Mais uma vez, a comunidade literária de Brasília é roubada de seu protagonismo

Escritores, editores, livreiros, ilustradores e coletivos do Distrito Federal cobram transparência sobre recursos, critérios e decisões de uma Bienal organizada às pressas em agosto

Washington Araújo - 08/08/2026

No dia 7 de agosto, faltando dez dias para a abertura anunciada da Bienal Internacional do Livro de Brasília, marcada para 17 a 23 de agosto no Museu Nacional da República, a programação ainda não havia sido divulgada nas redes oficiais. Autores convidados, mesas, atrações e critérios de participação continuavam prometidos para “em breve”. Para um evento que pretende representar a literatura de uma capital, o relógio já deixou de ser detalhe administrativo e passou a ser notícia. A entrada será gratuita, mérito, mas gratuidade ao público não substitui transparência na concepção do evento.

A realização está atribuída ao Instituto Eleva, em parceria com a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal. Documento encaminhado pela deputada distrital Dayse Amarilio registra emenda de R$ 2 milhões destinada ao projeto, datada de 7 de maio de 2026, ainda descrita naquele registro como sem autorização, sem liberação e “em análise”. Outra informação divulgada em grupo de movimentos culturais menciona termo de fomento de R$ 3,5 milhões, com extrato publicado no Diário Oficial e plano de trabalho em análise.

Somados, esses números exigem explicações públicas cuidadosas, e não insinuações apressadas. De onde virão exatamente os recursos? Quais parcelas foram efetivamente autorizadas? Qual plano de trabalho sustenta a execução? Que critérios definiram a escolha da organização responsável? E, sobretudo, onde estão escritores, poetas, editores, livreiros, ilustradores, universidades, academias e coletivos literários do Distrito Federal na construção da Bienal?

Feiras do livro ganham importância histórica justamente quando retiram autores locais da invisibilidade, apresentam novas gerações de escritores, fortalecem pequenas e médias editoras e fazem circular livros que dificilmente ocupariam as vitrines comerciais nacionais. Uma Bienal que importa nomes de prestígio, ergue grandes estruturas e deixa sua própria produção literária nas margens pode produzir espetáculo; dificilmente produzirá política cultural duradoura.

Conheço suficientemente a vida cultural de Brasília para saber que aqui existe uma comunidade literária madura, premiada e plural. Tratá-la como plateia de um evento concebido sem participação visível de seus agentes significa desperdiçar experiência acumulada durante décadas. Mais grave: significa utilizar o prestígio do livro enquanto se reduz quem efetivamente escreve, publica, vende, ilustra e mantém viva a literatura brasiliense a uma presença decorativa. Dinheiro público pode erguer tendas, contratar equipamentos e montar palcos em poucos dias; pertencimento cultural, credibilidade e representatividade exigem muito mais tempo.

Uma grande feira deveria funcionar também como política econômica para o livro local. Cada editora brasiliense ausente perde vendas, leitores e visibilidade; cada escritor afastado perde a oportunidade de encontrar o público de sua própria cidade. Quando recursos públicos financiam o evento, esse apagamento deixa de ser apenas uma escolha de curadoria e passa a exigir explicação política.

A crítica precisa ser igualmente responsável: os documentos apresentados, por si, não provam favorecimento, desvio ou ilegalidade. Provam, porém, que há dinheiro público envolvido e perguntas legítimas ainda sem respostas claras. Transparência, neste caso, deve chegar antes dos discursos de abertura.

Se Djamila Ribeiro e Leonardo Boff estiverem entre os convidados, vale dirigir-lhes uma pergunta pública, respeitosa e objetiva: ao participarem da Bienal, terão conhecimento de como a comunidade literária do Distrito Federal foi ouvida e incorporada à sua organização?

Brasília merece uma Bienal que abra espaço aos grandes nomes nacionais e internacionais, mas que reconheça primeiro a riqueza literária existente do lado de cá da porta. Autores e editoras locais não são figurantes convocados para legitimar uma festa pronta. São parte da razão pela qual uma feira do livro deve existir.

Brasília merece uma Bienal que tenha seus escritores no centro, e não na antessala.

https://revistaforum.com.br/opiniao/comunidade-literaria-brasilia-protagonismo/

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