No Azteca, a FIFA abre a Copa mais controversa do século

Entre mariachis, bilhões de dólares e fronteiras endurecidas, o futebol tenta preservar sua vocação universal

Washington Araújo - 12/06/2026

Amaior Copa do Mundo da história começa no México com 48 seleções, 104 jogos e três países-sede. Estados Unidos, México e Canadá apresentam ao planeta o torneio mais amplo já organizado pela FIFA. O mapa parece continental. A promessa parece universal. A realidade, porém, chega atravessada por tarifas, vistos, disputas diplomáticas, fronteiras endurecidas e uma entidade esportiva cada vez mais confortável ao lado do poder político e econômico.

A abertura no antigo Estádio Azteca, temporariamente chamado de Estádio Cidade do México por imposição das regras comerciais da FIFA, carrega uma ironia difícil de ignorar. O estádio que pertence à memória afetiva do futebol mundial precisou esconder seu próprio nome para caber no regulamento de uma organização que aprendeu a transformar tradição em ativo financeiro. O Azteca não desaparece da história porque a FIFA troca sua placa. Mas a troca diz muito sobre o tempo em que vivemos.

O Mundial de 2026 será também o mais lucrativo. Estimativas baseadas nos relatórios financeiros da própria FIFA apontam receitas próximas de US$ 10,9 bilhões. Os direitos de transmissão podem superar US$ 4,2 bilhões. Os patrocínios devem passar de US$ 2,8 bilhões. A premiação total às seleções foi elevada a patamar recorde, com cálculos comerciais indicando um bolo em torno de US$ 871 milhões e piso aproximado de US$ 12,5 milhões por equipe participante. Na média aritmética, isso representaria pouco mais de US$ 18 milhões por seleção, embora o valor real varie conforme desempenho, fases alcançadas e critérios da entidade.

O futebol nunca movimentou tanto dinheiro. O problema começa quando esse dinheiro passa a falar mais alto que a dignidade simbólica do próprio jogo.

Alinhamento não declarado

Gianni Infantino, presidente da FIFA, atravessou os últimos meses sob críticas pela proximidade crescente com Donald Trump. A relação, apresentada como pragmatismo institucional, passou a ser lida por parte da imprensa internacional como alinhamento político não declarado. O dirigente que deveria guardar distância republicana dos governos parece ter escolhido a intimidade com o principal líder do país que concentrará a maior parte dos jogos, das receitas, dos estádios e dos interesses comerciais do torneio.

A frase de Infantino diante das controvérsias de vistos resumiu a insuficiência moral da FIFA: a entidade, segundo ele, não controla governos. A declaração é formalmente defensável e humanamente pobre. Uma organização que negocia bilhões, impõe padrões a cidades, altera nomes de estádios, redefine calendários nacionais, pressiona federações e transforma países em vitrines planetárias não pode fingir impotência seletiva quando a política migratória ameaça o princípio básico da universalidade esportiva.

O árbitro somali

O caso de Omar Abdulkadir Artan expôs essa contradição de forma brutal. O árbitro somali, apontado como primeiro representante de seu país em uma Copa do Mundo, foi impedido de entrar nos Estados Unidos apesar de possuir visto válido. A explicação americana apoiou-se em restrições de segurança e na inclusão da Somália em listas migratórias. A consequência foi mais dura que qualquer nota diplomática: um profissional africano, qualificado, reconhecido e escalado para atuar no maior torneio do planeta, foi retirado da Copa por decisão política de fronteira.

Chamem de segurança, burocracia, prerrogativa soberana ou protocolo migratório. O efeito público foi outro. Pareceu xenofobia institucionalizada com carimbo de Estado e resignação da FIFA.

A delegação iraniana também enfrentou dificuldades ligadas a vistos e circulação. Parte das tratativas precisou ser reorganizada diante das restrições impostas pelos Estados Unidos. O futebol, que durante décadas repetiu discursos sobre união dos povos, entra em campo em 2026 carregando dossiês consulares, vetos seletivos e constrangimentos diplomáticos. A bola ainda rola, mas agora passa por corredores onde se decidem tarifas, sanções, permissões de entrada e conveniências eleitorais.

Atritos tarifários

O ambiente entre os três países-sede tampouco corresponde à imagem pacífica vendida em 2018, quando a candidatura conjunta venceu. Desde 2025, Donald Trump reacendeu atritos tarifários com México e Canadá, pressionou cadeias produtivas, ameaçou setores estratégicos e usou comércio exterior como instrumento de coerção política. Claudia Sheinbaum, no México, precisou responder com cautela e firmeza. Mark Carney, no Canadá, herdou uma relação marcada pela desconfiança. O Mundial nasceu como projeto de integração continental e chega ao público envolto em uma disputa econômica que envenena justamente a fronteira que deveria celebrar.

Nada disso impede a beleza da festa. Mas reduz a inocência do espetáculo.

O peso da memória

O México, ao receber a abertura, ofereceu ao mundo algo que não cabe nos balanços financeiros da FIFA. Mariachis, ritmos populares, trajes tradicionais, referências indígenas, música latina contemporânea e uma multidão tomada por orgulho nacional formaram uma cena de forte identidade cultural. J Balvin, Alejandro Fernández, Tyla, Salma Hayek e outras presenças deram ao evento uma dimensão de América Latina profunda, urbana, mestiça, popular e internacional. O México não se apresentou como cenário alugado para uma marca global. Apresentou-se como país que conhece o peso de sua memória.

Essa diferença importa. A Alemanha, em 2006, abriu sua Copa com precisão e reconstrução simbólica. A África do Sul, em 2010, emocionou o mundo ao transformar vuvuzelas, dança e ancestralidade em afirmação continental. O Brasil, em 2014, tentou vender diversidade, mas entregou uma abertura domesticada pela estética televisiva. A Rússia, em 2018, apostou na monumentalidade controlada. O Catar, em 2022, exibiu poder econômico, engenharia impecável e uma cerimônia calculada para reposicionar sua imagem internacional. O México, em 2026, chega com outra matéria-prima: raiz, rua, voz, festa, melodia e memória futebolística acumulada no cimento do Azteca.

Pelé, o inolvidable

Estive em Guadalajara em 1997. Visitei o Estádio Azteca naquela viagem como quem se aproxima de um lugar onde o futebol deixou de ser apenas jogo. Pelas ruas, bastava alguém me reconhecer como brasileiro para que a conversa mudasse de temperatura. Portas se abriam, sorrisos apareciam, perguntas surgiam. O Brasil ainda era, para muitos mexicanos, uma espécie de parente luminoso do futebol.

Quase todos os mexicanos com quem conversei preferiam Pelé. Alguns diziam isso com a naturalidade de quem comenta o clima. Outros pronunciavam o nome dele com reverência. Pelé, diziam, era inolvidable. Inesquecível. A palavra em espanhol tinha uma doçura própria. Não era estatística, pesquisa ou ranking. Era memória afetiva atravessando gerações.

Os mais velhos falavam da seleção brasileira de 1970 como se tivessem assistido a uma obra de arte diante dos próprios olhos. Recordavam o toque de bola, a elegância, a alegria do jogo, a sensação de que o Brasil havia inventado uma forma superior de beleza coletiva. No mesmo estádio, em 1986, Maradona consagrou a Argentina. Ainda assim, muitos mexicanos tratavam com humor a velha disputa sobre quem teria sido maior. Pelé era reverenciado; Maradona, admirado. A diferença aparecia na temperatura da voz.

Simpatia e soberba

No centro de Guadalajara, uma jovem de 32 anos chamada Alejandra Martínez me disse, entre risos, que os mexicanos gostavam do Brasil pela alegria do futebol, pelo Carnaval e pela hospitalidade do povo brasileiro. Em seguida, comparou essa simpatia à maneira como via certa soberba argentina diante dos demais países latino-americanos. Tenho muitos amigos argentinos e nunca me senti à vontade com generalizações nacionais. A verdade mesmo é que gosto da Argentina. Ela é muito mais do que qualquer estereótipo. Fiquei calado. Alejandra, porém, não ficou.

Ela perguntou:

— Você sabe por que, quando chove e há muitos relâmpagos, os argentinos vão para a rua?

Respondi que a hipótese jamais me passara pela cabeça.

Ela concluiu com uma gargalhada:

— Porque pensam que Deus vai tirar uma foto deles.

A piada, evidentemente, dizia mais sobre a rivalidade futebolística latino-americana do que sobre um povo inteiro. Mas guardava uma verdade cultural: o futebol, neste continente, sempre foi também uma linguagem de afeto, ironia, orgulho, disputa simbólica e pertencimento. O México sabia rir. Sabia admirar. Sabia receber.

É por isso que a abertura da Copa no Azteca pesa tanto.

Em campo, o torneio reúne singularidades raras. Cristiano Ronaldo e Lionel Messi chegam à sexta Copa, feito que transforma longevidade em patrimônio esportivo. Craig Gordon, goleiro da Escócia, aparece como o jogador mais velho entre os inscritos, acima dos 43 anos. Guillermo Ochoa, mexicano, volta como personagem de uma Copa em casa e símbolo de resistência geracional. Entre os jovens, Gilberto Mora, do México, surge aos 17 anos como promessa de uma nova época; Lamine Yamal, da Espanha, e outros adolescentes carregam a juventude que o marketing adora transformar em destino antes mesmo de a bola confirmar a profecia. Cabo Verde, Jordânia e Uzbequistão aparecem entre os estreantes de maior força narrativa, lembrando que a expansão para 48 seleções também abre portas antes fechadas aos países fora do eixo tradicional.

Esse é o lado luminoso da ampliação. Mais países, mais histórias, mais sotaques, mais hinos, mais torcidas, mais meninos vendo sua bandeira no centro do mundo. O outro lado é menos nobre: mais jogos, mais cotas comerciais, mais pacotes de transmissão, mais ingressos caros, mais zonas VIP, mais hospitalidade corporativa, mais dependência de governos que nem sempre compreendem o espírito universal do esporte.

A FIFA

A FIFA vende inclusão, mas opera como conglomerado. Fala em povos, mas negocia como império privado. Celebra diversidade, mas aceita que um árbitro africano seja retirado do torneio por barreira migratória. Convoca o planeta, mas se curva à lógica de fronteiras seletivas quando o constrangimento ameaça seu relacionamento com o poder americano.

Essa é a ferida da Copa de 2026.

Muros invisíveis

A cerimônia mexicana tentou lembrar ao mundo que o futebol ainda pertence aos povos antes de pertencer aos patrocinadores. A música, os trajes, os mariachis, a festa popular e a memória do Azteca disseram mais que muitos discursos oficiais. Mas nenhuma celebração apaga o fato de que a maior Copa da história começou cercada por muros invisíveis.

O futebol une, a política separa

O Azteca viu Pelé em 1970. Viu Maradona em 1986. Agora vê uma FIFA bilionária atravessar 2026 tentando conciliar festa popular, diplomacia de conveniência, interesses comerciais e governos em conflito.

O futebol continua sendo uma das últimas línguas comuns da humanidade. A tragédia é perceber que seus administradores parecem cada vez menos interessados em proteger essa língua. Preferem vendê-la em pacotes, condicioná-la a vistos, submetê-la a alianças políticas e revesti-la de slogans sobre união enquanto aceitam exclusões concretas diante dos olhos do mundo.

Em 1997, os mexicanos me ensinaram que Pelé era inolvidable. Em 2026, a FIFA parece precisar aprender uma lição mais simples: certos nomes, certos estádios, certos povos e certos princípios não podem ser tratados como peças móveis de um contrato.

O futebol ainda une. A política separa. O dinheiro cobra ingresso na porta. E a FIFA, que deveria proteger a festa, parece cada vez mais interessada em administrar o cofre.

https://revistaforum.com.br/opiniao/no-azteca-a-fifa-abre-a-copa-mais-controversa-do-seculo/

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