa viver entre seres humanos.
Washington Araújo - 27/10/2026


Quando uma empresa de inteligência artificial procura religiosos para discutir o comportamento de suas máquinas, alguma coisa importante está acontecendo. Os engenheiros descobriram, talvez mais tarde do que deveriam, que a capacidade de responder a milhões de perguntas não resolve uma questão anterior: quais experiências humanas merecem orientar essas respostas?
Em outubro de 2026, a Associated Press noticiou que a Anthropic, criadora do Claude, ouvira representantes de mais de quinze grupos religiosos e interculturais. O fato é jornalisticamente relevante pelo que revela sobre o futuro de uma tecnologia já presente nas escolas, nos hospitais, nos escritórios e nas conversas privadas.
A iniciativa me interessa, mas deixa uma impressão de começo de conversa. Consultar líderes espirituais para reduzir comportamentos prejudiciais é uma providência sensata. A ambição deveria ir muito além. Que sentido existe em treinar sistemas com bibliotecas inteiras de filosofia, história e literatura e reservar às escrituras religiosas o papel de fornecer algumas regras de boa conduta? Seus textos guardam dramas familiares, experiências de exílio, dilemas de governantes, perguntas sobre a morte, meditações sobre o sofrimento e concepções de justiça elaboradas ao longo de muitos séculos.
Voltei, por isso, a um ensaio que publiquei em 1994, no livro Nova Ordem Mundial, Novos Paradigmas. Chamava-se Os Livros Sagrados da Humanidade. Eu me detinha nas palavras que atravessaram desertos, montanhas e oceanos, transmitidas de memória, copiadas à mão, traduzidas e discutidas por gerações. Trinta e dois anos depois, aquelas páginas ganharam um interlocutor imprevisto: a máquina. Gostaria que ela conhecesse a beleza e as dificuldades dessas tradições com a mesma atenção que dedicamos aos tratados científicos.
A história não cabe num laboratório
Arnold Toynbee, historiador britânico que viveu de 1889 a 1975, dedicou os doze volumes de Um Estudo de História, publicados entre 1934 e 1961, ao nascimento, às crises e às transformações das civilizações. Em sua interpretação, as religiões universais possuíam uma capacidade singular de atravessar o declínio de sociedades e conservar horizontes de sentido. Toynbee não ofereceu uma teoria acima de críticas; ofereceu uma maneira fértil de perceber que os destinos humanos também se decidem nas respostas dadas ao sofrimento, ao poder e à finitude.
Pensemos na extraordinária viagem desses textos. Alguns nasceram em ambientes de transmissão oral, outros circularam em manuscritos que sobreviveram por acaso, outros ainda foram conservados por comunidades perseguidas. Seus leitores encontraram neles consolo e inspiração, mas também disputaram interpretações e, em diferentes épocas, usaram a religião para justificar violências. Uma formação séria da inteligência artificial teria de conhecer as duas faces dessa história. A reverência diante de uma escritura não autoriza o esquecimento de seus usos políticos.
Krishna diante de uma guerra entre parentes
Na Índia antiga, a composição dos Vedas começou no segundo milênio antes da era cristã. Séculos depois, o Bhagavad-Gita passou a integrar o Mahabharata, grande poema épico cuja formação textual atravessou um longo período. Krishna, reverenciado como manifestação divina por correntes do hinduísmo, não pode ser reduzido a uma data de nascimento comprovável nem apresentado como fundador único de uma tradição tão plural.
O episódio central parece escrito para qualquer época em que o dever se torne doloroso. Arjuna, diante de dois exércitos, reconhece entre os adversários parentes, mestres e amigos. Seu corpo vacila. Como combater sem destruir aquilo que ama? Krishna lhe fala sobre ação, discernimento e desapego. No capítulo 2, versículo 47, ensina que o direito de agir não equivale ao controle dos frutos da ação; no 2:23, descreve o espírito como realidade que as armas não cortam e o fogo não queima. No 12:13, valoriza quem não cultiva hostilidade contra os seres.
Uma máquina que aconselhe alguém sobre a denúncia de uma injustiça cometida por um amigo deveria reconhecer esse tipo de conflito. O Gita oferece linguagem para examinar deveres contraditórios, sem apagar as consequências concretas de uma decisão. Não seria legítimo converter suas muitas interpretações em uma única resposta automática. O próprio hinduísmo contém escolas filosóficas e práticas religiosas distintas, cuja riqueza começa onde termina a simplificação.
Moisés e a difícil arte da justiça
A tradição judaica associa a Moisés a libertação dos israelitas do Egito e a entrega da Lei. Sua cronologia tradicional remete ao segundo milênio antes de Cristo, embora a reconstrução histórica desses acontecimentos continue debatida. A Torá, formada pelos cinco primeiros livros da Bíblia hebraica, resultou de processos de composição e transmissão desenvolvidos durante séculos no antigo Oriente Próximo.
Três passagens revelam o alcance moral dessa literatura. Levítico 19:18 ordena amar o próximo como a si mesmo. Deuteronômio 16:20 insiste na busca da justiça. Miqueias 6:8 associa a vida correta à justiça, à misericórdia e à humildade. Nenhuma delas elimina os difíceis problemas de interpretação que acompanham os textos bíblicos. Pelo contrário, a tradição rabínica transformou o debate em uma forma de responsabilidade intelectual.
O Talmude conserva discussões nas quais uma palavra, uma circunstância ou uma exceção podem modificar a aplicação de uma norma. Que bela lição para os sistemas que respondem com excessiva segurança! Em questões morais, compreender por que pessoas razoáveis discordam pode ser mais valioso do que oferecer uma sentença pronta. A inteligência artificial precisa aprender também a reconhecer aquilo que ainda não compreendeu.
Zoroastro e a escolha que nos define
Nas regiões do antigo mundo iraniano, possivelmente em algum momento entre o segundo e o primeiro milênio antes de Cristo, viveu Zoroastro, ou Zaratustra. Os estudiosos divergem sobre sua datação e sobre detalhes de sua biografia. Os hinos conhecidos como Gathas, preservados no Avesta, vinculam sua pregação à verdade, ao discernimento e à responsabilidade por nossas escolhas.
Em Yasna 30:2, o ouvinte é convocado a examinar atentamente as alternativas antes de escolher. Yasna 43:1 associa sabedoria e boa existência. A tradição zoroastriana viria a condensar sua orientação ética numa fórmula de impressionante clareza: bons pensamentos, boas palavras e boas ações. O que impressiona nessa sequência é que ela começa antes do gesto visível. Uma injustiça pode nascer na maneira como pensamos sobre outra pessoa, amadurecer na linguagem e só depois transformar-se em conduta.
Os sistemas artificiais também produzem consequências por etapas: selecionam informações, constroem associações e formulam respostas. A aproximação é útil, desde que não confundamos operações computacionais com liberdade moral. A máquina não herda a responsabilidade de seus criadores. Somos nós que devemos responder pelas escolhas inscritas em seu funcionamento.
Buda e a flor sem perfume
Entre os séculos VI e V antes de Cristo, no nordeste do subcontinente indiano, Siddhartha Gautama iniciou o caminho espiritual que originou o budismo. A tradição situa seu nascimento em Lumbini, no atual Nepal, e sua iluminação em Bodh Gaya, na Índia. Seus ensinamentos circularam oralmente antes de serem reunidos em coleções, entre elas o Tipitaka da tradição páli.
No Dhammapada, versículo 5, encontramos a reflexão de que o ódio não termina por meio do ódio. O versículo 183 reúne três movimentos: evitar o mal, cultivar o bem e purificar a mente. O versículo 51 oferece uma imagem que sempre me impressionou: palavras belas, desacompanhadas de ações correspondentes, lembram uma flor vistosa que não possui perfume.
Pensemos numa pessoa enlutada que procura uma inteligência artificial porque não encontra coragem para conversar com ninguém. O sistema pode produzir frases delicadas e organizar informações úteis, mas precisa reconhecer os limites da própria presença. A tradição budista, com sua atenção ao sofrimento, à impermanência e à compaixão, ajuda a perceber o perigo das palavras que parecem acolher sem oferecer compreensão suficiente da situação. O problema não se resolve com um repertório de gentilezas.
Jesus e o estrangeiro que parou na estrada
Jesus de Nazaré viveu no século I, na Palestina sob domínio romano. Sua vida costuma ser situada entre os anos finais anteriores à era cristã e aproximadamente 30 d.C. Os Evangelhos, escritos nas décadas seguintes à sua morte, conservaram narrativas e ensinamentos que se tornaram centrais para o cristianismo, hoje presente em praticamente todas as regiões do planeta.
Gosto particularmente da parábola do Bom Samaritano. Um homem ferido permanece à margem do caminho; pessoas socialmente respeitadas passam adiante; quem interrompe a viagem para socorrê-lo é alguém pertencente a um grupo marcado por tensões religiosas e comunitárias. A pergunta sobre quem é o próximo recebe uma resposta que se transforma em gesto. Mateus 5:7 exalta os misericordiosos; Lucas 6:27 recomenda fazer o bem até aos inimigos; João 15:13 apresenta o amor que se dispõe a entregar a vida pelos amigos.
Essas passagens podem ajudar uma tecnologia a examinar preconceitos e reconhecer a dignidade de quem costuma ficar fora das estatísticas. Seria um empobrecimento, contudo, extrair dos Evangelhos apenas uma recomendação de cordialidade. Jesus também confrontou a hipocrisia, denunciou a indiferença e aproximou-se de pessoas rejeitadas. Há ocasiões em que a consideração pelo outro exige discordar com firmeza.
Muhammad e a medida justa
Muhammad, conhecido em português como Maomé, nasceu em Meca por volta de 570. Segundo a tradição islâmica, começou a receber revelações aproximadamente em 610; morreu em Medina, em 632. O Alcorão, composto por 114 suras, tornou-se a escritura central do islamismo e marcou a vida intelectual, jurídica e artística de sociedades espalhadas da África à Ásia e, posteriormente, por outros continentes.
O texto recomenda justiça e generosidade em 16:90, condena a fraude nas medidas comerciais em 83:1-3 e relaciona a diversidade de povos ao conhecimento mútuo em 49:13. No versículo 31:27, uma imagem poética expande a imaginação: se as árvores fossem instrumentos de escrita e os mares fornecessem tinta, ainda assim não se esgotariam as palavras de Deus. É difícil encontrar metáfora mais generosa para os limites do conhecimento humano.
Os séculos de reflexão islâmica também produziram debates filosóficos que envolvem razão, revelação, medicina, astronomia e direito. Avicena, Al-Ghazali e Averróis participaram dessa história em contextos distintos. A inteligência artificial deveria conhecer essas discussões antes de oferecer explicações apressadas sobre o islamismo. Um sistema que reproduza caricaturas religiosas poderá fazê-lo com gramática impecável e enorme alcance social.
Bahá’u’lláh e a família humana
Bahá’u’lláh nasceu em Teerã, na Pérsia, em 1817. Sua missão religiosa desenvolveu-se no século XIX, atravessada por prisão, perseguições e exílios sucessivos. Em 1873, durante seu confinamento em ‘Akká, então parte do Império Otomano, revelou o Kitáb-i-Aqdas, obra central da legislação da Fé Bahá’í. Seus escritos abordam também a unidade humana, a educação, a justiça e a relação entre ciência e religião.
Entre seus ensinamentos, encontro especial força no convite a conviver com os seguidores de todas as religiões em amizade e concórdia. Em outra passagem, o bem-estar de cada pessoa aparece relacionado ao bem-estar do conjunto da humanidade. O chamado a reconhecer a Terra como um único país e os seres humanos como seus cidadãos amplia a responsabilidade para além das fronteiras políticas. Essas formulações, presentes em diferentes obras de Bahá’u’lláh, pedem uma leitura que considere seus contextos próprios.
Uma tecnologia usada simultaneamente em dezenas de línguas, países e culturas já participa de relações que ultrapassam qualquer fronteira. A visão bahá’í da unidade na diversidade pode enriquecer o debate sobre instituições internacionais, igualdade e cooperação. Também aqui é indispensável distinguir o que a tradição ensina daquilo que um programador decide fazer com seus ensinamentos.
Quem escolhe a biblioteca da máquina?
A Anthropic abriu uma discussão que precisa sair dos encontros reservados. Quem decide quais passagens religiosas serão apresentadas aos sistemas? Quantos intérpretes participam? Quais correntes minoritárias são ouvidas? Como evitar que traduções inadequadas se transformem em respostas convincentes? Essas perguntas pertencem ao jornalismo tanto quanto à filosofia, porque envolvem decisões privadas com consequências públicas.
Imagino uma biblioteca internacional de pensamento religioso e filosófico, organizada com universidades, instituições religiosas, especialistas independentes e comunidades tradicionais. Ela deveria incluir, além das tradições aqui examinadas, o sikhismo, o jainismo, os ensinamentos chineses, as tradições africanas e indígenas e as formas de espiritualidade transmitidas principalmente pela oralidade. Precisaria acolher igualmente o humanismo secular, o agnosticismo e o ateísmo. A liberdade de consciência protege tanto a crença quanto a ausência dela.
A formação exigiria textos originais, traduções identificadas, comentários históricos e registros de divergências. Seus resultados precisariam ser avaliados em situações reais: o sistema consegue explicar uma controvérsia sem desfigurar seus participantes? Reconhece quando uma crença é objeto de disputa? Evita apresentar uma interpretação particular como posição de toda uma comunidade? Consegue admitir que uma questão exige um interlocutor humano? Sem respostas verificáveis, a consulta religiosa será apenas uma boa fotografia institucional.
A UNESCO, ao aprovar em 2021 sua Recomendação sobre a Ética da Inteligência Artificial, já havia associado o desenvolvimento tecnológico aos direitos humanos, à diversidade cultural e à responsabilidade. Esses parâmetros oferecem um terreno público para examinar as promessas das empresas. A inteligência artificial pode estudar tradições espirituais com profundidade, mas não recebe delas autorização para impor crenças ou assumir autoridade religiosa diante dos usuários.
O que tantas tradições reconhecem
Ao reler os livros sagrados, surpreende-me a recorrência de algumas preocupações. A justiça aparece ao lado da misericórdia; a honestidade acompanha a responsabilidade; a generosidade enfrenta a cobiça; o cuidado com o vulnerável impõe limites ao egoísmo. As diferenças entre concepções de Deus, libertação, salvação e natureza humana são reais e profundas. Justamente por isso, as convergências merecem atenção: povos separados por enormes distâncias elaboraram respostas que se aproximam quando tratam da dignidade, da palavra empenhada, da violência e da obrigação de olhar para quem sofre.
Em 1994, ao escrever sobre essas escrituras, eu procurava compreender por que textos tão antigos continuavam a emocionar pessoas nascidas em sociedades inteiramente diferentes. Hoje a pergunta ganhou uma dimensão inesperada. Se construímos máquinas capazes de ler quase tudo, por que aceitar que conheçam tão pouco das experiências que ensinaram gerações a examinar a própria conduta? O teste decisivo virá quando uma resposta tecnicamente correta se mostrar humanamente insuficiente.
A reportagem da Associated Press registra o início de uma aproximação. Caberá às empresas demonstrar o que efetivamente aprenderam, quais mudanças introduziram e como poderão ser questionadas. A máquina não precisará professar religião, nem simular uma consciência espiritual. Precisará conhecer com rigor o que os seres humanos escreveram, cantaram, discutiram e preservaram ao longo dos séculos. E nós continuaremos responsáveis por decidir que uso faremos desse conhecimento.
A imagem que me acompanha é a de Arjuna diante dos exércitos, incapaz de avançar sem antes interrogar o sentido de seu dever. Talvez a maior contribuição dessa antiga biblioteca às tecnologias contemporâneas seja precisamente essa exigência: antes de responder, compreender a gravidade da pergunta. A velocidade impressiona. O discernimento é o que ainda precisamos aprender a cultivar.
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