O egoísmo de todos e a solidão de Adão no Dia das Mães

Experimentos ajudam a compreender como exceções particulares se tornam práticas compartilhadas, enquanto quem cumpre as regras suporta os custos das vantagens apropriadas pelos demais, sem serem responsabilizados

Washington Araújo - 28/10/2026

Uma indústria de absolvições funciona nas instituições. O diretor concede ao filho uma vaga e fala em confiança. O funcionário abandona uma obrigação e invoca cansaço. O político distribui cargos entre aliados pessoais e chama a operação de governabilidade. A vantagem tem endereço conhecido; o prejuízo é entregue a pessoas sem rosto. A linguagem faz o trabalho que a consciência hesita em assumir.

Em 1º de outubro de 2026, a revista Nature Human Behaviour publicou uma investigação de Marius Vollberg e Jörg Gross, da Universidade de Zurique. Foram nove experimentos pré-registrados com 8.769 adultos, predominantemente residentes nos Estados Unidos. Os pesquisadores examinaram como avaliamos os efeitos de nossas escolhas sobre desconhecidos quando esses efeitos são incertos. A pergunta alcança um território decisivo: o que fazemos com aquilo que preferimos desconhecer?

Em parte dos testes, ganhar sete pontos para si significava escolher uma possibilidade potencialmente pior para outra pessoa; ganhar cinco exigia renunciar a uma parcela do benefício pessoal. Os participantes conheciam o próprio ganho, mas recebiam apenas intervalos para o ganho alheio. Os inclinados à vantagem própria ampliavam mentalmente o benefício proporcionado ao outro e diminuíam o da alternativa generosa. Algumas distorções apareciam antes da decisão. O interesse já organizava a percepção.

O sexto experimento, com 849 participantes, examinou o que acontecia quando alguém recebia estimativas de outra pessoa. Interpretações favoráveis ao egoísmo aumentaram as avaliações distorcidas e as escolhas egoístas dos observadores. Mensagens favoráveis à generosidade não produziram efeito equivalente nas decisões. Os autores identificaram uma vantagem de transmissão da justificativa egoísta. Também observaram distorções entre participantes generosos. A pesquisa mediu comportamentos em experimentos online; extrapolá-los diretamente para eleições ou empresas falsificaria seu alcance.

Assinar os resultados

Imagine o chefe que se apropria do trabalho da equipe e explica que liderar significa assinar os resultados. Um subordinado repete o procedimento. No condomínio, alguém deixa de pagar uma contribuição alegando que a administração desperdiça dinheiro; outro adota o argumento sem examinar as despesas. A imitação transmite a desculpa, poupando o beneficiário seguinte do esforço de inventá-la.

Na administração pública, o mecanismo pode atingir milhões de pessoas. Quando nomeações são apresentadas como inevitáveis concessões políticas, perde-se a obrigação de demonstrar competência, transparência e finalidade pública. Negociar apoio parlamentar integra a democracia; converter o Estado em recompensa privada compromete sua legitimidade. As práticas frequentemente compartilham o mesmo vocabulário. Quando o cidadão deixa de distingui-las, a fiscalização sofreu uma derrota.

Aristóteles associou a formação do caráter aos hábitos. Kant exigiria uma pergunta mais difícil: aceitaríamos como regra universal o privilégio que defendemos como exceção pessoal? Reconhecemos prontamente a fraude praticada por adversários. Diante dos próprios interesses, preferimos discutir circunstâncias, intenções e dificuldades. O julgamento moral passa a depender da identidade do beneficiário, quando deveria examinar o ato e suas consequências.

O centro de seu universo

O egoísta considera-se o centro de seu universo e espera dos demais um serviço de astronomia. Distribui órbitas, cobra atenção e confunde discordância com ingratidão. Até que amigos e parentes começam a preservar distâncias. Termina tão sozinho quanto Adão no dia das Mães: sem mãe para visitar, sem sogra para telefonar e convencido de que Eva organizou mal a comemoração.

‘Abdu’l-Bahá conheceu décadas de exílio e prisão. Ao falar da liberdade, afirmou que a única prisão é a prisão do egoísmo. Ele sabia por quê: alguém privado de circulação reconhecia um cárcere mais profundo na submissão aos próprios desejos. A perspectiva espiritual exige contrariar o impulso de transformar pessoas em instrumentos de satisfação. Quem precisa vencer todas as disputas e justificar todos os privilégios obedece a um senhor instalado dentro de si.

A prisão possui uma dimensão coletiva. A confiança depende da expectativa de que alguém aceitará perder uma vantagem para respeitar uma obrigação. Se cada pessoa reserva para si uma dispensa, os sacrifícios recaem sobre quem continua cumprindo as regras. A honestidade passa a parecer ingenuidade. Nenhuma sociedade consegue exigir solidariedade daqueles que aprendeu a tratar como trouxas.

Os números de Zurique oferecem um teste à lucidez. Podemos condenar o egoísmo publicamente e praticá-lo mediante justificativas igualmente admiráveis. Antes de aceitar a próxima, convém identificar o beneficiário, o prejudicado e a regra que autorizaríamos se todos agissem da mesma maneira. O caráter de uma comunidade aparece quando seus membros recusam, inclusive para si, a licença que negariam aos outros.

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