O farol aceso por Homero
Entre manuscritos imperiais, adaptações cinematográficas e versos imortais, a Odisseia revela por que certos livros continuam escrevendo gerações muito depois de seus autores desaparecerem da história
Washington Araújo - 29/07/2026


Poucas obras literárias tiveram o privilégio de atravessar quase três milênios permanecendo intelectualmente jovens. A Odisseia, atribuída a Homero e composta por volta do século VIII antes de Cristo, continua despertando leitores, inspirando romancistas, mobilizando pesquisadores e atraindo multidões às salas de cinema. A recente adaptação dirigida por Christopher Nolan (foto) devolveu o poema épico ao centro do debate cultural, mas sua permanência jamais dependeu de superproduções. Assisti a essa super produção na estreia em Brasília, em 16 de julho e já escrevi sobre isso. Senti falta de olhar a Odisseia nas frestas deixadas pelo tempo.
A verdade é que desde que seus versos começaram a ser recitados nas cidades gregas, a viagem de Odisseu nunca deixou de acontecer.
Tradição oral
Costuma causar surpresa que um texto nascido da tradição oral tenha atravessado impérios, revoluções, descobertas científicas e mudanças profundas na forma de compreender o ser humano. A explicação talvez resida numa característica rara: Homero escreveu sobre acontecimentos extraordinários sem jamais perder de vista aquilo que existe de permanente na experiência humana. Tempestades, monstros, sereias, ciclopes e deuses ocupam a superfície da narrativa. Logo abaixo dela correm questões que pertencem a qualquer época: saudade, inteligência, medo, fidelidade, ambição, perda, esperança e o desejo quase irresistível de regressar ao lugar onde a própria identidade começou.
Durante dez anos, Odisseu tenta retornar a Ítaca depois da Guerra de Troia. A cronologia parece simples. O significado jamais foi. Sempre enxerguei essa travessia como uma extraordinária investigação sobre as escolhas humanas. A cada ilha, o herói precisa decidir entre o impulso imediato e a consequência futura. Em cada encontro, mede o preço da coragem, da prudência, do silêncio e da palavra. O mar deixa de ser apenas um cenário. Transforma-se numa sucessão de provas que revelam quem realmente somos quando desaparecem as aparências.
Um texto que inaugura a civilização ocidental
É justamente por isso que a Odisseia permanece entre os textos fundadores da civilização ocidental. Antes dela havia heróis. Depois dela surgiram personagens. A diferença parece pequena, mas modificou para sempre a literatura. O herói antigo costumava ser lembrado por suas vitórias. Homero acrescentou outra dimensão: tornou inesquecíveis as hesitações, os dilemas, os erros, a capacidade de aprender e de regressar transformado. Pela primeira vez, a inteligência ocupou o mesmo espaço que a força física. Desde então, escrever personagens significou também escrever consciências.
Na literatura…
Costuma parecer exagero afirmar que toda a literatura ocidental passou por Homero. Não passou. Mas seus maiores rios desembocam no mesmo mar. Virgílio escreveu a Eneida prolongando o diálogo iniciado pela Odisseia. Dante compreendeu que a maior viagem acontece simultaneamente na paisagem e na consciência. Shakespeare percebeu que personagens memoráveis nunca cabem numa única explicação. Cervantes colocou Dom Quixote na estrada sabendo que toda travessia altera quem a percorre. James Joyce realizou talvez a homenagem mais ousada da literatura moderna ao transformar um único dia de Dublin numa nova Odisseia, demonstrando que uma epopeia pode caber numa cidade, numa caminhada e até num pensamento. Nikos Kazantzakis recusou-se a aceitar que Ítaca encerrasse definitivamente a aventura e devolveu Odisseu ao horizonte em mais de trinta mil versos. Borges regressou inúmeras vezes a Homero para refletir sobre memória e eternidade. Tolkien herdou da tradição épica a convicção de que nenhuma grande jornada modifica apenas a paisagem; modifica, sobretudo, quem retorna dela. Nenhum desses autores copiou Homero. Todos beberam da mesma nascente.
…e no cinema
Essa influência alcançou também o cinema. Desde as primeiras décadas do século XX, diretores perceberam que a estrutura narrativa da Odisseia permanecia extraordinariamente atual. Vieram adaptações diretas, releituras, séries de televisão, animações e filmes que transplantaram o velho poema para contextos inteiramente novos. Ulysses, lançado em 1954 com Kirk Douglas, tornou-se uma das versões mais conhecidas. Em 1997 surgiu uma ambiciosa minissérie televisiva. Décadas depois, Christopher Nolan retomou a epopeia empregando recursos tecnológicos inimagináveis para Homero. Curiosamente, aquilo que mais atravessou o tempo não foram os efeitos especiais. Permaneceram intactas as perguntas que sustentam a narrativa desde o início: como resistir às seduções que desviam nossa rota? Como voltar para casa sem deixar de ser quem fomos? Ou, mais profundamente, será que alguém regressa exatamente igual depois de uma longa viagem?
No Brasil
Pouca gente imagina que o Brasil também conserva um capítulo singular dessa longa história. Nos acervos da Biblioteca Nacional repousam manuscritos relacionados à Ilíada, enquanto pesquisadores redescobriram traduções produzidas no século XIX por intelectuais brasileiros fascinados pela cultura grega. Frei José de Santa Maria Amaral traduziu trechos da epopeia homérica. Odorico Mendes realizou a primeira tradução integral da Ilíada para a língua portuguesa, façanha que ainda hoje desperta admiração entre filólogos. O personagem mais surpreendente dessa narrativa, porém, talvez seja Dom Pedro II. Fascinado pelas línguas antigas, o imperador traduziu Prometeu Acorrentado, estudou grego durante décadas, escreveu uma gramática da língua e registrou repetidas vezes, em seus diários do exílio, o desejo de concluir uma tradução da Odisseia. O manuscrito jamais apareceu. Caso venha a ser encontrado, representará uma das maiores descobertas da história literária brasileira.
Existe uma imagem que acompanha cada releitura desse poema. Os grandes clássicos lembram faróis construídos sobre rochedos antigos. Sua missão nunca consistiu em navegar pelos mares, tampouco escolher o destino das embarcações. Permanecem acesos enquanto gerações inteiras cruzam águas desconhecidas. Mudam navios, velas, bússolas, instrumentos de navegação e mapas. A claridade permanece. Homero acendeu um desses faróis há quase três mil anos. Antes que eu comece a me repetir, melhor logo destacar alguns dos versos que ajudam a compreender por que essa permanência desafia o tempo.
A pátria e os pais
Quando Atena afirma que “os deuses não abandonam completamente os homens prudentes”, Homero lembra que inteligência e responsabilidade caminham juntas. Ao declarar que “nada há mais doce do que a pátria e os pais”, transforma pertencimento numa necessidade permanente da condição humana. Quando Odisseu responde ao ciclope “meu nome é Ninguém”, demonstra que criatividade frequentemente supera a brutalidade. As sereias seduzem anunciando “sabemos tudo quanto acontece sobre a terra fecunda”. A advertência permanece atual numa época em que abundam informações e escasseia discernimento. Circe aconselha: “é preciso dominar o próprio coração”. Muitos séculos antes da psicologia moderna, Homero já compreendia que o primeiro território a ser governado encontra-se dentro de cada pessoa. Finalmente, Penélope reconhece o verdadeiro marido por um detalhe invisível aos demais: o leito construído sobre uma oliveira viva. A cena ensina que identidade nunca depende da aparência. Ela repousa na memória compartilhada, na fidelidade aos próprios atos e naquilo que o tempo não consegue falsificar.
Sempre impressionou perceber que a Odisseia continua produzindo livros sem escrever uma linha nova. Cada romancista que envia seus personagens para uma travessia, cada cineasta que transforma a viagem em metáfora do amadurecimento, cada poeta que procura traduzir a inquietação humana conversa, ainda que silenciosamente, com Homero. Algumas obras envelhecem porque pertencem ao seu tempo. Outras sobrevivem porque conseguem pertencer ao futuro. A Odisseia integra esse reduzido patrimônio da humanidade.
Entendo que é aí que reside sua grande vitória. Odisseu regressou a Ítaca. Homero jamais regressou ao passado. Continua caminhando ao lado de leitores que ainda nem nasceram, lembrando que toda viagem digna desse nome começa quando deixamos de perguntar apenas para onde seguimos e passamos a indagar quem nos tornaremos ao final da travessia.
É essa pergunta, repetida durante quase trinta séculos, que mantém a Odisseia viva, indispensável e extraordinariamente contemporânea.
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