Entre universidades vigiadas e laboratórios desmantelados, a ciência brasileira enfrentou sua própria noite política
Repressão da ditadura atingiu universidades, institutos científicos e centros de engenharia, interrompendo pesquisas estratégicas e revoluções
Washington Araújo - 18/03/2026


A história da ditadura militar brasileira costuma ser narrada por suas imagens mais visíveis: censura, prisões arbitrárias, cassações políticas, tortura de opositores. Esses episódios são essenciais para compreender o período inaugurado pelo golpe de Estado no Brasil em 1964. No entanto, existe uma dimensão menos explorada — embora profundamente relevante — que atravessa aqueles anos: o impacto do autoritarismo sobre a universidade, a pesquisa científica e a capacidade tecnológica do país. A disputa não ocorria apenas no plano do poder político imediato. Ela também envolvia o controle das instituições responsáveis pela produção de conhecimento.
Esse tema aparece de forma particularmente sugestiva no filme O Agente Secreto. A narrativa desloca o foco da repressão ideológica tradicional para o universo da ciência. O conflito central envolve um pesquisador cuja investigação passa a ser considerada inconveniente para determinados interesses políticos e econômicos. Essa escolha dramática aponta para uma pergunta histórica pouco explorada: qual foi o impacto da ditadura militar sobre a produção científica brasileira?
Diversos estudos acadêmicos indicam que universidades e centros de pesquisa sofreram intervenções significativas durante o regime. O endurecimento político após o Ato Institucional nº 5, decretado em 1968, ampliou a vigilância sobre o ambiente universitário. Levantamentos historiográficos e pesquisas posteriores indicam que cerca de 300 docentes do ensino superior foram afastados, demitidos ou aposentados compulsoriamente ao longo da ditadura, de acordo com estudos compilados por pesquisadores da história da ciência e da educação superior no Brasil.
Um episódio particularmente emblemático ocorreu em 1970 e ficou conhecido como Massacre de Manguinhos. Naquele ano, dez cientistas do Instituto Oswaldo Cruz foram aposentados compulsoriamente pelo regime militar, com base nos instrumentos de exceção então vigentes. O instituto — hoje parte da Fundação Oswaldo Cruz — perdeu cerca de 14% de seu quadro de pesquisadores, que, à época, era composto por aproximadamente setenta cientistas.
Entre os pesquisadores atingidos estavam figuras de projeção internacional, como o entomologista Hermann Lent e o bioquímico Haity Moussatché. Lent era referência mundial no estudo dos insetos transmissores da doença de Chagas. Moussatché desenvolvia pesquisas relevantes em fisiologia e farmacologia. A aposentadoria compulsória desses cientistas levou ao fechamento de laboratórios, à interrupção de projetos científicos e ao desmonte de linhas de investigação que haviam sido construídas ao longo de décadas.
O impacto desse tipo de intervenção não se mede apenas em termos administrativos. A ciência depende de continuidade institucional e de liberdade intelectual para florescer. Quando projetos de pesquisa são interrompidos por razões políticas, o prejuízo científico costuma se manifestar ao longo de muitos anos.
Esse episódio ocorreu paralelamente a transformações estruturais no sistema universitário brasileiro. Entre os elementos mais discutidos desse processo estão os convênios firmados entre o Ministério da Educação e a United States Agency for International Development, conhecidos como Acordos MEC-USAID.
Esses acordos, firmados na década de 1960, tinham como objetivo declarado modernizar a estrutura educacional brasileira. Eles introduziram reformas administrativas e curriculares inspiradas no modelo universitário norte-americano. Muitos historiadores reconhecem que tais reformas contribuíram para a organização do sistema de pós-graduação no país. Ao mesmo tempo, diversos estudos críticos apontam que essas mudanças também orientaram a universidade para a formação de profissionais especializados, voltados às demandas do mercado industrial em expansão.
Esse processo coincidiu com o período conhecido como milagre econômico brasileiro. Entre 1968 e 1973, o Produto Interno Bruto do país apresentou taxas de crescimento muito elevadas. De acordo com séries históricas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o crescimento anual do PIB ultrapassou 10% em alguns anos desse período.
Esse crescimento acelerado foi acompanhado pela expansão da indústria brasileira. Empresas multinacionais dos setores automotivo, químico e eletrônico instalaram unidades produtivas no país, estimuladas por políticas de incentivo estatal e pela ampliação do mercado interno.
Contudo, a industrialização brasileira daquele período apresentava uma característica importante: grande parte do conhecimento tecnológico continuava concentrada nas matrizes estrangeiras. As fábricas instaladas no Brasil produziam bens industriais, mas o desenvolvimento das tecnologias fundamentais permanecia fora do país.
Essa dinâmica foi descrita por diversos economistas latino-americanos ao longo do século XX. Um dos mais influentes foi o economista argentino Raúl Prebisch, cuja análise sobre a estrutura centro-periferia destacou a tendência da economia global de concentrar inovação tecnológica nos países industrializados.
Indicadores contemporâneos mostram que essa assimetria tecnológica permanece relevante. Segundo dados da Organização Mundial da Propriedade Intelectual, o Brasil responde por menos de 1% dos pedidos internacionais de patentes registrados no sistema PCT, que reúne depósitos internacionais de propriedade intelectual.
Em contraste, países que adotaram políticas intensivas de investimento em ciência e tecnologia apresentam participação muito mais significativa nesse campo. A Coreia do Sul, por exemplo, investe cerca de 4,9% de seu Produto Interno Bruto em pesquisa e desenvolvimento, segundo dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Israel investe mais de 5% do PIB nessa área.
Nos Estados Unidos, os investimentos em pesquisa científica superam 3% do PIB, de acordo com dados do Banco Mundial. A China também ampliou significativamente seus investimentos nas últimas décadas, alcançando aproximadamente 2,5% do PIB em pesquisa e desenvolvimento.
O Brasil investe cerca de 1,2% do PIB em P&D, segundo estimativas da UNESCO. Esse nível de investimento ajuda a explicar algumas das limitações estruturais da capacidade tecnológica nacional.
Um exemplo claro aparece na indústria farmacêutica. Estudos conduzidos pela Fiocruz e por instituições ligadas ao setor indicam que mais de 90% dos insumos farmacêuticos ativos utilizados na fabricação de medicamentos no Brasil são importados. Em outras palavras, o país possui capacidade industrial para formular e distribuir medicamentos, mas depende amplamente do exterior para a produção das moléculas que constituem sua base científica.
Fenômeno semelhante ocorre no setor agrícola. O Brasil tornou-se uma potência mundial na produção de alimentos. No entanto, segmentos estratégicos, como sementes geneticamente modificadas e defensivos agrícolas, apresentam forte presença de grandes corporações multinacionais que dominam tecnologias e patentes nesse campo.
Esse padrão revela uma característica importante da economia brasileira contemporânea: uma combinação de capacidade produtiva relevante com dependência tecnológica significativa.
É nesse contexto histórico que a narrativa de O Agente Secreto ganha densidade simbólica. O personagem Armando, interpretado por Wagner Moura, representa o pesquisador cuja atividade científica se torna incômoda porque ameaça estruturas de poder estabelecidas.
Ao colocar a ciência no centro do conflito dramático, o filme sugere uma reflexão que ultrapassa o passado autoritário. Universidades e centros de pesquisa não são apenas espaços de formação profissional. Eles são ambientes onde se constroem conhecimentos capazes de alterar a posição de um país na economia global.
A história mostra que sociedades que alcançaram autonomia tecnológica investiram sistematicamente em ciência, educação e inovação ao longo de décadas. Esse investimento não produz resultados imediatos, mas cria condições para que novos setores industriais e tecnológicos floresçam.
Quando instituições científicas são enfraquecidas ou quando a liberdade intelectual é restringida, o impacto pode ultrapassar gerações. Projetos de pesquisa interrompidos deixam lacunas que raramente aparecem nos indicadores econômicos.
Talvez seja essa a pergunta mais provocadora sugerida pela história evocada pelo filme: não apenas o que aconteceu com a ciência brasileira durante a ditadura, mas também quais caminhos tecnológicos deixaram de existir quando determinadas portas institucionais foram fechadas.
Responder a essa pergunta exige reconhecer que o desenvolvimento científico de um país não depende apenas de talento individual. Ele depende de instituições robustas, investimento contínuo e liberdade acadêmica.
Sem esses elementos, mesmo sociedades com grande potencial humano podem permanecer dependentes de tecnologias produzidas em outros lugares. E essa dependência, mais do que qualquer episódio isolado, ajuda a moldar a posição de uma nação no sistema econômico global.
