O país anestesiado pelo escândalo
Moraes contra Mendonça, tubarões contra urnas, memória contra manchete: o verdadeiro escândalo é o país que aprendeu a não se indignar mais.
Washington Araújo - 16/09/2026


Nas últimas 24 horas, em Brasília, o STF encerrou sessão extraordinária sem decidir se investiga Alexandre de Moraes, alvo da Petição 16.662 por mensagens supostamente trocadas com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A sessão terminou em bate-boca: Moraes chamou a apuração de “fraudulenta” e a condução de Mendonça de “mafiosa”; Gilmar Mendes falou em viés político-eleitoral; Mendonça e Fux denunciaram uma “PF paralela” que monitoraria ministros da Corte. Sem acordo sobre unir ou separar os processos, o julgamento foi adiado para 23 de setembro, após pedido de vista de Flávio Dino. A crise mais grave do Supremo em décadas virou mais um episódio no noticiário seguinte.
Christopher Achen e Larry Bartels batizaram esse comportamento de “retrospecção cega”: o eleitor pune ou recompensa governantes por eventos que não controlam, bastando coincidirem com as urnas. No estudo que originou “Democracy for Realists” (Princeton, 2016), mostraram que ataques de tubarão mataram quatro banhistas em Nova Jersey em 1916; nos condados litorâneos, Woodrow Wilson recebeu menos votos naquele ano, como se respondesse pelos tubarões. Steven Nawara e Mandi Bailey levaram o mecanismo aos escândalos múltiplos: em experimento na Social Science Journal (2025, p. 57-74), mediram como eleitores avaliam candidatos expostos a diferentes volumes de denúncia. Um único escândalo reduz o apoio; vários, simultâneos, não reduzem na mesma proporção, porque a carga de processar tantas acusações trava o julgamento.
O Brasil vive essa mecânica em tempo real. Entre maio de 2025 e maio de 2026, a corrupção saltou da quarta para a segunda posição entre as maiores preocupações do eleitor — de 13% para 18%, segundo a Genial/Quaest — puxada pelo INSS e pelo Banco Master. A indignação cresceu; a responsabilização, não: dias depois de reveladas as mensagens entre Vorcaro e Moraes, o Supremo sequer decidiu investigar, e a nova data já compete, na pauta, com outras operações policiais da mesma semana.
O preço concreto
Essa engrenagem cobra preço concreto. Municípios deixam de receber verbas porque processos se arrastam sem pressão suficiente para acelerá-los. Autoridades trocam de cargo em vez de responder por seus atos, confiantes em que outro escândalo tomará seu lugar em poucos dias. A denúncia, que deveria corrigir, vira item descartável, incapaz de distinguir o urgente do que pode esperar meses.
Reverter esse quadro exige memória prolongada: cobrar apuração até o fim, caso a caso, sem permitir que o volume de escândalos funcione como anestesia coletiva.
A confusão real está entre informação e vigilância. Uma sociedade bem informada, mas incapaz de reter o que aprende por mais de uma semana, permanece tão vulnerável quanto uma sociedade desinformada. Entendo que o verdadeiro problema é o esquecimento acelerado que o excesso de fatos, mal administrado, ajuda a produzir. Saber de tudo e lembrar de pouco equivale, na prática, a não saber.
Cabe às instituições sustentar essa memória além da manchete inicial. Imprensa, Ministério Público e Judiciário têm a obrigação de acompanhar cada processo até seu desfecho, muito depois da abertura espetacular que rendeu as primeiras páginas.
Responsabilização exige fôlego de maratona: volta ao caso semanas e meses depois, quando o interesse imediato já migrou para outro escândalo e ninguém mais cobra satisfação. Todo país que esteja acostumado ao abuso continuará sofrendo suas consequências; apenas perde, aos poucos, a capacidade de reconhecê-las como abuso.
Essa perda de reconhecimento, mais do que qualquer desvio isolado, é o dano mais duradouro que o escândalo em excesso provoca sobre a vida pública brasileira.
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