O poder cabe na caixa

A fábula de um renomado sábio persa ganha atualidade diante de guerras, fortunas bilionárias e governos que ainda transformam autoridade, riqueza e força em espetáculo

Washington Araújo - 01/09/2026

Em 2025, países destinaram US$ 2,887 trilhões aos gastos militares, o maior volume já registrado pelo Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo, o SIPRI. Foram onze anos consecutivos de expansão. Estados Unidos, China e Rússia responderam, juntos, por US$ 1,48 trilhão, 51% do total mundial, enquanto as despesas europeias cresceram 14% em apenas um ano. No mesmo período, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados precisou assistir 129,4 milhões de pessoas deslocadas à força ou apátridas, mas recebeu recursos equivalentes a apenas 37% de suas necessidades. A justaposição desses números dispensa indignação retórica. A humanidade dispõe de dinheiro. A escolha de onde colocá-lo revela, com precisão, aquilo que considera prioritário.

Penso nesses números diante de uma história que Bahá’u’lláh contou sobre Sua infância em Teerã. Durante as festividades do casamento de um de Seus irmãos, realizadas ao longo de sete dias e sete noites segundo os costumes da época, foi apresentado aos convidados um espetáculo de marionetes. Um rei chegava cercado pelo cerimonial indispensável à sua majestade. Servidores preparavam o caminho, ministros se posicionavam, trombetas anunciavam a entrada, canhões disparavam, o soberano avançava coroado e se sentava no trono. A representação reunia todos os sinais capazes de ensinar a uma plateia quem mandava e quem deveria obedecer.

Logo a autoridade abandonava o protocolo e mostrava sua consequência concreta. Um ladrão era conduzido diante do monarca, que ordenava sua decapitação. Depois chegavam notícias de uma rebelião na fronteira. Tropas eram enviadas, novos tiros de canhão anunciavam o combate e a engrenagem prosseguia até o encerramento da peça.

Alguns minutos de marionetes condensavam elementos recorrentes de séculos de História: ostentação, hierarquia, submissão, punição, fronteira e guerra.

A fabricação da autoridade

Terminada a apresentação, Bahá’u’lláh viu um homem sair detrás da tenda levando um pequeno volume debaixo do braço. Perguntou-lhe o que carregava. Ali estavam, respondeu ele, o rei, os príncipes, os ministros, toda a pompa, a glória e a grandeza que momentos antes haviam ocupado o palco.

O que me interessa nessa narrativa ultrapassa a transitoriedade das riquezas. Chama-me a atenção a quantidade de energia que sociedades inteiras consomem para fabricar sinais de importância. O soberano da peça precisava de anunciadores, servidores, coroa, trono, música e artilharia antes mesmo de pronunciar uma ordem. Era necessário construir visualmente sua superioridade. A obediência começava pelo olhar.

Dois séculos depois, a maquinaria tornou-se incomparavelmente mais sofisticada. Chefes de Estado discursam diante de cenários calculados ao centímetro. Mísseis cruzam avenidas em desfiles destinados simultaneamente aos cidadãos e aos adversários. Reuniões internacionais organizam enquadramentos, bandeiras, mesas, distâncias e precedências capazes de produzir mensagens políticas antes que qualquer frase seja pronunciada. Redes sociais acrescentaram um elemento novo: a representação da autoridade tornou-se permanente, instantânea e global.

Vejo nisso uma fragilidade pouco examinada. Quanto mais uma autoridade precisa demonstrar incessantemente sua força, mais dependente se torna dos símbolos que a sustentam. Governar exige decisões, responsabilidade e consequência; a cenografia costuma crescer justamente onde a substância precisa de reforço.

A economia da guerra

Na história narrada por Bahá’u’lláh, chama atenção a velocidade com que o cerimonial desemboca na violência. Depois da entrada majestosa, surge um condenado. Depois da sentença, uma rebelião. Depois da rebelião, soldados. A sequência possui uma lógica reconhecível: primeiro a sociedade aprende a reverenciar a autoridade; em seguida aceita que essa mesma autoridade disponha sobre vidas humanas.

O noticiário internacional de nosso século deveria ter nos tornado menos tolerantes com essa lógica. Ainda assim, desenvolvemos um vocabulário capaz de tornar administrável aquilo que deveria ferir nossa consciência.

Pessoas mortas tornam-se “baixas”; casas destruídas entram nos relatórios como “infraestrutura”; bairros onde famílias viveram durante gerações convertem-se em “teatro de operações”. O vocabulário técnico oferece distância psicológica a decisões que terminam sobre corpos humanos. Quanto mais limpa se torna a linguagem dos comunicados militares, maior o risco de perdermos de vista aquilo que ela administra: alguém morreu, alguém perdeu um filho, alguém saiu de casa sem saber se algum dia poderá voltar.

O SIPRI informa que as despesas militares globais aumentaram 41% entre 2016 e 2025. Em 2025, Rússia e Ucrânia destinaram respectivamente cerca de US$ 190 bilhões e US$ 84,1 bilhões ao setor militar; no caso ucraniano, o montante correspondeu a aproximadamente 40% do Produto Interno Bruto. Os números possuem causas políticas, históricas e estratégicas que precisam ser compreendidas em sua complexidade. Ainda assim, existe uma pergunta anterior a todas elas: como chegamos ao ponto em que recursos dessa magnitude precisam ser mobilizados para que povos matem integrantes de outros povos?

Não consigo reconhecer avanço civilizatório numa ordem internacional que trata a guerra como instrumento recorrente da política.

Podemos sofisticar drones, sistemas de inteligência, satélites, armas hipersônicas e algoritmos de seleção de alvos; a inovação técnica apenas aumenta a eficiência de uma ideia ancestral: impor pela destruição aquilo que a política foi incapaz de resolver.

O poder da fortuna

A história das marionetes também ajuda a examinar outro fenômeno contemporâneo. A Oxfam estimou em US$ 18,3 trilhões a riqueza dos bilionários ao final de 2025, crescimento superior a 16% em doze meses. O número de pessoas com fortunas bilionárias ultrapassou três mil pela primeira vez, e seu patrimônio acumulado aumentou 81% desde 2020. Esses dados interessam menos pelo fascínio das cifras do que pela capacidade de riqueza extrema converter-se em influência pública.

Empresas inovam, geram empregos e ampliam possibilidades econômicas. Minha preocupação começa no ponto em que determinadas fortunas ultrapassam a esfera patrimonial e passam a exercer funções próximas das antigas prerrogativas de soberania. Seus proprietários controlam redes pelas quais circula a informação de sociedades inteiras, possuem dados sobre bilhões de indivíduos, financiam candidatos, negociam diretamente com chefes de Estado e interferem no alcance público de vozes e ideias.

As democracias construíram mecanismos para limitar presidentes, parlamentos, tribunais e governos, mas ainda engatinham diante de poderes privados capazes de atravessar fronteiras sem eleição, mandato ou prestação pública de contas. Elegemos autoridades sob regras conhecidas; uma parcela crescente da vida coletiva, porém, passa por empresas cujos controladores jamais receberam um único voto.

A antiga aristocracia exibia brasões. A atual controla infraestrutura, capital, informação e atenção.

Bahá’u’lláh relatou que aquele espetáculo modificou Sua percepção dos ornamentos terrenos. A pompa, os tesouros, os exércitos, a aparência e a vanglória perderam importância diante da consciência de seu destino final. O que para os espectadores parecia grandioso havia retornado, poucos minutos depois, à condição de objetos guardados.

Leio essa história como uma advertência muito mais exigente do que uma condenação da vaidade. Ela me obriga a pensar sobre o uso do tempo, do dinheiro, da inteligência e da autoridade. Uma sociedade revela sua escala de valores pela distribuição de seus recursos. Um governo se define pelas vidas que suas escolhas protegem ou abandonam. Uma fortuna adquire significado público pelo que permite construir ao redor de si. Um cargo vale pelas consequências deixadas depois que o nome de seu ocupante desaparece da porta.

É nesse ponto que os números do início deste artigo retornam com outra gravidade. Quase US$ 2,9 trilhões foram destinados às forças militares em 2025. Ao mesmo tempo, o ACNUR recebeu apenas 37% dos recursos necessários para atender uma população de 129,4 milhões de pessoas deslocadas à força ou apátridas. O contraste registra uma decisão coletiva, repetida em governos, orçamentos e instituições. Financiamos com impressionante eficiência arsenais, sistemas de combate e estruturas militares; diante de milhões de pessoas expulsas de suas casas, a escassez reaparece como argumento.

A cena presenciada pelo menino em Teerã atravessou quase dois séculos porque seu objeto verdadeiro nunca foram as marionetes. Era nossa dificuldade de compreender a dimensão provisória daquilo diante do qual nos curvamos. Mudaram os uniformes, os arsenais, os títulos e a quantidade de zeros nas fortunas. Continuamos atribuindo permanência ao que nasceu condenado a desaparecer.

No fim da apresentação, o homem recolheu o rei, os ministros, os soldados, o trono e os canhões.

Nenhum deles ocupava mais espaço que os outros.

Todos cabiam na mesma caixa.

https://revistaforum.com.br/opiniao/o-poder-cabe-na-caixa/

Cultura

Explorando literatura, cinema e ética contemporânea.

Podcast

contato@palavrafilmada.com

+55 61 98373 3233

© 2025. All rights reserved.