O carro elétrico já está mudando a arquitetura das cidades brasileiras

Garagens, cidades e rodovias entram na era da recarga, enquanto 25.455 pontos e 8.606 carregadores rápidos mostram uma vantagem decisiva: o carro elétrico pode entregar economia real ao motorista

Washington Araújo - 13/08/2026

Em apenas cinco anos, o carro elétrico ainda ocupava um espaço pequeno no mercado automobilístico latino-americano. As vendas eram discretas e a tecnologia parecia distante da realidade de grande parte dos consumidores. Desde então, os números começaram a contar outra história.

A participação dos carros elétricos nas vendas de veículos novos cresceu em alguns dos principais mercados da região. A Colômbia saiu de uma presença próxima de zero para 10% em cinco anos, alcançando o mesmo patamar registrado pelos Estados Unidos na comparação da Our World in Data. O México também ganhou velocidade: entre 2024 e 2025, a participação passou de 2% para 7%. A série considera veículos totalmente elétricos e híbridos plug-in.

Há algo que merece ser observado antes de olhar para os números seguintes. A mudança tecnológica não acontece apenas na concessionária. Ela começa a alterar a casa, o condomínio, a rua, a estrada e a maneira como pensamos o próprio ato de abastecer um automóvel.

Os percentuais ajudam a dimensionar uma transformação que chegou às escolhas dos consumidores.

A base ainda é desigual entre os países, mas a expansão da frota elétrica começa a produzir uma consequência que vai além das concessionárias: cidades, edifícios, empresas de energia e rodovias precisam adaptar sua infraestrutura.

A curva mudou

Na Colômbia, incentivos fiscais contribuíram para acelerar a entrada dos veículos elétricos. O mesmo princípio aparece em outros mercados latino-americanos, com diferentes combinações de redução tributária, benefícios para os proprietários e estímulos à infraestrutura.

O Brasil acrescenta uma característica própria à fotografia regional. A estatística da Associação Brasileira do Veículo Elétrico reúne sob a categoria de eletrificados veículos 100% elétricos, híbridos plug-in, híbridos convencionais, híbridos flex e outras tecnologias. Por isso, seus números não podem ser comparados diretamente com a série internacional sem observar a metodologia de cada levantamento.

Em 2025, o país registrou 223.912 emplacamentos de veículos leves eletrificados, segundo a ABVE, alta de 26% sobre o ano anterior. O mercado automobilístico brasileiro como um todo cresceu 2,6% no mesmo período.

A parcela formada pelos veículos plug-in merece atenção especial. Em 2024, foram 125.624 unidades, somando modelos 100% elétricos e híbridos plug-in. O crescimento sobre 2023 chegou a 140%.

O prédio entra na equação

A mudança começa antes de o motorista colocar o carro na garagem. Nos novos empreendimentos imobiliários, a infraestrutura elétrica necessária para uma futura recarga passou a entrar no debate de projetistas, construtoras, condomínios e autoridades.

A ABNT NBR 17019 estabeleceu requisitos para instalações elétricas de alimentação de veículos elétricos, incluindo critérios para equipamentos de recarga e dimensionamento da infraestrutura. A norma oferece uma referência técnica para um problema que, em muitos edifícios, só aparecia quando o primeiro morador comprava um carro elétrico.

Quando se observa a vida de um condomínio, a mudança parece maior do que sugere a palavra recarga. Não estamos falando “apenas de instalar uma tomada”. É preciso pensar em capacidade elétrica, medição individual, distribuição das vagas, regras de uso, segurança e expansão futura. Uma garagem projetada hoje poderá continuar recebendo novos carros elétricos durante décadas.

No Distrito Federal, a discussão chegou ao Legislativo. Um projeto apresentado em 2021 propôs que novos edifícios tivessem preparação elétrica compatível com a instalação individualizada de pontos de recarga nas garagens. Em 2025, outro projeto voltou a tratar da infraestrutura mínima para estações individuais em novas edificações residenciais.

O movimento também alcançou a área de segurança. No Espírito Santo, o Corpo de Bombeiros publicou em março de 2026 a Norma Técnica nº 23, estabelecendo requisitos para garagens e sistemas de alimentação destinados à recarga de veículos elétricos. A regra abrange edifícios residenciais, comerciais, industriais, estacionamentos e edifícios-garagem.

Os dados disponíveis ainda não permitem afirmar quantos prédios brasileiros já foram entregues com carregadores ou com infraestrutura preparada para todas as vagas. Permitem afirmar algo mais específico: a recarga passou a fazer parte das decisões de projeto de novas edificações e das normas que regulam sua segurança.

Isso muda a relação entre o automóvel e a casa.

Para quem mora em uma residência unifamiliar, a recarga pode ser incorporada à rotina doméstica com relativa simplicidade. Nos edifícios, ela depende da capacidade da instalação elétrica, da distribuição das vagas, da medição individual do consumo, das regras do condomínio e das exigências de segurança.

A estrada deixou de ser o vazio

Durante os primeiros anos da expansão dos elétricos no Brasil, a autonomia era apenas uma parte do problema. O motorista precisava saber onde conseguiria recarregar a bateria depois de deixar sua cidade.

A situação começou a mudar em ritmo acelerado. Em fevereiro de 2026, o Brasil tinha 21.061 pontos públicos e semipúblicos de recarga, segundo levantamento da ABVE em parceria com a Tupi Mobilidade. Essa rede reúne diferentes tipos de equipamentos. Os pontos públicos são aqueles disponíveis para qualquer motorista, como os instalados em vias, estacionamentos e áreas de acesso aberto. Os semipúblicos ficam em locais de acesso controlado, como shoppings, supermercados, hotéis, condomínios e estacionamentos. Em ambos os casos, o motorista pode recarregar o veículo fora de casa.

Dentro dessa rede há outra diferença importante: a velocidade de recarga. Os equipamentos convencionais fornecem energia mais lentamente e são adequados para períodos em que o carro permanece estacionado por mais tempo. Já os carregadores rápidos e ultrarrápidos entregam muito mais energia em menos tempo e têm papel decisivo nas viagens rodoviárias.

Entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026, esses equipamentos passaram de 2.430 para 6.479, um aumento de 167%. No mesmo período, o número total de pontos públicos e semipúblicos cresceu de 14.827 para 21.061, alta de 42%.

A expansão também alcançou o território. Em fevereiro de 2026, 1.649 municípios brasileiros já tinham pontos de recarga, contra 1.363 um ano antes. O Norte passou de 47 para 82 municípios atendidos; o Nordeste, de 326 para 412; e o Centro-Oeste, de 121 para 152.

Um levantamento citado pelo Correio Braziliense apontou 1.788 municípios com infraestrutura de recarga em junho.

Vale imaginar a diferença para quem pretende cruzar o Brasil. Uma viagem de 500 quilômetros que exigia apenas a escolha de um posto de combustível passa a exigir alguma informação adicional: onde está o carregador, qual é sua potência, qual conector utiliza e se estará disponível quando o carro chegar.

A distância entre dois pontos deixa de ser apenas uma medida no mapa e passa a ser parte do planejamento da viagem.

Projetos específicos começaram a preencher esses corredores. No Paraná, uma iniciativa prevê 26 estações de recarga rápida distribuídas pelas principais rodovias do estado, com distância aproximada de 120 quilômetros entre pontos. A rede alcança trechos das BR-376 e BR-101 e chega a cidades de Santa Catarina.

A expansão também chegou às rodovias federais por meio de investimentos privados e projetos-piloto. A Volvo instalou 75 carregadores rápidos em 18 estados até setembro de 2025, cobrindo mais de 31 mil quilômetros de rodovias. Em 2026, a empresa informou que mantém essa rede, com mais de 140 conectores e investimento de cerca de R$ 70 milhões.

Há ainda uma tentativa de levar a infraestrutura para um modelo mais integrado às rodovias federais. O Ministério dos Transportes lançou um projeto-piloto destinado a testar soluções tecnológicas, regulatórias e operacionais para eletropostos nas estradas federais.

A diferença em relação ao abastecimento tradicional continua evidente. O motorista de um carro a gasolina raramente começa uma viagem perguntando onde existe o próximo posto. A rede de combustíveis já está incorporada à paisagem rodoviária brasileira. Para o carro elétrico, essa previsibilidade ainda está sendo construída.

A paisagem que pode desaparecer

Desde que o primeiro automóvel chegou ao Brasil, em 1891, uma nova paisagem foi se formando ao redor dele. Primeiro vieram os carros, depois as garagens, as oficinas e, com a expansão da frota, os postos de combustíveis. Ao longo de gerações, o brasileiro se acostumou à arquitetura desses lugares: o grande pé-direito, as coberturas largas, as fileiras de bombas, os letreiros luminosos das bandeiras e o movimento constante de carros entrando e saindo. A gasolina passou a dividir espaço com o álcool e, mais tarde, com o etanol.

Nas últimas décadas, os postos ganharam outro papel. As lojas de conveniência transformaram muitos deles em pequenos mercados abertos a quem precisava de um café, uma água, um lanche ou uma compra rápida. O posto deixou de ser apenas o lugar onde o automóvel recebia combustível e passou a fazer parte da rotina urbana brasileira.

Agora vale imaginar outra paisagem. À medida que os carros elétricos ganharem participação, a recarga poderá acompanhar o motorista em lugares onde ele já permanece por outras razões: estacionamentos de shopping centers, supermercados, hotéis, hospitais, centros médicos, universidades e edifícios comerciais.

Em Brasília, a transformação poderá adquirir uma característica própria. As quadras comerciais, espalhadas pela cidade e incorporadas à vida cotidiana de seus moradores, oferecem uma rede natural de pontos onde o motorista poderia deixar o carro carregando enquanto trabalha, almoça, consulta um médico ou faz compras. Em vez de procurar um lugar específico para abastecer, o motorista poderá encontrar energia onde já precisa estar.

Há algo fascinante nessa mudança. Durante mais de um século, organizamos a relação com o automóvel em torno de lugares destinados ao abastecimento. A eletrificação permite que o abastecimento se misture à própria rotina. O carro pode receber energia enquanto o proprietário faz outra coisa. O tempo destinado à recarga passa a coincidir com o tempo da vida.

Se a expansão dos elétricos mantiver um ritmo forte nas próximas duas décadas, talvez seja possível imaginar uma mudança ainda mais profunda. Daqui a 20 anos, postos de gasolina poderão começar a ocupar no imaginário coletivo um lugar semelhante ao das máquinas de escrever.

Elas não desapareceram porque alguém decretou seu fim; foram sendo empurradas para fora da vida cotidiana por uma tecnologia mais conveniente, até se tornarem objetos de memória, museus e coleções. Os grandes postos, com suas bombas e coberturas, poderão seguir o mesmo caminho. Talvez ainda existam, como existem máquinas de escrever, mas já não serão parte indispensável da paisagem.

Para quem nascer depois dessa transição, a pergunta poderá ter a mesma estranheza que hoje provoca uma máquina de datilografia entre jovens que cresceram cercados por computadores: por que os motoristas precisavam ir a um lugar específico para colocar energia no carro?

A conta chega em casa

Existe outra dimensão dessa mudança, menos discutida nas estatísticas de vendas: o orçamento familiar.

Considere um motorista que hoje gaste R$ 1.200 por mês com gasolina. A Petrobras informa preço médio nacional de R$ 6,58 por litro, com base em dados da ANP e da CEPEA/USP e coleta realizada de 12 a 18 de julho de 2026. Esse valor corresponde a cerca de 182 litros de gasolina.

Se esse motorista estiver usando um carro 1.0 que faça, como hipótese de cálculo, 12 quilômetros por litro, percorrerá aproximadamente 2.185 quilômetros por mês. É uma simulação: o consumo real depende do modelo, trânsito, velocidade, carga e estilo de condução. O Inmetro mantém as tabelas oficiais do Programa Brasileiro de Etiquetagem Veicular para permitir comparações entre modelos.

Tomemos como referência o Renault Kwid E-Tech, que custa R$ 99.990. Em teste do Motor1, o modelo apresentou consumo de 8,5 kWh/100 km no uso urbano e 11,5 kWh/100 km no rodoviário.

Para percorrer os mesmos 2.185 quilômetros, usando como referência o consumo urbano do teste, seriam necessários cerca de 186 kWh. Considerando, apenas para a simulação, uma tarifa residencial efetiva de R$ 1 por kWh, o gasto mensal seria de aproximadamente R$ 186. A diferença diante dos R$ 1.200 de gasolina chegaria a cerca de R$ 1.014 por mês, ou R$ 12,2 mil em um ano.

Vale fazer uma pausa nessa conta. Ela não diz quanto custa possuir um carro elétrico. Diz quanto pode custar a energia para percorrer a mesma distância. Preço do veículo, financiamento, seguro, pneus, manutenção, eventual instalação de carregador e tarifas de recarga pública entram em outra conta.

Mesmo com essas limitações, a ordem de grandeza ajuda a explicar por que o custo de energia se tornou parte importante da conversa sobre os elétricos.

Quem consegue carregar o veículo em casa transforma a garagem em um ponto de abastecimento particular. Quem depende de carregadores rápidos públicos enfrenta outra estrutura de preços. Fato.

Ao olharmos para a economia doméstica, a mudança ganha uma dimensão concreta. R$ 1.014 de diferença mensal, na hipótese adotada, representam dinheiro que deixa de sair do orçamento para abastecer o carro. Ao longo de um ano, são mais de R$ 12 mil. A decisão sobre a motorização passa, nesse momento, pela matemática cotidiana da família.

O mercado procura seu novo desenho

O Brasil entrou nessa transformação com uma combinação particular de tecnologias. Possui uma indústria automobilística de grande escala, uma cadeia de biocombustíveis consolidada e uma matriz elétrica com elevada participação de fontes renováveis. Ao mesmo tempo, recebe novos fabricantes e investimentos destinados à produção local de veículos eletrificados.

A infraestrutura acompanha esse movimento. Em agosto de 2024, o país havia ultrapassado 10 mil pontos públicos e semipúblicos de recarga. Em fevereiro de 2026, já eram 21.061. O salto ocorreu em menos de dois anos.

A velocidade também aparece na qualidade da rede. Os carregadores rápidos e ultrarrápidos representavam 16% dos pontos públicos e semipúblicos em fevereiro de 2025. Um ano depois, eram 31%.

Isso importa porque uma rede de recarga precisa acompanhar a forma como o automóvel é usado. Carregar durante a noite em casa é uma experiência diferente de parar em uma rodovia. O primeiro caso depende da infraestrutura residencial. O segundo exige potência, localização estratégica e disponibilidade.

A mudança tecnológica também cria uma nova cadeia econômica: fabricantes de carregadores, empresas de software, instaladores, concessionárias de energia, administradores de condomínios, postos de serviço e operadores de redes de recarga passam a ocupar funções que praticamente não existiam no mercado automobilístico brasileiro há poucos anos.

Quando se olha para tudo isso em conjunto, a transformação parece menos uma mudança de combustível e mais uma mudança de infraestrutura. O carro continua ocupando a rua, a garagem e a estrada, mas a energia necessária para movê-lo começa a chegar por caminhos diferentes.

Os números latino-americanos mostram que a transição ganhou velocidade. Os números brasileiros mostram algo mais: ela já começou a reorganizar o cotidiano.

A pergunta que há quatro anos podia interromper uma conversa sobre a compra de um carro elétrico era simples: “Onde vou carregar?”

Hoje, a resposta está deixando de depender de um único ponto. Pode estar na garagem do apartamento, no estacionamento de um shopping, em uma cidade do interior ou em uma parada de estrada. A rede ainda está em construção, mas já deixou de ser uma promessa distante.

O carro elétrico começa a exigir do Brasil uma infraestrutura tão extensa quanto a que o país construiu para o automóvel convencional. Desta vez, o abastecimento começa em casa.

https://revistaforum.com.br/opiniao/o-carro-eletrico-ja-esta-mudando-a-arquitetura-das-cidades-brasileiras/

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