O Brasil que vi do ônibus precisa ficar enterrado no passado

Em plena ditadura, quarenta e dois passageiros atravessaram a Transamazônica entre abandono, suspeita e morte; daquela viagem nasceu a urgência de o Brasil derrotar seu passado

Washington Araújo - 09/10/2026

Em março de 1978, aos 18 anos, fiz minha maior viagem de ônibus: quatro dias de Belém a Santarém pela Transamazônica, aberta poucos anos antes. O Brasil vivia sob a ditadura militar. O clima era opressivo, as liberdades permaneciam vigiadas e suspeitava-se de quase tudo, inclusive das palavras ditas a desconhecidos. Eu queria conhecer aquela estrada e um país que imaginava inexplorado. Chovia muito. Em vários trechos, a floresta já avançava sobre a terra batida; depois de centenas de quilômetros, encontrávamos pequenas casas que serviam de bar e apoio ao ônibus. Havia pouco trânsito, e cada parada revelava o abandono ocultado pelo discurso oficial de progresso.

No ônibus, depois do primeiro dia, instalou-se uma convivência que conheço de acampamentos urbanos: passageiros que mal haviam trocado os nomes passaram a contar episódios de suas vidas. Alguém avisava quando era hora de descer, esticar as pernas, comer ou resolver alguma necessidade. Provei tucunaré, pupunha, tacacá e outros sabores oferecidos à beira da estrada. A viagem nos aproximava porque o caminho, a chuva e a demora eram problemas compartilhados.

No segundo dia, o motorista teve febre e passou mal. Ficamos parados num daqueles pontos rústicos de apoio. Ele morreu no terceiro dia, enquanto aguardávamos a chegada de um substituto. Uns diziam que poderia ser malária; outros suspeitavam de uma picada. Ninguém sabia ao certo. Éramos 40 passageiros, unidos por uma notícia que alterou o sentido do percurso. Chegamos a Santarém no fim da tarde do quarto dia, levando conosco a ausência de quem nos conduzira até ali.

Aquela viagem me deu o olhar social que carrego ainda hoje. Mostrou-me uma vida distante da segurança de classe média familiar à qual estava acostumado e aproximou pessoas que, em outras circunstâncias, talvez seguissem sem se conhecer. Aprendi a reconhecer os desconhecidos como gente próxima. A facilidade que tenho para fazer amizades em pouco tempo também nasceu ali, no espaço estreito de um ônibus, quando a confiança deixou de ser uma ideia abstrata e se tornou atenção recíproca.

Essa lembrança ajuda a compreender por que uma cooperativa, uma pesquisa, um pequeno negócio ou uma associação de bairro depende tanto de compromissos cotidianos.

Em todos esses casos, pessoas diferentes precisam combinar tarefas, dividir responsabilidades e aceitar que a palavra dada terá consequências. A confiança começa a ganhar corpo quando cada integrante sabe o que lhe cabe e encontra os demais dispostos a cumprir o que foi acertado. Sem esse trabalho, a iniciativa comum permanece apenas uma intenção.

Morte e Vida de Grandes Cidades

A escritora e urbanista norte-americana Jane Jacobs estudou a vida das cidades a partir das ruas, dos comerciantes, dos vizinhos e dos encontros que se repetem. Em Morte e Vida de Grandes Cidades, observou como a familiaridade entre pessoas que compartilham espaços públicos pode produzir atenção e responsabilidade. Sua reflexão ilumina também aquele ônibus: a proximidade não surgiu de afinidades previamente escolhidas, mas da convivência e da percepção de que o bem-estar de cada um dependia, em alguma medida, dos outros.

Para que a confiança sustente uma organização, porém, a boa vontade precisa encontrar regras claras. Numa cooperativa, contas compreensíveis e decisões acompanhadas protegem o trabalho de todos.

Numa pesquisa, os participantes merecem saber como suas informações serão usadas. Num pequeno negócio, acordos cumpridos preservam a renda de quem fornece e de quem trabalha. Quando faltam transparência e responsabilidade, o prejuízo ultrapassa o desacordo entre duas pessoas: compromete a possibilidade de continuar juntos.

O Espaço do Cidadão

Também a paisagem vista da janela de um ônibus fala das condições que aproximam ou separam os brasileiros. O geógrafo Milton Santos, em O Espaço do Cidadão, estudou como o território interfere no acesso à cidadania. Morar longe de escolas, hospitais, trabalho e transporte adequado significa gastar tempo e recursos que outras pessoas podem dedicar a escolhas diferentes. A distância, portanto, não se mede apenas em quilômetros: pesa na liberdade concreta de cada cidadão.

Em cada percurso, os passageiros carregam vidas que quase nunca se encontram por inteiro. A estudante calcula a hora de chegada à aula; o trabalhador mede o tempo perdido no deslocamento; alguém viaja para visitar a família ou procurar emprego. Observar essas diferenças exige mais que registrar a paisagem. Exige perguntar quais decisões produziram aquelas distâncias e quem paga diariamente por elas. O país se revela tanto no que seus habitantes conseguem alcançar quanto nos caminhos que lhes são negados.

Quase cinco décadas depois, aquela viagem permanece como referência pessoal, social e política. A morte do motorista nos colocou diante da fragilidade; a espera exigiu que cuidássemos uns dos outros e encontrássemos uma maneira de prosseguir. Nas próximas semanas, as decisões tomadas pelo Brasil poderão conduzi-lo ao futuro ou empurrá-lo de volta ao passado que vi naquele ônibus: um país de distâncias imensas, serviços escassos, vidas desprotegidas e cidadãos obrigados a enfrentar sozinhos as consequências do abandono. Guardo a camaradagem dos passageiros como prova de nossa capacidade de criar confiança. Mas nenhum povo deve depender apenas da solidariedade surgida durante a emergência. O rumo escolhido mostrará se aprendemos com a história ou se aceitaremos percorrê-la novamente, pela mesma estrada.

https://revistaforum.com.br/opiniao/o-brasil-que-vi-do-onibus-precisa-ficar-enterrado-no-passado/

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