O currículo que nenhum ser humano leu

Algoritmos já entrevistam, filtram e descartam candidatos sem dever uma palavra a ninguém, enquanto o marco legal da inteligência artificial dorme numa gaveta da Câmara

Washington Araújo - 14/10/2026

Pertenço a uma geração que buscava o primeiro emprego com o currículo datilografado numa pasta e a esperança de ser recebido por alguém. Podia dar errado, e quase sempre dava, mas do outro lado da mesa existia um rosto, uma voz, às vezes um conselho. Na Universidade de Brasília, onde leciono há muitos anos, vejo meus alunos enfrentarem outro porteiro. Ele não tem rosto, não dorme, não se cansa e jamais explica por que disse não.

O porteiro se chama sistema de rastreamento de candidatos, ATS na sigla em inglês. Escaneia currículos em segundos, caça palavras-chave e decide quem segue e quem morre na triagem. Desde 2022, o número de candidaturas por vaga dobrou em escala global, e as empresas responderam à avalanche entregando a primeira peneira às máquinas. Já existem entrevistas inteiras conduzidas por vozes sintéticas de nomes femininos e simpáticos, que fazem perguntas de múltipla escolha e redigem relatórios para gerentes que talvez nunca leiam o candidato. O LinkedIn oferece aos recrutadores um assistente de IA que promete examinar 81% menos perfis. Oitenta e um por cento menos gente olhada por gente.

Os jovens aprenderam a se defender do único jeito possível: escrevendo para a máquina. Copiam o vocabulário dos anúncios, encaixam palavras-chave, apagam o que os torna singulares. Assisto a essa mutação, ano após ano, com tristeza. A biografia virou formulário otimizado. O trabalho voluntário numa comunidade da periferia some do currículo porque o algoritmo ignora seu valor. Estamos ensinando uma geração inteira a se apagar para ser aceita.

As máquinas também herdam os preconceitos de quem as treina. Em 2018, a Amazon abandonou um sistema de recrutamento que rebaixava currículos com referências a mulheres, porque aprendera com uma década de contratações dominadas por homens. Quantas jovens negras, quantos candidatos com sobrenomes indígenas, quantos moradores de periferia são descartados hoje por sistemas que reproduzem, em silêncio e em escala industrial, as exclusões que levamos séculos para nomear?

Procurar emprego é expor-se. Quem se candidata oferece sua história, suas lacunas, seus anos de estudo, sua esperança. A recusa mais seca, quando vinha de um ser humano, carregava ao menos um reconhecimento: alguém leu, alguém considerou. A recusa automática, instantânea e muda, tem efeito diverso. Ela comunica que você sequer chegou a existir para o outro. A psicanálise conhece bem o estrago dessa experiência de invisibilidade. Repetida dezenas de vezes, ela mina a autoestima, alimenta a vergonha e empurra muitos jovens para o isolamento.

Em 1944, Franklin Delano Roosevelt advertiu que gente com fome e sem emprego é a matéria-prima das ditaduras. A frase envelheceu bem demais. Os movimentos autoritários do nosso tempo crescem justamente entre os que se sentem descartados, invisíveis, humilhados por sistemas que não compreendem e não podem contestar. Um algoritmo opaco que rejeita milhões sem explicação funciona como fábrica silenciosa de ressentimento. E o ressentimento sempre encontra um demagogo disposto a explorá-lo.

Trabalhei 21 anos no Senado Federal analisando projetos de lei e sei reconhecer um texto que acerta. O marco legal da inteligência artificial aprovado pelos senadores em dezembro de 2024 classifica como de alto risco os sistemas usados no recrutamento e na gestão de trabalhadores, e exige deles avaliação de impacto, testes, supervisão humana e transparência. O candidato saberia que foi avaliado por um sistema automatizado, e a empresa responderia pelo critério. O texto, porém, repousa numa comissão especial da Câmara. O presidente da Casa prometeu votá-lo em junho. Junho passou, e a gaveta continua bem fechada.

Conheço os corredores do Congresso o suficiente para saber o que costuma manter um projeto parado tanto tempo: a pressão de quem perde com ele. As grandes empresas de tecnologia gastam fortunas para convencer parlamentares de que qualquer regra sufoca a inovação. Esse argumento já foi usado contra o cinto de segurança, contra o rótulo dos alimentos, contra a CLT. A inovação sobreviveu a todos. Os trabalhadores, sem essas regras, nem sempre sobreviveram.

Enquanto o Congresso hesita, o cidadão dispõe de uma arma pouco conhecida. O artigo 20 da Lei Geral de Proteção de Dados, em vigor desde 2020, garante o direito de pedir revisão de decisões tomadas unicamente por tratamento automatizado, inclusive as que definem o perfil profissional de alguém. Quantos dos nossos jovens sabem disso? Quantas empresas avisam ao candidato que foi um software quem o reprovou?

Cobro o óbvio, que deveria dispensar debate. Toda empresa que usa inteligência artificial para selecionar pessoas deve dizer isso no anúncio da vaga. Todo candidato recusado deve receber o motivo, em linguagem humana. E a legislação precisa corrigir a distorção que faz o trabalho pagar mais impostos que o capital, porque hoje o sistema tributário premia quem troca gente por máquina.

Trabalho carrega pertencimento, identidade, lugar no mundo. Quando entregamos a porta de entrada desse lugar a um algoritmo que não presta contas, ensinamos a uma geração inteira que ela é dispensável. Essa lição custará caro, e a fatura chegará às urnas.

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