O jardineiro e o Estado
Por que a ciência definha quando o poder público a trata como plantação de árvores idênticas
Washington Araújo - 13/07/2026


Em 2025, o governo dos Estados Unidos experimentou um método inédito de lidar com a ciência. Cancelou milhares de pesquisas em curso, inclusive ensaios clínicos já iniciados, demitiu quadros técnicos de agências como o NIH e a NSF, propôs cortes orçamentários da ordem de quarenta a cinquenta por cento e converteu universidades em campo de batalha ideológico.
Passada a tormenta, virá a tentação previsível: restaurar o que havia antes, tijolo por tijolo, como quem recompõe a casa depois do vendaval. Seria um erro de proporções históricas. Quem observa a pesquisa por dentro sabe que o sistema anterior já vinha capturado por uma lógica que o asfixiava muito antes de qualquer tesoura política.
Essa lógica tem nome e um endereço teórico. O antropólogo James Scott, em “Seeing Like a State”, descreveu a mania dos Estados modernos de tornar legível aquilo que é vivo, de reduzir o que pulsa a um esquema que caiba na prancheta do planejador.
O mapa que estrangula o território
Para administrar florestas, os engenheiros do século XIX arrancaram a diversidade e plantaram fileiras uniformes de uma só espécie, dispostas em xadrez perfeito. No papel, nada mais racional: era fácil contar, medir e prever a colheita. Na prática, aquelas florestas geométricas adoeceram em silêncio, vulneráveis a pragas, ao esgotamento do solo, à monotonia biológica que as tornava quebradiças à primeira intempérie. O que parecia desordem aos olhos do burocrata era, no fundo, a força secreta do próprio organismo vivo.
A política científica repetiu o gesto com precisão constrangedora. Erguemos um sistema desenhado para ser legível às planilhas: todo projeto precisa ser descrito de antemão, fatiado em metas e entregas, submetido a ritos padronizados que agradam ao contador e sufocam o imprevisto. Michael Polanyi, químico e filósofo da ciência, já havia advertido, décadas atrás, sobre o preço oculto desse controle.
“Toda autoridade que dirigisse o trabalho do cientista a partir de um centro levaria o progresso da ciência à paralisia.”
Polanyi não defendia privilégio de casta nem a conveniência de um gabinete. Falava de método, e falava com rigor científico. A descoberta genuína nasce de milhares de ajustes independentes, de pesquisadores que corrigem o rumo uns dos outros sem maestro que os reja do alto. Centralizar essa coreografia delicada equivale a interrompê-la no primeiro compasso, antes que a música chegue a revelar sua forma.
O comitê que teme o inédito
Daí decorre o segundo defeito, o mais silencioso de todos. A revisão por pares, hoje tratada como sinônimo da própria ciência, foi concebida para filtrar propostas ruins, e nessa função modesta ela funciona bem. Diante do inédito, porém, tropeça e cai. Nenhuma ruptura científica jamais foi consenso do campo cinco anos antes de acontecer, pela razão evidente de que ruptura e consenso se excluem por natureza.
Um comitê que exige a promessa inteira descrita antes do experimento premia o previsível e castiga a intuição arriscada. Some-se a isso o imposto invisível cobrado do talento: pesquisadores brilhantes gastam meses redigindo pedidos moldados ao gosto presumido dos avaliadores, com noventa por cento de recusa na melhor das hipóteses.
Dilapidamos nossos melhores cérebros em papelada, como quem obrigasse um maestro a preencher requerimentos em vez de reger a orquestra.
Há ainda a monocultura das formas. O Estado financia mais do que laboratórios universitários, decerto, mas foi o laboratório dirigido por um investigador principal, cercado de mestrandos e doutorandos, o modelo que se tornou gabarito universal. Tudo o que escapa dele, a infraestrutura de longo prazo, a coleta paciente de dados, a replicação teimosa, a engenharia de sistemas, vira exceção mal financiada.
A universidade, um dos patrimônios mais preciosos que a humanidade já ergueu, foi convertida em destino automático de quase todo o dinheiro público de pesquisa, como se o modelo alemão do fim do século XIX encerrasse a última palavra sobre a maneira de organizar o conhecimento.
Foi um brasileiro quem cunhou a fórmula mais exata para esse tipo de estrangulamento planejado.
“A crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto.”
Darcy Ribeiro, fundador da Universidade de Brasília, compreendia que instituições não definham por acaso nem por azar do destino. Definham porque alguém, em algum lugar, escolhe a estreiteza e trata de sustentá-la. O mesmo diagnóstico serve à ciência: quando um único formato vira norma obrigatória, a limitação abandona o terreno da fatalidade e passa a habitar o terreno da decisão política.
Cultivar em vez de comandar
A alternativa possui uma imagem precisa, quase tátil. O bom jardineiro não determina o trajeto de cada raiz nem obriga cada muda a assumir o mesmo formato. Ele prepara o solo, rega, aduba, arranca ervas daninhas, protege o que é frágil das intempéries e introduz variedade justamente para manter a terra sadia.
Sabe de saída que parte das sementes não vingará, e não pune o fracasso honesto de quem plantou. Age com mão firme e, ao mesmo tempo, com humildade diante do organismo vivo que jamais dominará por inteiro. É assim que o poder público deveria tratar a pesquisa: sustentando muitos tipos de instituição, financiando ferramentas e bases de dados partilhadas, garantindo lugar à heterogeneidade em vez de exigir que tudo se encaixe no mesmo molde administrativo.
Restaurar o arranjo anterior seria, portanto, desperdiçar a lição mais dura de toda essa convulsão. O desmonte de 2025 foi uma escolha; a rigidez que o antecedeu também foi, e nenhuma das duas jamais foi fatalidade. Cabe a nós decidir se voltaremos a plantar fileiras idênticas, à espera resignada da próxima praga, ou se aprenderemos, enfim, a enxergar a ciência com os olhos de quem cultiva um jardim.
