O cassino que levamos no bolso (por Washington Araújo)

O Brasil legalizou as bets antes de medir seus danos e agora corre para conter dependência, endividamento e publicidade agressiva

Washington Araújo - 09/09/2026

Na primeira semana de setembro de 2026, o Brasil apertou o cerco às bets. No dia 2, a Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado aprovou restrições à publicidade e ao patrocínio das empresas de apostas. No dia seguinte, o Ministério da Justiça regulamentou a recuperação de mais de R$ 1 bilhão bloqueado de operadores ilegais. Em julho, o governo federal já havia tornado obrigatórias as advertências sobre dependência e perda de dinheiro nas campanhas.

As apostas esportivas foram autorizadas em dezembro de 2018; uma lei de 2023 ampliou o mercado; desde janeiro de 2025, empresas precisam de autorização federal para operar. Em poucos anos, as bets passaram de uma atividade periférica para a presença no futebol, nos celulares e no orçamento doméstico.

Sempre me pareceu pobre reduzir essa discussão à liberdade de adultos escolherem onde gastar dinheiro. Quem aposta encontra empresas capazes de registrar acesso, depósitos, perdas, frequência e reação depois de uma derrota. A plataforma aprende quanto cada usuário arrisca, quanto demora para voltar e quanto aumenta o valor ao tentar recuperar o prejuízo.

Quanto mais observo esse mercado, mais me preocupa essa diferença de forças. Para o apostador, podem ser minutos diante de uma partida. Para a empresa, esses minutos ajudam a construir um retrato comportamental e a oferecer uma nova aposta quando a pessoa está mais propensa a continuar.

A perda tem endereço

A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 1,2% dos adultos sofram de transtorno relacionado ao jogo. Pessoas que apostam em níveis prejudiciais respondem por aproximadamente 60% das perdas que alimentam a receita global do setor. Parte do dinheiro vem de jogadores cuja relação com a aposta já produz danos.

Esse número sempre me leva para dentro das casas. O salário entra; uma aposta parece pequena; depois vem outra. Uma perda maior alimenta a esperança de recuperação. Surgem depósitos, empréstimos, faturas adiadas, dívidas escondidas e promessas de parar. A pessoa passa a procurar no próprio jogo uma saída para o prejuízo ampliado.

A psicologia conhece esse mecanismo. Recompensas imprevisíveis favorecem a repetição, vitórias ocasionais prolongam a expectativa e perdas sucessivas podem levar à perseguição do dinheiro perdido. O celular acrescentou velocidade. Entre perder cem reais e tentar recuperá-los podem existir poucos segundos.

Vejo nessa disponibilidade uma mudança grave. A aposta acompanha a pessoa até a cama, aparece numa madrugada de insônia, depois de uma discussão ou minutos após o salário cair. A tecnologia aproximou o jogo de situações em que a capacidade de ponderar pode estar reduzida.

A Europa impôs freios

Na Alemanha, há limite mensal de 1.000 euros em depósitos no conjunto das plataformas autorizadas e no sistema centralizado de autoexclusão. No Reino Unido, caça-níqueis on-line têm limites por rodada e intervalos mínimos entre jogadas. Nos Países Baixos, a publicidade não direcionada de jogos on-line saiu da televisão, do rádio e de espaços públicos; desde julho de 2025, empresas do setor estão impedidas de patrocinar clubes e competições.

Considero útil a lógica que acompanha o jogador, e não apenas cada empresa. Uma solicitação de autoexclusão deveria bloquear todas as contas, impedir novos cadastros e suspender mensagens promocionais. Também defenderia limite nacional de depósitos por CPF e teto de valor e velocidade para jogos de repetição rápida.

O Brasil poderia agir agora. Defendo a proibição da publicidade de bets na televisão aberta entre 8 e 22 horas. Também proibiria campanhas com influenciadores, atletas e celebridades com menos de 45 anos, além daqueles com forte audiência jovem. Cada propaganda deveria trazer mensagem clara: “Apostas podem causar dependência psicológica, descontrole financeiro e endividamento.”

Retiraria ainda as marcas de bets das camisas dos clubes, das placas de estádios e do patrocínio de competições. Crianças reconhecem escudos, jogadores e patrocinadores muito antes de compreender os riscos do jogo. Ao atingir a idade legal para apostar, algumas dessas empresas já fazem parte de sua memória esportiva.

Minha posição contra a legalização se tornou mais firme ao observar o que permanece fora das planilhas: o empréstimo escondido, a fatura sem pagamento, a vergonha diante dos filhos, a noite mal dormida e a esperança de recuperar numa nova aposta o dinheiro perdido na anterior. O Estado licencia empresas e recolhe impostos; famílias e serviços de saúde recebem parte das consequências.

Defendo a proibição das bets no Brasil. Enquanto essa decisão não reunir apoio político, há medidas capazes de reduzir sua presença, sua publicidade e sua capacidade de explorar comportamentos arriscados. Em 2018, o país abriu esse mercado. Em setembro de 2026, começa a descobrir quanto custa controlá-lo depois que ele já entrou no cotidiano.

https://sul21.com.br/opiniao/2026/09/o-cassino-que-levamos-no-bolso-por-washington-araujo/

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