O mundo ainda não decifrou a China
Com dados históricos e análise crítica, Washington Araújo discute como compreender a China tornou-se requisito para interpretar economia internacional, investimentos, tecnologia e diplomacia contemporânea com independência intelectual permanente
Washington Araújo - 11/07/2026


Em 11 de dezembro de 2001, a China ingressou na Organização Mundial do Comércio. Naquele momento, boa parte dos governos, universidades e centros financeiros do Ocidente acreditava assistir ao capítulo final de uma longa transição: a abertura econômica acabaria conduzindo o país, naturalmente, ao capitalismo liberal e às instituições políticas que marcaram a Europa e os Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial. Vinte e cinco anos mais tarde, a história seguiu outro roteiro.
A economia chinesa multiplicou seu tamanho, tornou-se a maior potência industrial do planeta, liderou setores como energia limpa, veículos elétricos e telecomunicações, mas não percorreu o caminho que tantos especialistas consideravam inevitável. A pergunta, portanto, deixou de ser por que a China mudou. A pergunta correta é por que o Ocidente continua tentando compreendê-la com categorias que já não explicam sua realidade.
Foi essa reflexão que me acompanhou durante a leitura de A Nova China, da economista Keyu Jin. O livro não pede concordância com as escolhas de Pequim. Faz algo intelectualmente mais exigente: desafia o leitor a abandonar respostas prontas para formular perguntas melhores. Parece uma diferença sutil, mas é justamente aí que reside sua originalidade.
Publicado originalmente em maio de 2023, nos Estados Unidos, com o título The New China Playbook: Beyond Socialism and Capitalism, o livro rapidamente ultrapassou o ambiente acadêmico. Tornou-se leitura recomendada por executivos, diplomatas, investidores e formuladores de políticas públicas interessados em compreender o país que mais influencia o comércio internacional desde a entrada do século XXI. A edição brasileira chega em momento particularmente oportuno. O Brasil ampliou sua relação econômica com a China, multiplicou investimentos bilaterais e passou a discutir temas como liquidação comercial em moedas locais, inteligência artificial, transição energética e infraestrutura.
Entender como os chineses interpretam a própria trajetória deixou de ser curiosidade intelectual. Tornou-se necessidade estratégica.
Keyu Jin reúne qualificações raras para conduzir essa conversa. Doutora pela Universidade Harvard, professora da London School of Economics e integrante de conselhos internacionais ligados à economia, ela viveu suficientemente dentro e fora da China para compreender as duas linguagens que frequentemente deixam de dialogar. Seu mérito não está apenas no currículo, e sim, na capacidade de traduzir para leitores ocidentais uma lógica de desenvolvimento construída sobre referências históricas muito diferentes das que moldaram Washington, Londres, Paris ou Berlim.
A recepção internacional confirma a relevância da obra. O Financial Times incluiu o livro entre suas recomendações de leitura. A revista Fortune sugeriu sua leitura a conselhos de administração que buscam compreender a transformação da economia chinesa. A crítica também apresentou reservas. O The Guardian, por exemplo, reconheceu a qualidade da análise econômica, mas observou que a autora dedica espaço reduzido a questões como censura, concentração de poder político, direitos civis e dificuldades enfrentadas pelo mercado imobiliário. Considero essas observações pertinentes. Elas não diminuem o valor do livro; ajudam a situá-lo. Trata-se de uma interpretação da China, não de uma enciclopédia sobre ela.
A tese central de Keyu Jin rompe uma dicotomia que há décadas domina o debate internacional. Em sua visão, a China não cabe nas definições clássicas de capitalismo nem nas de socialismo. Desenvolveu um arranjo institucional singular, resultado de experiências acumuladas desde as reformas iniciadas por Deng Xiaoping no fim dos anos 1970. Em vez de aplicar grandes teorias de maneira uniforme, o país transformou províncias e cidades em laboratórios permanentes de políticas públicas. Muitas reformas nasceram localmente, foram avaliadas durante anos e somente depois ganharam dimensão nacional.
Essa constatação parece simples, mas produz uma consequência profunda. Talvez o maior equívoco do debate internacional não seja discordar da China. Talvez seja insistir em fazer as perguntas erradas sobre ela.
Existe outra contribuição importante de A Nova China que merece atenção. Durante décadas, consolidou-se no imaginário ocidental a ideia de que o crescimento econômico produziria, quase automaticamente, convergência institucional. A prosperidade levaria à liberalização política; a abertura comercial conduziria ao pluralismo; o fortalecimento do setor privado reduziria progressivamente o papel do Estado. Keyu Jin demonstra que a realidade foi muito mais complexa. A economia chinesa incorporou mecanismos de mercado sem abrir mão de um Estado capaz de coordenar investimentos, definir prioridades tecnológicas e estabelecer objetivos nacionais de longo prazo. Não se trata de defender esse modelo, mas de reconhecer que ele existe e produziu resultados que desafiam previsões formuladas há trinta anos.
Essa talvez seja a maior virtude do livro. Em vez de perguntar por que a China não se tornou uma cópia do Ocidente, a autora investiga por que tantos analistas insistiram em acreditar que isso aconteceria. A pergunta muda completamente o debate. Também muda nossa forma de observar empresas como Huawei, BYD, CATL, DJI ou DeepSeek. Elas não nasceram por acaso, nem representam simples exceções. Fazem parte de um ecossistema que combina competição empresarial intensa, planejamento estratégico, investimento maciço em pesquisa científica e formação acelerada de capital humano.
O capítulo dedicado ao renminbi, frequentemente chamado de yuan nos mercados internacionais, merece leitura cuidadosa. A autora desmonta a narrativa segundo a qual Pequim estaria empenhada em substituir rapidamente o dólar como principal moeda global. Sua análise é muito mais prudente. O desafio não consiste em derrotar uma moeda concorrente, mas em construir confiança internacional. Nenhuma divisa alcança relevância apenas porque pertence a uma economia poderosa. Ela precisa oferecer liquidez, segurança jurídica, mercados profundos, previsibilidade regulatória e ampla aceitação entre investidores. Foi assim com a libra esterlina no século XIX. Foi assim com o dólar depois de Bretton Woods. A história monetária raramente admite atalhos.
Ainda assim, ignorar os movimentos em curso seria um erro semelhante ao cometido por quem subestimou a industrialização chinesa no início deste século. Os acordos de liquidação comercial em moedas locais, a expansão do Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços (CIPS), o desenvolvimento do yuan digital, o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS e o crescimento do comércio bilateral sem intermediação do dólar revelam uma estratégia paciente, cumulativa e coerente. Não são iniciativas isoladas. Formam um mosaico institucional destinado a ampliar a presença financeira da China sem provocar rupturas desnecessárias.
Fechei o livro convencido de que sua maior contribuição não está em oferecer respostas definitivas. Está em nos obrigar a abandonar uma postura intelectual confortável. Durante muito tempo, parte do debate internacional limitou-se a julgar a experiência chinesa antes mesmo de compreendê-la. Essa atitude empobreceu análises acadêmicas, previsões econômicas e decisões diplomáticas. Nenhum país precisa concordar com as escolhas feitas por Pequim. Mas todos têm a obrigação de entendê-las com rigor, sobretudo quando essas escolhas influenciam cadeias globais de produção, preços de commodities, investimentos em infraestrutura, inteligência artificial, energia, logística e comércio exterior.
No Brasil, essa discussão deixou de ser abstrata. A China tornou-se nosso principal parceiro comercial, investidor crescente em setores estratégicos e protagonista de projetos que afetam diretamente agricultura, mineração, energia, telecomunicações e mobilidade elétrica. Continuar analisando essa relação com categorias herdadas da Guerra Fria significa olhar para o futuro utilizando mapas desenhados para um mundo que já não existe.
Ao terminar A Nova China, permaneci menos interessado nas respostas oferecidas por Keyu Jin do que na mudança de perspectiva que ela propõe. Há momentos em que uma grande potência transforma a economia mundial. Há outros em que obriga seus interlocutores a rever as perguntas que formularam durante décadas. Talvez estejamos vivendo exatamente esse momento. O maior desafio do nosso tempo não seja decidir se concordamos com a China. O verdadeiro desafio é desenvolver humildade intelectual suficiente para compreendê-la antes de julgá-la. É essa disposição — rara, exigente e profundamente jornalística — que faz de A Nova China uma leitura indispensável para quem deseja interpretar o mundo que já começou.
https://revistaforum.com.br/opiniao/o-mundo-ainda-nao-decifrou-a-china/
