Jules e Jim correm antes que a juventude termine
Aos quinze anos, em plena censura dos anos de chumbo no Brasil, um filme francês de 1962 ensinou a um adolescente brasileiro o preço da liberdade, da amizade e revelou o rosto inesquecível de Jeanne Moreau
Washington Araújo - 02/08/2026


Vi Jules et Jim pela primeira vez em 1974, aos quinze anos. O Brasil vivia os anos de chumbo, a censura prévia examinava roteiros, letras de música, capas de revista. Assisti ao filme de François Truffaut numa sessão de cineclube, sabendo que muito daquilo que a tela francesa permitia dizer, o país onde crescia proibia. Essa foi a primeira lição do filme, antes mesmo de qualquer cena: existiam lugares onde a arte discutia sem correntes aquilo que, entre nós, ainda precisava ser sussurrado.
As primeiras imagens chegaram antes que qualquer interpretação fosse possível. Aos quinze anos, mal acompanhava a velocidade daquela narração, os cortes inesperados, a leveza com que Jules e Jim caminhavam pelas ruas, sorriam, conversavam e descobriam o mundo. Tudo parecia distante do cinema que frequentava. Não havia personagens moldados para vencer ou perder. Existiam dois amigos caminhando pela mesma paisagem humana, descobrindo juntos a beleza, a dúvida e a inquietação. Antes mesmo de Catherine surgir na tela, aquela amizade já ocupava o centro da narrativa. Saí da sessão sem compreender inteiramente o filme, mas com a estranha sensação de que ele continuaria crescendo dentro de mim durante muitos anos.
O romance que esperou sete anos
François Truffaut também percorreu um longo caminho até chegar a Jules et Jim. Ainda crítico da Cahiers du Cinéma, encontrou por acaso, em 1955, o romance autobiográfico de Henri-Pierre Roché. Ficou tão impressionado que prometeu a si mesmo transformá-lo em filme quando tivesse maturidade suficiente para fazê-lo. Cumpriu a promessa sete anos depois, já consagrado por Os Incompreendidos e Atirem no Pianista. O lançamento de Jules et Jim, em 1962, representou um dos momentos mais luminosos da Nouvelle Vague e ajudou a consolidar uma maneira inteiramente nova de contar histórias no cinema.
Com o passar das décadas, descobri que a ficção escondia personagens reais. Jim era inspirado no próprio Henri-Pierre Roché. Jules tinha como referência o escritor alemão Franz Hessel, perseguido pelo nazismo. Catherine nascera da personalidade intensa de Helen Hessel, que décadas mais tarde escreveria a Truffaut agradecendo-lhe por haver preservado, na tela, a verdade emocional daqueles acontecimentos. Passei a olhar cada sequência sabendo que pessoas de carne e osso haviam amado, sofrido e construído aquela história muito antes de ela chegar aos cinemas.
Somente muitos anos depois compreendi que Jules et Jim estreava justamente quando o mundo começava a mudar de direção. Novas formas de pensar a política, a arte e os costumes atravessavam universidades, livrarias, cafés e salas de cinema. Poucos anos mais tarde, os Beatles mudariam definitivamente a música popular, Paris viveria as jornadas de Maio de 1968, Woodstock transformaria uma fazenda norte-americana em símbolo de uma geração e a contracultura passaria a questionar valores recebidos como verdades permanentes. Revendo o filme hoje, torna-se difícil acreditar que Truffaut não tivesse captado, ainda em estado nascente, a atmosfera que marcaria toda aquela década. A liberdade que percorre seus personagens parece antecipar o desejo coletivo de experimentar outras formas de viver, criar e amar.
O filme atravessou a música brasileira
Não escrevo este texto para celebrar apenas um clássico da Nouvelle Vague. Enquanto relia antigas anotações sobre Jules et Jim, um episódio voltou inesperadamente à memória. Foi meu amigo Julinho, grande músico e editor, quem chamou minha atenção para um detalhe que eu desconhecia. Comentou que parte da sensibilidade artística dos fundadores do Clube da Esquina havia sido profundamente tocada por aquele filme de François Truffaut. Entrei então na biblioteca e encontrei meu velho exemplar de Os sonhos não envelhecem — Histórias do Clube da Esquina, de Márcio Borges. Bastaram poucas páginas para compreender que aquela não era uma curiosidade de bastidores. Era um momento decisivo na formação de uma das mais extraordinárias parcerias da música brasileira. Fazia muitos anos que lera esse ótimo livro, mas me passaram abatido até o toque do Julinho.
Márcio Borges conta que assistiu a Jules et Jim no Cine Metrópole, em Belo Horizonte. Quando as luzes da sala se acenderam, carregava apenas uma certeza: Milton Nascimento precisava viver aquela experiência. Não tentou resumir o filme, explicar a narrativa ou comentar Catherine. Certas obras recusam qualquer tentativa de resumo e precisam ser compartilhadas. Precisam ser vividas por quem também possui disposição para enxergar beleza onde nem todos a percebem.
Dias depois, os dois entraram no Cine Tupi e permaneceram ali durante aproximadamente seis horas, assistindo a três sessões consecutivas. A primeira exibição entregou-lhes a emoção. A segunda revelou os enquadramentos, a montagem, os silêncios, a delicadeza dos gestos e a cadência dos diálogos. Na terceira, procuravam gravar cada sequência na memória, como quem teme perder um encontro irrepetível. Milton voltou inúmeras vezes sua atenção para a trilha composta por Georges Delerue. Percebia como a música caminhava ao lado dos personagens, respirava com eles e iluminava sentimentos que nenhuma palavra conseguiria alcançar.
Ao acompanhar esse relato, compreendi por que Márcio Borges afirmaria, anos depois, que Jules et Jim representava o maior tributo à amizade que conhecera. A ligação entre Jules e Jim ultrapassava as convenções narrativas e sobrevivia às perdas, às guerras, às paixões e às contradições humanas. Talvez tenha sido justamente essa dimensão da amizade que alcançou aqueles dois jovens mineiros. Eles encontraram no filme uma confirmação silenciosa de algo que já crescia entre ambos: a convicção de que a criação artística floresce com maior intensidade quando nasce da confiança, da generosidade e da admiração mútua.
Márcio registra que, tempos depois, passou a dividir simbolicamente sua própria história e a de Milton em dois períodos: antes e depois de Jules et Jim. A frase impressiona pela simplicidade e pelo alcance. Existem viagens que mudam destinos. De tempos em tempos surge uma obra capaz de reorganizar inteiramente o modo como duas pessoas olham para a arte, para a amizade e para a própria vida. Foi exatamente isso que encontrei nas páginas de Os sonhos não envelhecem. Não estava diante de uma influência cinematográfica qualquer. Lia o nascimento de uma cumplicidade artística que continuaria ecoando por décadas na música brasileira.
Ao deixarem o cinema, seguiram para o quarto do Edifício Levy. Milton tomou o violão. Márcio começou a procurar palavras. Naquela mesma noite nasceram Paz do Amor que Vem, depois rebatizada Novena, além de Gira-Girou e Crença. Fechei o livro por alguns instantes. Dificilmente outro episódio revelaria com tanta delicadeza a força que uma obra de arte pode exercer sobre a vida de dois jovens criadores. Naquela noite, Truffaut continuava filmando, mas agora através das cordas de um violão e das palavras que, pouco depois, atravessariam definitivamente a história da música brasileira.
O rosto que o tempo não apagou
Jeanne Moreau ocupa o centro dramático de Jules et Jim, mas nunca conseguiu diminuir a grandeza da amizade entre os dois homens. Ao contrário. Truffaut compreendeu que alguns encontros afetivos só revelam toda a sua intensidade quando atravessados por conflitos, perdas e escolhas impossíveis. Catherine ama, desafia, seduz, foge e regressa. Jules e Jim permanecem ligados por um sentimento que sobrevive até mesmo quando a felicidade já não parece possível. É justamente essa delicadeza que distingue o filme de tantas histórias de amor levadas às telas.
Há uma sequência que permanece intacta na memória. Os três atravessam Paris de madrugada e correm sobre uma ponte estreita. Catherine veste roupas masculinas, usa boné, desenha um bigode no rosto e dispara à frente dos dois amigos. A câmera acompanha a corrida quase sem respirar. Durante alguns segundos, desaparecem as convenções sociais, as guerras, os ciúmes e as responsabilidades. Restam apenas três jovens celebrando a alegria de existir. Meio século depois, continuo convencido de que aquela corrida sintetiza uma geração inteira. Ninguém corre apenas para chegar primeiro. Corre para prolongar a juventude antes que ela escape das mãos.
Os diálogos ajudam a explicar por que o filme permanece tão vivo. Em determinado momento, Jules descreve Catherine como uma rainha. Em seguida admite que talvez ela não fosse a mais bela, nem a mais inteligente, nem a mais sincera das mulheres. Ainda assim, jamais conhecera alguém semelhante. A frase revela muito mais sobre quem ama do que sobre quem é amado. Truffaut percebeu que certas pessoas alteram definitivamente a paisagem emocional daqueles que cruzam seu caminho. Depois delas, a vida prossegue, mas já não conserva exatamente a mesma luz.
Jeanne Moreau sustentava essa intensidade com uma economia rara de gestos. Um olhar prolongado parecia substituir páginas inteiras de diálogo. Numa das cenas mais delicadas, junto à janela, Catherine pronuncia quase num sussurro: “Ou está chovendo, ou estou sonhando.” Em outra passagem inesquecível, diz a Jim: “Você disse: ‘Eu te amo’. Eu disse: ‘Espere’. Eu estava prestes a dizer: ‘Leve-me’. Você disse: ‘Vá embora’.” Poucas obras conseguiram condensar, em tão poucas palavras, a distância quase invisível que às vezes separa duas pessoas destinadas a se amar.
Existe ainda um instante em que o cinema parece entregar lugar à música. Catherine pega o violão e canta Le Tourbillon de la Vie, composição de Serge Rezvani. Truffaut evita qualquer excesso. Mantém a câmera diante do rosto de Jeanne Moreau e permite que a canção conduza a narrativa. Cada verso fala de encontros, desencontros e retornos inesperados, como se resumisse a própria condição humana. Ainda hoje encontro enorme dificuldade para recordar outra sequência em que imagem, interpretação e música convivam com tamanha harmonia. A melodia permanece na memória muito depois de terminados os créditos, como acontece com certas amizades que continuam vivendo dentro de nós muito tempo depois do último abraço.
O mundo também atravessava profundas transformações quando Jules et Jim chegou aos cinemas em 1962. A Argélia conquistava sua independência, a Europa procurava reconstruir-se das feridas abertas por duas guerras mundiais e a Nouvelle Vague propunha um novo olhar sobre o indivíduo e a liberdade. Alguns anos mais tarde, Paris viveria Maio de 1968, Woodstock reuniria centenas de milhares de jovens e os Beatles mudariam definitivamente a história da música popular. Revendo o filme tantas décadas depois, tornou-se impossível ignorar que Truffaut havia captado, antes de muitos intelectuais e sociólogos, a atmosfera que marcaria aquela geração. Suas imagens continuam atravessando o tempo com a mesma leveza daqueles três jovens correndo sobre a ponte, como se a juventude ainda insistisse em acreditar que a liberdade sempre merece ser perseguida.
Cinquenta anos depois, a mesma travessia
A recepção de Jules et Jim esteve longe da unanimidade. Na França, a Comissão de Censura proibiu sua exibição para menores de dezoito anos sob a alegação de imoralidade. Nos Estados Unidos, a Legião Católica da Decência recomendou que os fiéis evitassem o filme. Na Itália, enfrentou restrições semelhantes. Sempre considerei revelador esse percurso. O adolescente que assistia livremente ao filme num cineclube brasileiro, em 1974, descobria que aquela obra também enfrentara desconfiança justamente em países que costumavam apresentar-se como guardiões da liberdade de expressão. A censura raramente desaparece. Apenas troca de argumentos, de idioma e de uniforme.
O reconhecimento artístico, entretanto, chegaria com a mesma intensidade das resistências iniciais. Roger Ebert observou que, embora o título homenageasse os dois amigos, Catherine ocupava o verdadeiro centro dramático da narrativa. James Monaco ressaltou a capacidade de Truffaut de contar uma história situada em outra época sem romper seu diálogo com a sensibilidade contemporânea. Jean Cocteau e Jean Renoir, cineastas admirados pelo próprio Truffaut, saudaram publicamente o filme logo depois da estreia. Não se tratava apenas do entusiasmo provocado por uma novidade estética. Havia a percepção de que uma obra destinada a permanecer acabava de nascer.
Aos quinze anos, naturalmente não compreendia tudo isso. Permaneceram comigo a amizade de Jules e Jim, a corrida sobre a ponte, a bicicleta atravessando Paris e a voz de Catherine cantando como se o tempo pudesse desacelerar apenas para ouvi-la. Enquanto o Brasil ensinava prudência, silêncio e resignação, Truffaut apresentava personagens que aceitavam viver com intensidade, mesmo sabendo que toda escolha cobra um preço. A verdadeira aprendizagem daquele adolescente talvez tenha sido perceber que a liberdade nunca chega desacompanhada da responsabilidade por seus próprios atos.
Meio século transcorreu desde aquela primeira sessão. Voltei inúmeras vezes a Jules et Jim. Cada reencontro revelou um filme diferente. Aos quinze anos, acompanhava personagens fascinantes tentando compreender o mundo. Hoje encontro homens e mulheres procurando compreender a si mesmos. A juventude permaneceu nas imagens; quem mudou fui eu. Talvez essa seja uma das marcas das grandes obras: oferecem respostas diferentes a cada etapa da existência porque também nos fazem perguntas diferentes.
Outra passagem adquiriu um peso inesperado com o passar do tempo. Perto do desfecho, Jim reconhece: “Brincamos com a vida… e perdemos.” Nunca escutei essa frase como simples conclusão dramática. Ela ressoa como advertência sobre a facilidade com que seres humanos confundem desejo com sabedoria. Pouco antes, Catherine pronuncia outra frase de extraordinária delicadeza: “Você está ferido? Então deixarei de estar ferida. Nunca devemos sofrer os dois ao mesmo tempo.” Truffaut encontra espaço para a ternura precisamente quando a tragédia já se anuncia inevitável. Talvez resida aí uma das maiores lições do filme: a delicadeza continua possível mesmo quando a vida parece caminhar na direção oposta.
Passaram-se cinquenta anos. Entrei e saí de centenas de salas de cinema, em muitos países, assisti a obras-primas consagradas e a filmes hoje quase esquecidos. Pouquíssimos permaneceram tão vivos quanto Jules et Jim. Ainda vejo, quando fecho os olhos, a bicicleta atravessando a ponte, Catherine cantando Le Tourbillon de la Vie, Jules e Jim caminhando lado a lado e o rosto inesquecível de Jeanne Moreau iluminado pela câmera de Truffaut.
Depois de reler Márcio Borges e revisitar esse filme extraordinário, compreendi algo que escapara ao adolescente de quinze anos. A amizade pode tornar-se uma força criadora. Foi assim com Jules e Jim. Foi assim com Márcio Borges e Milton Nascimento. Foi assim também com tantos artistas que encontraram no afeto, na confiança e na admiração recíproca a coragem necessária para criar obras destinadas a sobreviver aos seus próprios autores.
Talvez por isso Jules et Jim continue caminhando ao meu lado. Não como uma lembrança da juventude, mas como um velho amigo que, a cada reencontro, recorda que algumas obras de arte permanecem vivas porque continuam ensinando seres humanos a reconhecer, celebrar e proteger aquilo que possuem de mais precioso: a liberdade de criar, a coragem de amar e o privilégio raro de encontrar uma amizade capaz de atravessar toda uma vida.
