O Catar diante de sua própria contradição

Enquanto a intolerância religiosa aumenta globalmente, os bahá’ís do Catar enfrentam detenções, expulsões e insegurança permanente

Washington Araújo - 09/06/2026

Existe uma contradição crescente no cenário internacional contemporâneo. Ao mesmo tempo em que governos multiplicam discursos sobre diálogo, diversidade e coexistência pacífica, avança em várias partes do mundo uma nova onda de intolerância religiosa. Em nome da segurança, da identidade nacional ou de interesses políticos, minorias voltam a ser tratadas como suspeitas permanentes.

Os números revelam que o problema deixou de ser episódico. Segundo o mais recente estudo global do Pew Research Center, publicado em dezembro de 2024 com base em dados de 2022, 59 dos 198 países e territórios analisados apresentavam níveis altos ou muito altos de restrições governamentais à liberdade religiosa — o maior índice registrado desde o início da série histórica, em 2007. O levantamento constatou ainda que autoridades governamentais praticaram algum tipo de assédio contra grupos religiosos em 186 países, correspondendo a 94% do universo pesquisado.

A deterioração da liberdade de crença costuma ser um sintoma mais amplo. Onde a diversidade religiosa é sufocada, outras liberdades civis geralmente começam a se deteriorar pelo mesmo caminho.

A comunidade bahá’í

É nesse ambiente internacional de crescente intolerância que se insere a situação vivida atualmente pela comunidade bahá’í no Catar.

Em artigo publicado pela Religion News Service, a advogada cubano-americana Kristina Arriaga, ex-vice-presidente da Comissão dos Estados Unidos para Liberdade Religiosa Internacional, observou que o Catar passou décadas construindo cuidadosamente sua reputação internacional. E essa constatação é difícil de contestar.

Durante anos, Doha investiu bilhões de dólares em diplomacia, mediação de conflitos e projeção global. O país transformou-se em ator relevante no Oriente Médio, sediou grandes eventos internacionais e procurou consolidar a imagem de uma nação capaz de promover o diálogo em uma região marcada por tensões permanentes.

Entretanto, nas últimas semanas, quase metade das poucas centenas de bahá’ís que permanecem no país passou a enfrentar ameaças de detenções, cancelamento de permissões de residência e deportações forçadas.

O caso de Wahid Bahji

A pressão sobre os bahá’ís não é nova. Famílias estabelecidas na região há várias gerações jamais receberam reconhecimento oficial. Em 2025, o caso de Wahid Bahji, nascido e criado no Catar, ganhou repercussão internacional depois que ele foi obrigado a deixar o país e impedido de retornar. No mesmo período, o empresário Remy Rowhani, de 71 anos, foi condenado por divulgar em redes sociais textos relacionados à sua fé. Embora a sentença tenha sido posteriormente revertida, os acontecimentos recentes indicam que a perseguição continua.

Kristina Arriaga recorda que os bahá’ís que permanecem no Catar dificilmente podem ser considerados uma ameaça à segurança nacional. Trata-se de uma comunidade pequena, pacífica e etnicamente diversa, conhecida por defender princípios como a unidade da humanidade, a igualdade entre mulheres e homens e a convivência harmoniosa entre diferentes povos.

Contradição

A contradição é evidente. Um país que aspira exercer o papel de mediador em conflitos internacionais encontra dificuldades para assegurar direitos básicos a algumas centenas de pessoas dentro de suas próprias fronteiras.

A repercussão já ultrapassou o Oriente Médio. A Comissão dos Estados Unidos para Liberdade Religiosa Internacional incluiu o Catar em sua Lista Especial de Monitoramento em 2026. Especialistas das Nações Unidas também manifestaram preocupação com a aceleração das deportações administrativas e com os riscos para a própria sobrevivência da comunidade bahá’í no país.

Apesar disso, como observou certeiramente Kristina Arriaga, o Catar ainda tem tempo para demonstrar que realmente valoriza o pluralismo.

Países levam décadas para construir credibilidade e apenas alguns meses para comprometê-la. A verdadeira grandeza de uma nação não se mede apenas pela capacidade de intermediar guerras distantes, mas pela forma como ela trata as minorias pacíficas que vivem dentro de sua própria casa.

https://revistaforum.com.br/opiniao/o-catar-diante-de-sua-propria-contradicao/

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