O debate público sequestrado pela mentira

Dados incompletos, meias verdades e soluções mágicas passaram a ocupar o espaço que deveria pertencer aos estudos, aos números e ao interesse público

Washington Araújo - 16/06/2026

Brasília descobriu uma nova forma de fazer política: substituir dados por slogans, estudos por vídeos virais e problemas complexos por soluções instantâneas. O resultado dessa escolha já está à vista. Setores do Parlamento brasileiro correm o risco de trocar a função histórica de produzir consensos pela tentação de fabricar indignação permanente.

Não se trata de um episódio isolado. Tampouco de divergências ideológicas, que são parte natural da democracia. O problema é outro. A mentira, a meia verdade e a manipulação do medo deixaram de ser acidentes ocasionais e passaram a integrar a estratégia de grupos parlamentares interessados em transformar a política em espetáculo permanente. A prioridade deixa de ser resolver problemas nacionais. O objetivo passa a ser produzir engajamento, constranger adversários e alimentar as redes sociais.

Redução da maioridade penal
A aprovação, em 10 de junho de 2026, da admissibilidade da PEC 32/2015 pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara tornou visível esse fenômeno. Por 44 votos favoráveis e 18 contrários, os deputados autorizaram o prosseguimento da proposta que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. O tema é legítimo e merece discussão. O que causa perplexidade é a facilidade com que um assunto de enorme complexidade jurídica, social e educacional foi apresentado à população como solução quase automática para a violência.

Décadas de estudos nacionais e internacionais mostram que criminalidade e encarceramento não mantêm relação tão simples quanto sugerem discursos inflamados. Mesmo assim, o marketing do medo continua rendendo dividendos eleitorais. Quanto maior a indignação produzida, menor parece ser o interesse em ouvir pesquisadores, especialistas em segurança pública, educadores e entidades ligadas à proteção da infância.

Fim da escala 6×1

A mesma lógica apareceu na discussão sobre a jornada de trabalho. Em 27 de maio de 2026, a comissão especial da Câmara aprovou a PEC 221/2019, que propõe o fim da escala seis por um, por 34 votos a 4. Antes mesmo de qualquer deliberação final do Congresso, uma avalanche de previsões catastróficas tomou conta do debate. Multiplicaram-se afirmações sobre destruição em massa de empregos, colapso econômico e fechamento generalizado de empresas. Quase sempre sem números, sem estudos comparativos e sem evidências apresentadas ao público.

A mentira contemporânea raramente surge sob a forma de uma falsidade absoluta. Seu mecanismo é mais sofisticado. Seleciona-se um fragmento da realidade, amplifica-se o medo e escondem-se as informações que poderiam oferecer equilíbrio ao debate. O resultado é uma população emocionalmente mobilizada e intelectualmente desarmada.

Pautas-bomba

As chamadas pautas-bomba completam esse ambiente de degradação. Em junho, cálculos do Ministério da Fazenda apontaram impacto potencial de R$ 111 bilhões anuais em nove propostas em tramitação no Congresso. Uma delas, relacionada à renegociação de dívidas rurais, poderia produzir um custo de R$ 140 bilhões em treze anos. São números gigantescos. Ainda assim, grande parte das discussões públicas concentra-se apenas nos benefícios imediatos, enquanto os custos acabam empurrados para as futuras gerações.

Agência de publicidade do medo

Nenhum Parlamento existe para funcionar como agência de publicidade do medo. Deputados e senadores recebem mandatos para legislar, fiscalizar e construir soluções. Quando parte dessa energia é desviada para a produção deliberada de confusão, a sociedade perde sua capacidade de decidir racionalmente.

A mentira produz manchetes, aplausos e curtidas. Produz também vídeos virais e carreiras políticas construídas sobre a exploração permanente da indignação. Mas existe uma conta que sempre chega. Ela aparece na erosão da confiança pública, na radicalização da sociedade e na destruição gradual da capacidade de diálogo.

As democracias não morrem apenas pelas mãos de aventureiros ou por meio de golpes espetaculares. Muitas vezes elas adoecem lentamente, corroídas pela banalização da mentira, pela substituição dos fatos pelas emoções e pela transformação da tribuna parlamentar em palco de manipulação coletiva. Nenhuma sociedade consegue construir o futuro quando seus representantes preferem administrar ressentimentos em vez de enfrentar a realidade.

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