O futuro estava na última fila

De Bruxelas, em 1927, a Lindau, na Alemanha, em 2015, duas fotografias mostram como mudaram o prestígio científico, seus personagens e as responsabilidades trazidas pelo conhecimento humano

Washington Araújo - 23/08/2026

Duas fotografias separadas por 88 anos permitem observar algo que ultrapassa a própria evolução da ciência: nossa dificuldade de reconhecer, no presente, aquilo que o futuro tornará evidente. Em Bruxelas, em outubro de 1927, 29 físicos reuniram-se na Quinta Conferência Solvay, dedicada a elétrons e fótons. Em Lindau, em junho de 2015, dezenas de ganhadores do Nobel posaram para outra fotografia coletiva. Entre os dois cliques passou quase um século. Mudaram as roupas, os costumes, as guerras, as instituições e, sobretudo, a dimensão do poder que o conhecimento colocou em nossas mãos.

A fotografia de Solvay conserva a gramática de autoridade de seu tempo. Três fileiras, ternos escuros, pouca espontaneidade, rostos graves. Hendrik Lorentz, presidente da conferência, ocupa a primeira fila. Einstein está próximo do centro. Marie Curie, Planck e Bohr aparecem sentados. Atrás deles encontram-se Heisenberg, Pauli e Schrödinger; Dirac está na fileira intermediária.

Dos 29 participantes, 17 já haviam recebido ou receberiam o Prêmio Nobel. Apenas seis eram laureados naquele outubro: Lorentz, Curie, Planck, Einstein, Bohr e William Lawrence Bragg. Heisenberg e Dirac tinham 25 anos; Pauli, 27. Parte importante da física que atravessaria o século permanecia longe do centro. Louis de Broglie, então com 35 anos, receberia o Nobel em 1929 e seria o último daqueles 29 personagens a morrer, em 1987, aos 94 anos — sessenta anos depois do disparo da câmera.

O prestígio do presente

Toda fotografia oficial distribui seus personagens segundo o prestígio do presente. A História, menos obediente ao protocolo, costuma trocar depois os lugares. Conhecemos hoje o destino daqueles rostos, privilégio que eles próprios não tiveram. Benjamin Couprie, o fotógrafo, não sabia quem atravessaria o século. Nem aqueles homens conheciam inteiramente a dimensão do que estavam produzindo. A reputação pertence ao presente; a relevância histórica obedece a outro relógio.

Do lado de fora daquela sala, a Europa tampouco compreendia o futuro que preparava. Mussolini consolidava o fascismo italiano, Stalin ampliava o domínio soviético, Hitler reorganizava o Partido Nazista e preparava sua expansão política na Alemanha. Nos Estados Unidos, a prosperidade dos anos 1920 caminhava para o colapso de Wall Street.

A coincidência histórica é poderosa. Enquanto a política se entregava às certezas autoritárias, a física aprendia a desconfiar das certezas. Heisenberg havia formulado naquele mesmo ano seu princípio da incerteza: no universo quântico, quanto mais precisamente determinamos a posição de uma partícula, menos precisamente podemos conhecer seu momento, relacionado ao movimento, e vice-versa. Não era uma deficiência dos instrumentos disponíveis, mas um limite fundamental da descrição quântica da natureza. O princípio atingia o velho sonho de um universo inteiramente previsível. Ditadores prometiam respostas definitivas justamente quando algumas das melhores inteligências do século descobriam os limites do que podemos saber.

“Heisenberg”

Décadas depois, a cultura popular faria uma apropriação divertida dessa história. Em Breaking Bad, o professor de química Walter White, interpretado por Bryan Cranston, escolhe “Heisenberg” como identidade ao ingressar no mundo do crime. A ironia é boa demais para passar despercebida: Werner Heisenberg recebeu o Nobel por trabalhos fundamentais para a mecânica quântica e tornou seu nome inseparável da incerteza; Walter White toma emprestado esse nome enquanto desenvolve a obsessão de controlar todas as variáveis — química, dinheiro, território, família e adversários. O cientista ensinou os limites da determinação; seu homônimo televisivo enlouquece tentando derrotá-los.

Marie Curie introduz outra dimensão naquela geometria. Única mulher entre 28 homens, chegara à conferência com uma distinção que nenhum deles possuía: recebera o Nobel de Física em 1903 e o de Química em 1911. A mesma Europa que reverenciava suas descobertas lhe impusera humilhações por ser mulher e estrangeira. Em 1911, perdera por dois votos uma eleição para a Academia de Ciências da França e fora submetida a uma campanha pública atravessada por misoginia e xenofobia.

Sua presença na primeira fila contém duas histórias simultâneas. Mostra até onde uma mulher excepcional conseguira chegar e revela, pela ausência de outras, quantas continuavam impedidas de fazer o mesmo percurso. Curie estava ali porque sua ciência tornara impossível relegá-la ao fundo da sala.

Sua história guardaria uma última curiosidade científica mesmo depois da morte. Quando seus restos mortais foram exumados em 1995 para a transferência ao Panthéon, encontrou-se um caixão interno revestido de chumbo, precaução associada à radioatividade. As medições posteriores não sustentaram a lenda de que o corpo permanecesse perigosamente radioativo. Seus cadernos de laboratório, estes sim, continuam exigindo cuidados especiais.

Reduzir Solvay a uma assembleia de gênios seria falsear a fotografia. Inteligência extraordinária e grandeza moral nunca foram equivalentes. Heisenberg trabalhou no programa nuclear alemão durante o Terceiro Reich, episódio ainda debatido pelos historiadores. Einstein oferece outro paradoxo.

A bomba

Em 2 de agosto de 1939, poucas semanas antes da invasão da Polônia, Einstein assinou uma carta ao presidente Franklin Roosevelt, elaborada com participação decisiva do físico húngaro Leo Szilard. O alerta era grave: pesquisas recentes indicavam que uma reação nuclear em cadeia com urânio poderia liberar enorme quantidade de energia e permitir a construção de bombas de poder até então desconhecido. Temia-se que a Alemanha nazista chegasse primeiro. Roosevelt criou um comitê para estudar o urânio, um dos primeiros movimentos do governo americano na direção que acabaria levando ao Projeto Manhattan. Einstein jamais participou da fabricação da bomba. Seu nome e seu prestígio, porém, ajudaram a abrir uma porta histórica que já não poderia simplesmente ser fechada.

Ciência e poder político passariam a dividir a mesma mesa.

Lindau, em 2015, pertence a outro universo. A fotografia é mais aberta, as roupas menos rígidas, os rostos menos hieráticos. Os laureados já chegam reconhecidos pela comunidade científica. Não há ali jovens desconhecidos esperando que as décadas revelem a extensão de suas descobertas. A consagração precede o retrato.

65th Lindau Nobel Laureate Meeting — Lindau, Alemanha, 28 de junho de 2015/Foto: Christian Flemming / Lindau Nobel Laureate Meetings

Mas o conhecimento que representam adquiriu uma escala que Solvay dificilmente poderia imaginar. Entre as duas fotografias surgiram antibióticos, energia nuclear, transistores, computadores, satélites, internet, ressonância magnética e engenharia genética. A ciência prolongou vidas, aproximou continentes e tornou visível o que nossos sentidos jamais alcançariam. Também construiu meios de destruir cidades em segundos.

Em 2015, enquanto a guerra devastava a Síria e a diplomacia internacional preparava a COP21, 36 laureados reunidos em Lindau assinaram a Declaração de Mainau sobre mudança climática. O cientista já não podia permanecer apenas como descobridor. O alcance de seu conhecimento o empurrava para o debate público.

Aprender a fazer antes de aprender o que fazer

A distância entre Solvay e Lindau expõe um problema persistente do progresso científico. Aprendemos a fazer antes de aprender plenamente o que fazer com aquilo que fazemos. Dividimos o átomo antes de construir uma ordem política capaz de neutralizar o terror nuclear. Alteramos genes enquanto ainda discutimos os limites dessa intervenção. Agora produzimos sistemas de inteligência artificial em velocidade superior àquela com que conseguimos estabelecer responsabilidades, fronteiras e consequências. Capacidade técnica e sabedoria humana não avançam necessariamente juntas.

A ciência expandiu o poder da humanidade numa velocidade que a política e a ética raramente conseguiram acompanhar. O intervalo entre aquilo que somos capazes de criar e aquilo que somos capazes de governar tornou-se um dos grandes descompassos da civilização contemporânea.

Por isso, volto à fotografia de 1927.

O futuro estava ali, mas ninguém podia vê-lo inteiro. Não sabiam de Hiroshima, dos computadores, dos satélites, da internet, da engenharia genética. Tampouco podiam calcular quais ideias daquela sala atravessariam um século e quais seriam apenas notas de rodapé.

Olhamos para aqueles rostos com a arrogância retrospectiva de quem conhece o desfecho. Nosso erro seria imaginar que enxergamos melhor o próprio tempo. Em algum laboratório, universidade ou pequena sala de trabalho pode estar nascendo agora uma descoberta capaz de reorganizar a vida humana. Pode já estar diante de nós e ainda a tratemos como assunto lateral.

Resta saber quem ocupa hoje a última fila. Mas há uma pergunta maior: o que acontece diante de nossos olhos que somente o futuro saberá nos obrigar a enxergar?

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