Likes valem mais que neurônios? A anatomia de uma prioridade invertida

A pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio manteve a patente nacional com recursos próprios, enquanto o registro internacional expirava por falta de financiamento público adequado

Washington Araújo - 21/02/2026

Num país em que a indústria da celebridade ocupa o centro do palco e a ciência disputa migalhas orçamentárias, não é surpresa que uma influenciadora que monetizou ilusões seja celebrada como símbolo máximo de relevância. O escândalo não é cultural apenas; é estrutural.

Enquanto likes rendem fortunas, laboratórios fecham planilhas no vermelho. O resultado não é simbólico: é perda concreta de patrimônio científico.

O Brasil perdeu a proteção internacional da polilaminina porque, em 2015 e 2016, simplesmente não pagou as taxas exigidas para manter e estender a patente fora do país. Não houve estratégia alternativa, nem fundo emergencial, nem prioridade política. Houve cortes orçamentários severos nas universidades federais, estrangulamento financeiro e abandono administrativo.

Patentes não sobrevivem à retórica

Patentes internacionais não sobrevivem à retórica; sobrevivem a pagamentos regulares em dólar e euro. Sem isso, o registro caduca. Caducou.

A bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é doutora em Ciências Biológicas, professora e cientista dedicada há décadas à pesquisa em regeneração neural. Nascida no Rio de Janeiro, com cerca de 50 anos, construiu carreira acadêmica sólida em neurociência experimental. Em entrevistas, foi direta: “A ciência brasileira produz conhecimento de ponta, mas não consegue protegê-lo”. Conseguiu manter a patente nacional com recursos próprios. O Estado falhou onde deveria liderar.

Sim, Nobel

E aqui está a palavra que evitamos pronunciar com naturalidade: Nobel. Sim, Nobel. Descobertas capazes de alterar o paradigma da regeneração neural, se confirmadas em larga escala, entram no território das premiações máximas da ciência mundial.

Não se trata de delírio nacionalista. Trata-se de dimensão científica. Pesquisas que devolvem movimento a pacientes tetraplégicos não são triviais; são disruptivas. São o tipo de avanço que redefine livros-texto e congressos internacionais.

Enquanto isso, o país que poderia estar sustentando uma potencial candidata ao Nobel deixa expirar a proteção internacional de sua tecnologia por falta de pagamento de taxas. Não é apenas descuido administrativo; é miopia estratégica. Ao abrir mão da exclusividade jurídica global, entregamos a outros a possibilidade de desenvolver, escalar e capitalizar uma descoberta nascida em laboratório brasileiro.

Uma mulher brasileira coordena estudos que oferecem nova perspectiva a pacientes que ouviram a palavra “irreversível” como sentença. A polilaminina estimula reorganização neuronal após lesões medulares, com resultados experimentais que despertaram atenção internacional. Se houver consolidação clínica robusta, o mundo científico reconhecerá. A questão é: estaremos preparados para dizer que apoiamos essa trajetória desde o início?

Confrontar prioridades

Não se trata de atacar celebridades. Trata-se, isso sim, de confrontar prioridades.

Entre filtros e flashes, existem jalecos, protocolos, submissões à Anvisa, relatórios técnicos e décadas de persistência silenciosa. Influência também é devolver autonomia motora. Relevância também é transformar dor em mobilidade.

Cortes orçamentários não são números neutros; são decisões que moldam o futuro. O episódio da polilaminina revela um país capaz de gerar ciência de fronteira, mas incapaz de protegê-la com a mesma intensidade com que protege interesses passageiros.

Se um Nobel um dia cruzar o nome dessa pesquisadora, a pergunta será inevitável: por que quase a deixamos sozinha?

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