O Irã que não te mostram

Entre um regime autoritário e uma civilização milenar, o Irã revela uma sociedade culta, urbana e resiliente, cuja história profunda desafia leituras apressadas e narrativas convenientes do Ocidente

Washington Araújo - 22/04/2026

Durante décadas — sobretudo desde a Revolução Iraniana de 1979 — consolidou-se no imaginário ocidental uma imagem quase automática do Irã: um país fechado, dominado por clérigos, associado a rigidez religiosa, punições públicas, repressão a mulheres e minorias, e uma fusão opaca entre religião, política e aparato militar. Essa percepção não nasce do nada. Há fatos documentados, episódios recorrentes, decisões de Estado que alimentam essa leitura. Ignorá-los seria desonesto.

Mas há algo que me inquieta profundamente: quando uma civilização com mais de dois milênios de sofisticação intelectual é reduzida a um recorte de poucas décadas, o que se perde não é detalhe — é compreensão. É precisamente nesse ponto que a análise exige mais do que repetição de imagens prontas; exige deslocamento de olhar.

Eu estive atento aos persas para além das manchetes. E o que encontrei não cabe nessa caricatura. Ao contrário, desmonta, ponto a ponto, a ideia simplificada que se consolidou ao longo dos últimos quarenta e cinco anos.

Vida intelectual intensa

O primeiro choque é demográfico e cultural. O Irã é hoje mais de 75% urbano, segundo dados do Banco Mundial. Cidades como Teerã, Isfahan e Shiraz concentram universidades, centros de pesquisa e uma vida intelectual intensa.

Não estamos falando de uma sociedade isolada, mas de uma população instruída, com milhões de estudantes no ensino superior, incluindo forte presença feminina em áreas como engenharia e medicina. O país que se imagina rural revela-se, na prática, densamente urbano e intelectualmente ativo.

Hospitalidade

Há, também, um traço que nenhuma estatística captura plenamente: a hospitalidade. O convite para entrar, sentar, comer, conversar — mesmo entre desconhecidos — não é exceção, é prática social. O chá não é apenas bebida; é ritual de aproximação. E, nesse ambiente, a conversa raramente é superficial. Fala-se de clima, de poesia, de destino. É nesse cotidiano aparentemente simples que se percebe a profundidade de uma cultura que valoriza o encontro como forma de reconhecimento do outro.

Outro equívoco recorrente é associar o país a atraso tecnológico.

Produção científica

O Irã desenvolveu, nas últimas décadas, uma base científica relevante. Segundo a UNESCO, está entre os países que mais ampliaram sua produção científica no século XXI. Avanços em nanotecnologia, medicina e engenharia se somam à produção de drones militares que hoje influenciam conflitos regionais. Há sanções, há limitações severas — mas há também uma capacidade consistente de inovação. Em outras palavras, o isolamento não produziu paralisia; produziu adaptação.

É nesse ponto que a leitura simplificadora começa a falhar de forma mais evidente. Porque, quando a tensão geopolítica recente se intensifica, algo escapa ao enquadramento habitual e revela camadas que raramente entram na narrativa dominante.

O controle da narrativa

Há um registro recente que obriga a rever certezas confortáveis. O jornalista Nelson Motta apontou que, após a escalada de tensões e trocas de ameaças entre Estados Unidos e Irã, instala-se a disputa decisiva: quem controla a narrativa.

Nem a engrenagem política de Donald Trump sustenta, sem fissuras, a tese de vitória, afirma Motta. O efeito concreto foi outro: fortalecimento interno de um regime tenebroso e cruel, marcado por repressão e violência, mas que encontra respaldo em uma sociedade capaz de reagir com disciplina e resistência. Aqui, a análise exige precisão: reconhecer a natureza do regime não impede reconhecer a força social que o atravessa.

O contraste é direto. De um lado, lideranças iranianas falando com precisão, repertório e ironia contida. De outro, o jeito Trump de governar, marcado por bravatas e simplificações. Ignorar esse desnível não é análise — é recusa em lidar com os fatos.

E é justamente essa recusa que empobrece o entendimento do cenário internacional.

Nada disso elimina tensões reais. Mas impede a leitura rasa. Porque o que está em jogo não é apenas um país — é uma civilização. E é a partir dessa chave que o presente começa a dialogar com o passado de forma mais clara.

Um pouco da história

Quando volto ao século VI a.C., ao surgimento do Império Aquemênida sob Ciro, o Grande, percebo um ponto de inflexão histórico. Ao conquistar a Babilônia em 539 a.C., ele não destrói identidades locais. Ele as reconhece. O Cilindro de Ciro registra esse gesto: liberdade de culto e retorno de exilados. Trata-se de uma escolha política que antecipa debates contemporâneos sobre diversidade e governança.

Com Dario I, entre 522 e 486 a.C., essa lógica se transforma em sistema. Satrapias organizadas, impostos definidos, moeda padronizada e uma rede de 2.500 quilômetros — a Estrada Real — conectando o império com eficiência inédita. O que antes era princípio torna-se estrutura, e essa estrutura sustenta um território vasto e heterogêneo.

Em Persépolis, o poder ganha forma visual. Povos distintos esculpidos em pedra, trazendo tributos, compondo uma narrativa de ordem que não elimina a diversidade. A estética aqui não é decorativa; é política. É linguagem de poder.

O ser humano como agente moral

No plano espiritual, o Zoroastrismo introduz um conceito central: o ser humano como agente moral em um universo em disputa. Essa ideia atravessa religiões e molda consciências até hoje. Não se trata apenas de fé, mas de uma arquitetura ética que reorganiza a responsabilidade individual.

É nesse terreno que a palavra persa alcança sua forma mais duradoura, atravessando séculos sem perder densidade.

Attar de Nishapur (c. 1142–c. 1220), nascido em Nishapur, abre essa linhagem ao escrever: “A Verdade que buscamos é um mar sem margens, do qual o teu paraíso é apenas uma gota.” Sua poesia desloca o homem do centro e o lança na vastidão do absoluto.

Décadas depois, Rumi (1207–1273), nascido em Balkh, amplia essa travessia interior: “Além das ideias de certo e errado, há um campo. Eu me encontrarei com você lá.” Não há ruptura, há continuidade — Attar prepara o caminho que Rumi expande, substituindo fronteiras por encontro.

Por fim, Hafez (1315–1390), nascido em Shiraz, leva essa tradição a uma síntese radical ao escrever: “Aprendi tanto com Deus que já não posso me chamar cristão, hindu, muçulmano, budista ou judeu.” Aqui, a identidade já não limita — ela se dissolve. Em três momentos distintos, a poesia persa constrói uma mesma linha de pensamento: sair de si, atravessar o mundo e, no fim, ultrapassar todas as divisões.

Um só país

Séculos depois, essa mesma linha de pensamento reaparece com nitidez histórica e força estruturante quando Bahá’u’lláh, também persa, afirma por volta de 1860 que “a Terra é um só país e os seres humanos seus cidadãos”. Não é uma frase de efeito, mas uma reorganização radical da ideia de humanidade. Sua formulação antecede em mais de um século a imagem concreta do planeta visto do espaço, quando, em 1969, a missão Apollo 11 permitiu que a Terra fosse percebida como esfera frágil e indivisível.

E, agora, se projeta ainda mais longe: 157 anos depois, em 6 de abril de 2026, a missão Artemis II sobrevoa o lado oculto da Lua, ampliando a presença humana no espaço. Antes que a tecnologia permitisse esse deslocamento físico, a tradição intelectual persa já havia realizado o movimento essencial: pensar a humanidade como unidade, sem divisionismos, sem fronteiras absolutas.

No campo científico, Avicena estabelece um marco. Seu Cânone da Medicina, escrito por volta de 1025, não apenas sistematiza saberes. Ele descreve doenças contagiosas com método clínico, antecipa práticas de quarentena e desenvolve princípios de farmacologia experimental.

Por mais de seis séculos, foi adotado em universidades europeias. Aqui, novamente, a Pérsia atua como ponte entre mundos.

Caricatura e ignorância histórica

Quando reúno tudo isso — sociedade viva, tradição intelectual, capacidade de adaptação — a conclusão se impõe: reduzir a Pérsia a uma caricatura recente não é apenas erro. É ignorância histórica.

Há um país real, com contradições e tensões — como qualquer outro. Mas há, sobretudo, uma civilização que ensinou o mundo a governar diferenças, a estruturar o tempo, a elevar a linguagem e a organizar o conhecimento. Apagar essa dimensão não é um deslize analítico; é um rebaixamento do próprio debate. Ao reduzir o Irã a uma caricatura, não se distorce apenas um país — compromete-se a leitura do mundo. E que isso ainda prevaleça em plena maturidade do século XXI não é apenas lamentável. É um sintoma grave de empobrecimento intelectual e miopia histórica.

https://revistaforum.com.br/opiniao/o-ira-que-nao-te-mostram/