O cemitério que todo escritor perdeu
Ao encerrar 24 anos de coluna no Financial Times, Simon Kuper explicou como trabalhava. A explicação ajuda a entender por que ficou tão caro dizer em público que mudamos de ideia.
Washington Araújo - 25/07/2026


Em julho de 2026, Simon Kuper encerrou 24 anos de coluna no Financial Times e explicou como trabalhava. A explicação soou modesta e guardava uma tese sobre o nosso tempo.
Cada coluna começava por uma suspeita, e a apuração servia para derrubá-la. Quando os fatos ganhavam, ele recomeçava. Chegava ao leitor o que resistia. Método simples de explicar e quase impossível de cumprir, porque obriga a matar aquilo de que mais gostamos.
Há uma segunda confissão na despedida, menos citada. Kuper conta que precisou aprender a apanhar em público e que sua vida de colunista se divide em antes e depois do Brexit. Defendeu o lado derrotado e seguiu escrevendo mais uma década sob a gritaria de quem venceu.
Naquele momento, discordar virou traição.
O cemitério particular
O método dependia de um lugar que a despedida não menciona: um cemitério particular. Ali vão parar as teses derrubadas pelo primeiro telefonema, as certezas de segunda-feira desmentidas na quarta. Todo colunista que dura tem o seu. Ninguém lerá o que está enterrado ali, e é isso que permite descartar sem dor.
A era digital tomou esse terreno. Hoje a suspeita vai ao ar assim que nasce: o rascunho, o palpite das seis da manhã, a frase que ainda pedia uma semana de checagem. O que era matéria-prima chega ao leitor com nome, data e link.
E aí começa o estrago. Uma suspeita publicada vira posição. Uma posição vira identidade. Quem publicou defende aquilo por anos, muito depois de ter percebido em silêncio o erro.
O dano tem nome antigo: a distância entre o que a pessoa pensa e o que sustenta em voz alta. Um governo revisa a meta em reunião fechada e a repete em público por mais dois anos. Um partido carrega um programa em que já não acredita. Uma universidade assina nota que seus pesquisadores contestam nos corredores.
Costuma-se invocar Karl Popper aqui, o filósofo que ensinou a ciência a atacar as próprias hipóteses, e a citação sai barata. A parte difícil é dizer “eu estava errado” com testemunhas na sala.
O bem comum que se perdeu
Cresci em Açu, num tempo em que a noite começava na calçada. Assim que o calor cedia, as cadeiras saíam de dentro das casas e as conversas se estendiam até tarde, sem pauta e sem hora de terminar. Falava-se de um foguete lançado da Rússia, das cheias de janeiro, do céu que não prometia inverno. Aquele era o tempo do país de trás para frente, e a calçada preferia o céu ao chão. Aquelas pessoas mudavam de opinião no meio da conversa, e ninguém as cobrava por isso. Voltavam para casa pensando diferente de quando saíram, e a vizinhança inteira tinha assistido.
Perdeu-se ali um bem comum: a honra de corrigir-se em voz alta, diante de quem escutou a versão anterior.
A inteligência artificial entra aqui por uma porta lateral. Sua função mais interessante talvez seja perder discussões. Diante de uma máquina, posso sustentar uma tese frágil, ouvir as objeções e recomeçar. Chego ao leitor com algo já castigado e disposto a contar o que abandonei no caminho. A ferramenta acusada de uniformizar o pensamento devolveu ao escritor a mesa de trabalho.
Rascunho em segredo, resultado à luz do dia. Foi essa ordem que se inverteu.
Kuper durou 24 anos porque manteve separadas duas operações que hoje se confundem: pensar e publicar. Entre uma e outra havia um intervalo em que uma boa ideia podia morrer antes de virar compromisso. Recuperar esse intervalo é metade da tarefa. A outra metade cabe a cada um: dizer em público que mudamos de ideia e aceitar que alguém guarde o print.
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