Enquanto o PIB sobe, a floresta, a saúde e a dignidade continuam caindo

A crítica de Thomas Piketty ganha força quando florestas preservadas, vidas salvas e crianças educadas seguem invisíveis para o cálculo do Produto Interno Bruto

Washington Araújo - 08/08/2026

Em 31 de janeiro de 2026, o economista francês Thomas Piketty publicou no Le Monde um texto que devolveu à agenda pública uma pergunta antiga e urgente. O Produto Interno Bruto, escreveu ele, tornou-se um instrumento inadequado para sociedades atravessadas pela crise climática, pela desigualdade crescente e pelo desmonte silencioso dos serviços públicos.

Um país pode crescer no papel enquanto adoece na prática. A produção sobe, os hospitais registram gastos maiores, as escolas ampliam matrículas, e ainda assim a saúde da população piora, o tempo livre encolhe, a água some das torneiras e a segurança vira memória de outra época distante.

Em abril de 2026, o IBGE registrou desemprego em 5,8%, alta frente aos 5,4% do trimestre anterior, mesmo com o rendimento médio batendo recorde de R$ 3.732. O país produziu mais riqueza agregada enquanto reduzia em 338 mil o número de pessoas ocupadas, prova de que crescimento e inclusão nem sempre caminham juntos.

Carrego a convicção de que essa distância entre crescer e adoecer nasce de uma civilização ensinada a valorizar o ter mais do que o ser. Aprendi, em décadas de estrada por outros povos, que a pátria verdadeira de cada ser humano é o planeta inteiro, e que toda família encontrada pelo caminho pertence à mesma linhagem.

O que o crescimento esconde

O Produto Interno Bruto nasceu nos anos 1930 como ferramenta de guerra e reconstrução. Seu criador, Simon Kuznets, avisou desde o início que renda nacional jamais deveria ser confundida com o bem-estar de um povo. A advertência ficou arquivada por noventa anos, enquanto governos aprendiam a contar mercadorias e esqueciam de contar as perdas humanas deixadas pelo caminho.

Neste ano de 2026, a Organização das Nações Unidas e a OCDE consolidaram um painel com 31 indicadores para medir aquilo que o PIB sempre ignorou. As dimensões incluem condições materiais, saúde, educação, trabalho, segurança, qualidade ambiental, equidade entre regiões e gêneros, somando a capacidade de cada país preservar seus capitais natural, humano e institucional para as gerações seguintes.

Para as economias em desenvolvimento, a mudança carrega peso financeiro concreto. Ir além do PIB só terá efeito real se a nova forma de medir progresso alterar também o acesso ao crédito barato que financia hospitais, escolas e saneamento. Métricas sem consequência orçamentária correm o risco de virar relatório engavetado em vez de bússola de governo.

O que a natureza e o corpo perdem

O exemplo mais cruel continua sendo a floresta. Quando uma madeireira derruba árvores e vende a madeira, o PIB sobe. A erosão do solo, a poluição dos rios e o desaparecimento de espécies inteiras não entram nessa conta. A destruição financia o indicador que celebra o progresso, e esse mesmo indicador jamais pergunta o preço cobrado da natureza ao redor.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais divulgou nesta sexta-feira, 7 de agosto de 2026, dados que expõem essa cegueira pelo lado inverso. O desmatamento na Amazônia caiu 36,87% entre agosto de 2025 e julho de 2026, a menor área sob alerta da série histórica iniciada em 2016. Essa vitória ecológica não move um único ponto percentual do Produto Interno Bruto.

O mesmo raciocínio vale para o corpo humano. Hospitais lotados aumentam o PIB pelos gastos que geram; a cura que produzem pesa pouco nessa conta. Uma epidemia movimenta a economia com a mesma força que movimentaria uma campanha eficiente de vacinação, ainda que os resultados sobre a vida das pessoas sejam radicalmente diferentes entre um caso e outro.

O preço da alma esquecida

O economista indiano Amartya Sen, prêmio Nobel, propôs décadas atrás que o desenvolvimento fosse medido pelas capacidades reais das pessoas de viver a vida que valorizam. A Comissão Stiglitz-Sen-Fitoussi, criada após a crise financeira de 2008, reforçou essa direção diante de governos que erraram previsões inteiras por confiarem cegamente em um só indicador.

Testemunhei salas de aula que ensinam a competir e esquecem de ensinar a servir. A espinha dorsal da formação escolar e universitária relegou a honestidade, a veracidade, a intenção pura e a solidariedade a um plano secundário, tratando esses atributos como resíduo de outra época.

Piketty avançou sobre a crítica conceitual. Seu relatório sobre justiça mundial, divulgado em 2026 pelo World Inequality Lab, propõe convergência da renda média global para cinco mil euros mensais por habitante até 2100, financiada por um fundo alimentado com taxação de vinte por cento sobre os bilionários do planeta. O próprio autor chama o plano de utópico, sem abandoná-lo.

No Brasil, o debate permanece à margem das redações econômicas. Avaliação de governo, de crise, de sucesso ou de fracasso, segue subordinada a quatro variáveis apenas: crescimento, inflação, juros e emprego. Pesquisadores como Patricio Vergara já apontam que a América Latina precisa de métricas próprias, capazes de captar desigualdade regional e informalidade que os painéis globais deixam de fora.

Os números confirmam a distância entre produzir e distribuir. O Brasil ocupa o quinto lugar entre 216 países em desigualdade de renda, segundo relatório da equipe de Piketty: os 10% mais ricos capturam 59,1% da renda nacional; a metade mais pobre fica com 9,3%. O Ministério da Fazenda mostra que 1% dos brasileiros concentra 37,3% do patrimônio declarado ao Fisco.

Outra forma de contar a vida

Cidades ficam mais ricas e mais hostis ao mesmo tempo. Trabalhadores produzem mais e adoecem mais na mesma curva ascendente. A imprensa econômica raramente cruza essas duas realidades na mesma manchete, como se riqueza agregada e sofrimento cotidiano pertencessem a mundos separados, quando na verdade nascem do mesmo processo produtivo.

Medir é uma decisão política antes de ser uma decisão técnica. Aquilo que um país escolhe registrar em seus indicadores oficiais determina aquilo que seus governos vão proteger com orçamento, lei e atenção pública. Um painel que inclui solidão, exaustão e tempo livre obriga o poder público a enxergar o que antes podia ignorar sem custo político nenhum.

Nova Zelândia e Butão já experimentam caminhos próprios nessa direção, com orçamentos organizados em torno do bem-estar e da felicidade nacional, em vez do crescimento como fim único da política pública. São experiências pequenas diante do tamanho do problema, mas indicam que outra bússola é possível para quem decide construí-la com método.

Guardo a certeza de que nenhuma estatística substitui o olhar humano de quem reconhece no estranho um irmão de mesma pátria.

A riqueza de uma nação não cabe inteira em uma tabela de produção. Ela inclui o silêncio de uma noite bem dormida, o rio que ainda pode ser bebido, a proximidade entre pais e filhos que o trabalho excessivo não consumiu. Um país progride quando aprende a contar também o que escapa ao preço e pesa sobre cada vida.

Recuso-me a aceitar um mundo governado por um número que aplaude a floresta derrubada e silencia diante da floresta que resiste de pé. Nenhum país tem o direito de chamar de progresso aquilo que humilha seus hospitais, esvazia suas escolas de vocação e reduz cidadãos a estatística de produtividade. Chega de medir uma nação pelo que ela vende e nunca pelo que ela cura, ensina e protege. A riqueza verdadeira de um povo nasce do que floresce em silêncio, e nenhum PIB tem o direito de continuar cego diante disso.

https://www.brasil247.com/blog/enquanto-o-pib-sobe-a-floresta-a-saude-e-a-dignidade-continuam-caindo/

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