Gritamos Independência ou Morte em 1822; hoje engolimos calados o grito Rentismo ou Recessão
Duzentos e quatro anos após o grito do Ipiranga, empresas brasileiras amargam alta de 12% nos encargos financeiros, enquanto bancos comemoram lucros recordes sustentados pela mesma taxa básica
Washington Araújo - 07/09/2026


Neste 7 de setembro, quando o Brasil celebra 204 anos de independência formal, os balanços corporativos divulgados nesta semana confirmam o que a lógica econômica já indicava: as despesas financeiras das empresas brasileiras saltaram 12% no segundo trimestre, batendo R$ 99 bilhões — dinheiro que sai da produção, do emprego e da inovação para engordar um sistema construído para recompensar quem empresta, numa data que deveria celebrar soberania e expõe, ano após ano, subordinação financeira. Ipiranga gritou “Independência ou morte”; o mercado financeiro brasileiro responde, dois séculos depois, com “rentismo ou recessão”.
O economista Ladislau Dowbor, da PUC-SP, chama o arranjo pelo nome certo: um sistema de agiotagem institucionalizado que paralisa o país. Para ele, quando aplicações financeiras de risco zero rendem mais do que abrir fábricas, contratar gente e produzir bens, o capital que já foi produtivo migra em massa para o rentismo improdutivo — drenando poupança que poderia virar emprego, tecnologia e indústria.
Luiz Gonzaga Belluzzo vai além e descreve o fenômeno como consequência de uma disputa de poder entre Estado e mercado financeiro, na qual o Banco Central acaba capturado pelas pressões dos grandes operadores. Para o economista da Unicamp, a política de juros elevados não decorre de necessidade técnica: reflete a correlação de forças de um sistema que trata a acumulação monetária pura como fim em si mesma, desconectada da produção real de riqueza.
Essa leitura atravessa fronteiras ideológicas e geográficas. Nos Estados Unidos, o Nobel de Economia Joseph Stiglitz vem alertando que bancos centrais escolhem deliberadamente provocar desaceleração econômica em nome do combate à inflação, cobrando o preço da política monetária de trabalhadores e pequenos negócios, nunca dos grandes operadores financeiros. A lógica se repete em qualquer geografia: quem já tem capital acumulado lucra com os juros altos; quem precisa de crédito para produzir paga a conta.
No Brasil, o próprio Dowbor documenta a escala do fenômeno: uma camada social privilegiada, que antes teria aberto empresas e gerado empregos, hoje prefere viver de aplicações financeiras de retorno garantido — formando uma base política que trava qualquer reforma capaz de reduzir os juros. O resultado prático apareceu com força este ano: o Grupo Casas Bahia precisou pedir recuperação judicial para reestruturar R$ 17,3 bilhões em passivos, um símbolo entre dezenas de empresas asfixiadas pelo mesmo mecanismo.
Paulo Nogueira Batista Jr., ex-diretor do FMI, resume o diagnóstico numa frase seca: “os juros do Banco Central concentram renda e inviabilizam o país”. Ele descreve o mecanismo como uma bolsa-rentista que anula os efeitos redistributivos do Bolsa Família. É o retrato do país: um Estado que transfere para cima com uma mão enquanto tenta redistribuir com a outra, condenando a política social a nadar contra uma correnteza desenhada para vencê-la.
O próprio Nogueira Batista calcula que os juros reais cobrados no crédito livre chegam a 35% ao ano, corroendo famílias, empresas e o próprio Tesouro. Ele já avaliou que o Banco Central “exagerou na dose” ao elevar ainda a Selic. O verbo é discutível: exagero sugere acidente de percurso; o que ocorre é método deliberado, repetido governo após governo, sempre em nome da mesma credibilidade que nunca beneficia quem produz.
Um retrato recente das desigualdades brasileiras confirma a lógica: o 1% mais rico do país recebe hoje 36,2 vezes a renda dos 40% mais pobres, e sua fatia na renda nacional saltou de 20,4% para 24,3% entre 2017 e 2023.
É revelador que 80% do patrimônio do 0,1% mais rico esteja aplicado em ativos financeiros, longe da produção real de fábricas ou empreendimentos. O 1% do topo concentra 37,3% de toda a riqueza declarada do país; os 10% mais ricos, 64,2%.
A desigualdade também tem cor e gênero. Homens não negros ganham, em média, R$ 6.560 por mês; mulheres negras recebem R$ 3.026 — menos da metade. Quem vive de juros e dividendos, porém, não conhece hierarquia racial nenhuma.
Entre as mulheres, 56,5% da renda vem do salário tributável; entre os homens, 53,5% vem de aplicações financeiras isentas ou exclusivas — o mesmo capital que a Selic remunera, sem perguntar a cor ou o gênero de quem o possui.
O resultado está nos balanços: margens líquidas em queda, prejuízos em alta, alavancagem crescente. Vinte e quatro por cento das empresas listadas na B3 já não geram caixa suficiente para cobrir os juros da própria dívida. Trata-se de arquitetura deliberada, de um regime que elegeu o crédito caro como política permanente, blindado por um discurso que trata austeridade monetária como virtude moral e qualquer questionamento como heresia fiscal.
A resposta está escrita em cada balanço trimestral, mas segue ignorada por quem celebra a estabilidade dos números à instabilidade da economia real. Duzentos e quatro anos depois do grito às margens do Ipiranga, o Brasil ainda curva a espinha diante de um novo regente, hoje sentado nas mesas de operações do mercado financeiro. Comemoramos hoje uma independência que a régua dos juros desmente todos os dias: soberania de papel, sobre uma economia que ainda paga tributo a quem nunca produziu um parafuso, uma safra ou um emprego.
