O pão chega com juros nos Estados Unidos

Nos Estados Unidos, famílias recorrem cada vez mais ao crédito para comprar alimentos, enquanto preços elevados e custos financeiros comprimem o orçamento doméstico

Washington Araújo - 30/07/2026

lendo a edição digital do Washington Post, deparei-me com uma reportagem que merece atenção muito além das fronteiras dos Estados Unidos. Cresce o número de famílias que recorre ao cartão de crédito, ao sistema “compre agora, pague depois“, a empréstimos de curto prazo e até às próprias economias para comprar alimentos. A refeição termina no mesmo dia. A dívida continua presente durante semanas ou meses.

A dimensão do problema aparece nas estatísticas. Pesquisa realizada pelo Washington Post em parceria com o Ipsos mostra que dois terços dos norte-americanos consideram os alimentos caros demais para seu orçamento. O levantamento alcançou inclusive famílias com renda anual superior a US$ 100 mil, sinal de que o encarecimento da cesta básica deixou de atingir apenas os segmentos de menor renda e passou a pressionar parte expressiva da classe média.

A maior alta em décadas

Observo que esse fenômeno não nasceu de um único fator. Desde 2019, os alimentos consumidos em casa acumularam alta próxima de 33% nos Estados Unidos, o maior avanço em décadas. Em junho, a inflação anual perdeu força em relação ao mês anterior, mas permaneceu acima da meta de 2% perseguida pelo Federal Reserve. Os preços deixaram de subir no mesmo ritmo, porém continuaram elevados, preservando boa parte das perdas sofridas pelo consumidor ao longo dos últimos anos.

Vejo, nesse ponto, uma experiência brasileira que merece ser examinada. Se os Estados Unidos dispusessem de um sistema semelhante ao Pix, gratuito para pessoas físicas, com liquidação em segundos e funcionamento ininterrupto, bilhões de dólares deixariam de alimentar as taxas cobradas sobre pagamentos eletrônicos. Em Nova Iorque, comerciantes convivem com custos médios entre 1,5% e 3,5% nas operações com cartões, despesas frequentemente incorporadas ao preço final dos produtos. No fim da cadeia, o consumidor também financia a engrenagem do sistema financeiro.

Dívidas adiadas

O quadro torna-se ainda mais preocupante quando estudos mostram o crescimento do número de norte-americanos que carregam para os meses seguintes a dívida contraída na compra de alimentos. Nesse instante, o crédito deixa de antecipar investimentos, viagens ou aquisição de patrimônio. Passa a sustentar uma necessidade que nenhuma família consegue adiar: colocar comida sobre a mesa.

Enxergo nesse retrato um alerta direto para o Brasil. Segundo a Confederação Nacional do Comércio, mais de 80% das famílias brasileiras convivem com algum tipo de endividamento, tendo o cartão de crédito como principal modalidade. Aplicativos, crédito instantâneo e limites pré-aprovados facilitam a compra, mas reduzem a percepção do verdadeiro custo do dinheiro quando a fatura vence.

Considero que a geladeira abastecida já não representa, necessariamente, segurança financeira. Em muitos lares, ela apenas indica que alguém transferiu para o mês seguinte a conta do arroz, do leite, dos ovos e do pão comprados hoje. A pobreza contemporânea aprende a ocultar seus sinais externos enquanto a dívida cresce silenciosamente dentro de casa.

Uma economia pode registrar crescimento, inovação tecnológica e mercados financeiros sofisticados. Ainda assim, existe um indicador que continua insubstituível: a capacidade de uma família comprar alimentos com o fruto do próprio trabalho, sem recorrer ao crédito. Quando o supermercado passa a funcionar como agência bancária, deixa de estar em jogo apenas o preço da comida. A autonomia das famílias começa a ser financiada pelos juros.

https://revistaforum.com.br/opiniao/o-pao-chega-com-juros-nos-estados-unidos/

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