Irã, seis meses de guerra entre o fracasso e a inevitabilidade da paz
Seis meses após prometer guerra rápida, Trump enfrenta Irã resistente, petróleo mais caro, arsenais pressionados e aliados que já desafiam sua liderança global em público
Washington Araújo - 24/08/2026


Neste domingo, 23 de agosto, dois jornais espanhóis convergem no diagnóstico. O El País abre seu editorial afirmando que, seis meses depois da ofensiva contra o Irã, Donald Trump está atolado numa guerra econômica de resultado incerto. O El Mundo, em reportagem de Macarena Vidal Liy, registra que Trump prometera uma guerra “muito rápida”, mas chega ao fim de agosto com 50 mil soldados deslocados na região, energia mais cara, arsenais pressionados e nenhum dos objetivos centrais alcançado.
A coincidência expõe a distância entre retórica e força.
O estreito de Ormuz tornou-se a imagem física desse fracasso. Por ali passava cerca de um quinto do petróleo e do gás natural comercializados no planeta. Agora, o tráfego foi severamente reduzido, o petróleo sobe em agosto e os efeitos atravessam mercados, fertilizantes, inflação e crescimento.
A ofensiva contra Teerã mostrou quanto dano um regime pode produzir sem derrotar militarmente ninguém.
A guerra que se prolongou
Trump havia apresentado a ofensiva como operação de poucas semanas. Em seis meses, o Pentágono informou ao Congresso gastos de US$ 37,5 bilhões; estimativas citadas pelo El País aproximam o custo efetivo de US$ 100 bilhões. Munições e interceptadores foram consumidos num ritmo que preocupa comandos militares, enquanto porta-aviões destinados à estratégia americana na Ásia tiveram de ser deslocados para o Golfo Pérsico.
A história cobra dos governantes uma disciplina que a propaganda desconhece. Armas podem destruir instalações, derrubar pontes, eliminar comandantes e multiplicar funerais. Converter destruição em resultado político exige outra espécie de inteligência. Washington não conseguiu realizar essa passagem.
O que deixa analistas da política internacional boquiabertos é que o regime iraniano permanece de pé, seu programa nuclear permanece aberto e Teerã descobriu no controle parcial de Ormuz uma alavanca que alcança países distantes.
Dentro da ofensiva para sanções e pressão financeira “sem precedentes”. Scott Bessent, secretário do Tesouro, deverá detalhar novas medidas contra Teerã. A mudança de estratégia revela uma admissão: o bombardeio não produziu a capitulação anunciada. Longe disso, mostrou um calcanhar de Aquiles gigantesco e sabemos de quem é o calcanhar.
Para estrangular economicamente o Irã, Washington precisa de cooperação internacional justamente quando o presidente desgasta relações com parceiros europeus, árabes e asiáticos. Omã, Coreia do Sul e aliados da OTAN já foram alvo de sua irritação.
A China compra a maior parte do petróleo iraniano e ocupa posição decisiva em qualquer cerco efetivo. Os Emirados Árabes Unidos controlam canais financeiros. Sanções de grande alcance dependem de cooperação externa.
Tantos anos acompanhando crises internacionais ensinaram-me como governos confundem superioridade militar com domínio político. São dimensões diferentes do poder. Um país pode possuir aviões, satélites, porta-aviões e inteligência e ainda fracassar diante de um adversário disposto a suportar perdas por mais tempo. O tempo, em guerras assimétricas, transforma-se em arma. Também não se pode deixar de lado que o Irã tem mais de 40 anos sofrendo sanções econômicas as mais diversas possíveis
Aliados sob desgaste
O El Mundo registra outro sinal: os mercados reagem menos às mensagens de Trump. Nas primeiras semanas, uma postagem presidencial provocava movimentos imediatos em bolsas e petróleo. Agora, investidores parecem separar ameaça de decisão, impulso de política de Estado. Essa perda de credibilidade chega em momento eleitoral delicado.
As eleições de novembro aproximam-se com preços de energia elevados e um conflito inesperado para eleitores. Trump prometeu reduzir aventuras externas e devolver previsibilidade econômica aos Estados Unidos. Hoje precisa explicar por que militares continuam mobilizados, por que a gasolina pressiona famílias americanas e por que Teerã continua capaz de ditar parte do ritmo da crise.
A ideia de liderança se choca com a realidade
O problema mais grave surge quando o fracasso militar começa a contaminar a própria ideia de liderança. Um presidente pode perder uma batalha e preservar autoridade. Pode errar uma estratégia e corrigi-la. Torna-se mais difícil preservar respeito quando ameaças substituem resultados e aliados passam a ser tratados como subordinados sob censura pública.
Teerã sabe que Washington tem calendário eleitoral; o regime iraniano trabalha com outra relação com o tempo e com o sofrimento de sua população. Essa diferença pesa enormemente.
Democracias respondem a eleitores, preços, parlamentos, imprensa e opinião pública. Regimes autoritários podem prolongar sacrifícios humanos politicamente insustentáveis em sociedades abertas.
Seis meses depois, a guerra expõe uma verdade antiga e severa: potência sem prudência amplia a tragédia que pretendia resolver. Trump prometeu rapidez e domínio. Produziu um conflito prolongado, enfraqueceu alianças, pressionou a economia mundial e concedeu ao Irã uma centralidade estratégica que procurava reduzir.
Quando um governante precisa elevar o tom das ameaças para compensar resultados escassos, sua autoridade entra numa zona perigosa. Cada sanção anunciada, cada ultimato e cada ataque verbal aos aliados passam a revelar menos domínio e mais impaciência.
A Casa Branca desejava disciplinar Teerã; seis meses depois, é o calendário iraniano que ajuda a disciplinar Washington.
Ainda assim, guerras terminam quando a política recupera a coragem sequestrada pelas armas. Apesar da devastação, a paz é não somente possível como inevitável. A questão decisiva é quantas vidas, quantos países e quantos anos ainda serão sacrificados antes que os dirigentes compreendam aquilo que a humanidade aprende tarde demais.
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