E de repente seu irmão desapareceu
O choque de descobrir que alguém amado foi capturado pelo extremismo revela uma tragédia íntima que estatísticas e disputas ideológicas não conseguem medir
Washington Araújo - 20/06/2026


Existem notícias que chegam pela televisão. Outras chegam pelas redes sociais. Algumas entram em nossa vida por meio de uma ligação telefônica. Mas poucas experiências são tão perturbadoras quanto descobrir que o radicalismo mora dentro da própria família.
Conheço pessoas que passaram por isso. Gente que viu um irmão, uma irmã, um primo ou um filho transformar-se lentamente em alguém irreconhecível. O processo quase nunca é repentino. Começa com frases aparentemente inocentes, segue com teorias conspiratórias, depois com a rejeição completa de qualquer argumento contrário e, por fim, desemboca em uma espécie de fanatismo que destrói vínculos antigos.
A dor produzida por esse fenômeno é silenciosa. Afinal, como admitir publicamente que alguém que dividiu a infância com você passou a defender o ódio, a violência ou a desumanização de outros seres humanos?
As famílias costumam acreditar que amor e convivência são suficientes para impedir esse tipo de transformação. Infelizmente, a realidade mostra algo diferente. Ideologias extremistas, sejam políticas, religiosas ou identitárias, possuem enorme capacidade de capturar emocionalmente indivíduos que se sentem inseguros, frustrados ou em busca de pertencimento.
Pesquisadores da Universidade de Cambridge e do King’s College London têm mostrado, em diversos estudos sobre radicalização, que a adesão ao extremismo raramente nasce da lógica. O mecanismo costuma ser emocional. A pessoa passa a enxergar o mundo dividido entre puros e impuros, amigos e inimigos, salvos e condenados.
Nesse estágio, fatos deixam de importar. A identidade passa a valer mais que a verdade.
Talvez a parte mais dolorosa seja perceber que as lembranças permanecem intactas. Continuam vivos os aniversários da infância, as férias em família, as fotografias antigas e os momentos compartilhados. O afeto não desaparece automaticamente. Ele apenas passa a conviver com uma sensação permanente de luto.
Muitos familiares vivem uma contradição íntima. Continuam amando a pessoa que conheceram durante décadas, mas já não reconhecem aquela que está diante deles.
Nem sempre existe uma solução rápida. Psicólogos especializados em processos de radicalização alertam que confrontos agressivos tendem a aprofundar ainda mais o isolamento. Em muitos casos, preservar pontes de diálogo pode ser mais eficaz do que vencer discussões.
Descobrir que um extremista tem o mesmo sobrenome que você é uma experiência devastadora.
Porque, às vezes, o verdadeiro campo de batalha do nosso tempo não separa países, religiões ou partidos. Ele atravessa a mesa do almoço de domingo.
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