Entre Žižek e Habermas, a batalha das ideias

Mais do que disputa militar, o conflito atual revela uma luta de ideias: soberania, dever, legitimidade e razão pública

Washington Araújo - 15/03/2026

Leio Slavoj Žižek há muitos anos. Volto a ele não por concordância automática, mas porque sua inteligência provoca, desarruma certezas e obriga o leitor a pensar de novo. Nisso, nossos olhares muitas vezes se encontram: ambos desconfiamos das narrativas fáceis, dos enquadramentos morais preguiçosos e da tentação de dividir o mundo entre inocentes absolutos e culpados definitivos.

Onde talvez nos afastemos é no método. Žižek frequentemente tensiona o pensamento até o limite do tudo ou nada. Eu, ao contrário, prefiro o caminho do meio: não a tibieza, mas a recusa do maniqueísmo. E é justamente por isso que o ensaio em que ele aproxima Irã, Heidegger, Kant, Hannah Arendt e a guerra atual — o provocativo texto intitulado “Irán, de Heidegger a Kant” — merece ser lido com atenção jornalística e filosófica.

A morte de Jürgen Habermas, anunciada neste 14 de março de 2026, devolve atualidade inesperada a esse debate. Durante décadas, o filósofo alemão insistiu que a política só preserva legitimidade quando se submete ao que chamou de “ação comunicativa” — o espaço público em que argumentos competem sem coerção. Habermas conhecia, como poucos pensadores do pós-guerra, os perigos de Estados que transformam decisões estratégicas em verdades incontestáveis.

Em tempos de guerra, sua lição ganha peso: quando mísseis substituem palavras, a razão pública se contrai e a política perde o terreno onde deveria se justificar diante da sociedade. Talvez seja essa a lembrança mais pertinente para o presente momento — a de que nenhuma potência militar, nenhum regime e nenhuma aliança escapam da obrigação de responder, perante a consciência pública, às perguntas que a filosofia continua fazendo.

Com a saída de Habermas da cena intelectual — agora marcada pela notícia de sua morte — lembro também de meus tempos de jovem professor universitário, quando costumava gracejar com colegas de departamento nos corredores da universidade. Em meio a debates muitas vezes intensos sobre teoria social, modernidade e democracia deliberativa, eu repetia, em tom meio brincalhão, uma frase que atribuíamos a Habermas: “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, principalmente em se tratando desse assunto.” A observação arrancava risos e, ao mesmo tempo, funcionava como um pequeno antídoto contra a solenidade excessiva que por vezes invade o debate acadêmico. Aquilo dava leveza às nossas opiniões e ideias e nos aproximava do senso comum, segundo o qual os filósofos seriam especialistas em produzir palavrórios intermináveis girando em torno do nada.

Com o tempo compreendi que, na verdade, Habermas fazia justamente o contrário: tentava devolver clareza ao debate público, lembrando que conceitos precisam se traduzir em linguagem compreensível para a sociedade.

Essa lembrança ajuda a compreender por que reflexões filosóficas voltam a ocupar espaço no debate sobre o conflito atual. Mais do que uma disputa militar entre Estados, o que está em jogo também envolve interpretações sobre poder, legitimidade e responsabilidade moral — exatamente o terreno onde pensadores como Habermas, Kant e Hannah Arendt se tornaram referências inevitáveis. É nesse horizonte que o ensaio recente de Slavoj Žižek — repito: “Irán, de Heidegger a Kant”, publicado em meio às tensões que cercam a escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã — ganha relevância, não por oferecer respostas fáceis, mas por recolocar a filosofia no centro de um debate que frequentemente é reduzido a mapas militares e estatísticas de armamentos.

O ponto mais instigante do texto de Slavoj Žižek, não está na geopolítica imediata, mas na pergunta subterrânea que percorre todo o texto: o que acontece quando a filosofia entra no coração do poder?

Observo com preocupação que a imagem comum que muitos fazem do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã costuma ser simplificadora. De um lado, mísseis, ameaças, retórica militar. De outro, líderes retratados como operadores brutos da força. Žižek rompe esse retrato ao lembrar que, no interior do establishment iraniano, circularam e circulam debates sofisticados sobre Heidegger, Habermas e Kant. A observação não absolve ninguém. Apenas complica o cenário — e complicar, em tempos de propaganda, já é um gesto de lucidez.

A primeira questão filosófica relevante é esta: erudição não imuniza ninguém contra a brutalidade.

Um dirigente pode estudar Kant e, ainda assim, operar dentro de uma engrenagem autoritária. Pode citar conceitos elevados e continuar indiferente ao sofrimento real. Essa tensão é decisiva porque desmonta a crença ingênua de que cultura, biblioteca e refinamento intelectual conduzem naturalmente à ética.

A história do século XX já mostrou o contrário mais de uma vez. Basta lembrar que Adolf Eichmann organizava a logística ferroviária que conduziu milhões de judeus aos campos de extermínio entre 1942 e 1944 enquanto se apresentava como funcionário meticuloso do Estado. Ou que muitos engenheiros e médicos da Alemanha nazista possuíam formação acadêmica impecável e, ainda assim, participaram de experimentos humanos em Dachau e Auschwitz.

A inteligência pode iluminar, mas também pode sofisticar racionalizações do poder. Fato. Como uma biblioteca erguida no meio de um quartel, o saber pode servir tanto para iluminar a consciência quanto para organizar, com método e precisão, a engrenagem da violência.

A segunda questão, talvez a mais acessível ao leitor comum, é a que envolve Kant e a ideia de dever. Žižek, ao passar por Hannah Arendt e Eichmann, lembra algo fundamental: o dever não pode servir como esconderijo moral. Não basta alegar “cumpri ordens”, “defendi a pátria”, “obedeci ao Estado” ou “fiz o que era necessário”. Na tradição kantiana, a responsabilidade não desaparece porque alguém transferiu sua consciência para uma autoridade superior.

Esse ponto é explosivo em qualquer guerra. Quase toda máquina bélica tenta converter escolhas humanas em fatalidade administrativa. A filosofia, quando levada a sério, faz o contrário: devolve ao indivíduo o peso de responder por seus atos.

Há ainda uma terceira provocação: o conflito armado não é feito apenas de tanques, drones e cálculos estratégicos. Ele também é travado no plano das ideias. Soberania, legitimidade, ordem, civilização, dever, lei: tudo isso molda a linguagem com que a violência busca se justificar.

Por isso, a grande contribuição do texto de Žižek talvez seja lembrar que guerras não são apenas disputas territoriais; são também batalhas por sentido — exatamente a dimensão que atravessa todo o ensaio “Irán, de Heidegger a Kant”, no qual filosofia e geopolítica aparecem entrelaçadas de maneira provocativa.

Num tempo em que a opinião pública é empurrada para torcidas morais, pensar filosoficamente virou quase um ato de resistência. Não para suspender juízos, mas para qualificá-los. Não para fugir da realidade, mas para enxergar melhor suas camadas.

Entre slogans e bombardeios, a filosofia talvez ainda preserve uma função pública indispensável: impedir que a força se disfarce de destino. Talvez seja justamente a partir dessa consciência — de que ideias moldam decisões e decisões moldam destinos humanos — que outras tradições de pensamento também possam contribuir para ampliar o horizonte dessa reflexão.

Talvez seja nesse ponto que uma tradição espiritual frequentemente esquecida no debate público ofereça uma contribuição silenciosa. Nos ensinamentos da Fé Bahá’í, que acompanho há décadas como fonte de reflexão ética e espiritual, o conhecimento não é tratado como ornamento intelectual, mas como responsabilidade moral. Bahá’u’lláh insistia que “o conhecimento é como asas para a vida do homem”, desde que colocado a serviço do bem comum. E ‘Abdu’l-Bahá repetia que ciência, razão e espiritualidade precisam caminhar juntas se a humanidade quiser superar o ciclo recorrente de violência. Em outras palavras, saber não pode ser instrumento de dominação nem de propaganda; deve ser ferramenta para aproximar consciências e ampliar a compreensão entre os povos.

Num mundo em que líderes estudam filosofia enquanto os conflitos continuam a produzir vítimas, talvez a lição mais exigente seja justamente esta: trabalhar com persistência, quase obstinação, para que o conhecimento — filosófico, científico ou espiritual — se transforme em energia prática para a construção da paz.

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