O último da família

Sobreviver aos próprios pais e irmãos transforma a memória familiar: chega um momento em que certas perguntas permanecem porque morreu quem poderia respondê-las

Washington Araújo - 18/09/2026

Existe um dia em que a pessoa percebe que já não resta quase ninguém capaz de completar uma frase muito simples: “Lembra daquele dia?”. No início de 2026, a revista Social Science & Medicine publicou um estudo sobre essa experiência ainda pouco discutida: tornar-se o último sobrevivente da própria família de origem. Susan L. Brown, I-Fen Lin, Francesca Marino e Kagan Mellencamp analisaram 191.146 observações do Health and Retirement Study, nos Estados Unidos. Pais e irmãos haviam morrido. Ficava alguém carregando sozinho lembranças que, durante décadas, pertenceram a várias pessoas.

A pesquisa chama essa condição de sole family survivorship (sobrevivência como único remanescente da família de origem). O conceito descreve quem já perdeu pai, mãe e todos os irmãos — ainda que tenha companheiro, filhos, netos e outros parentes. Trata-se, portanto, do desaparecimento completo do núcleo familiar no qual aquela pessoa nasceu e cresceu.

Em estudo anterior, Brown e seus colegas haviam encontrado o fenômeno em 12,96% dos americanos com 55 anos ou mais. Depois dos 75, a proporção ultrapassava um em cada quatro. No trabalho publicado neste ano, sobreviver a pais e irmãos apareceu associado a mais sintomas depressivos e maiores dificuldades nas atividades cotidianas, entre homens e mulheres.

Os números brasileiros tornam a pergunta inevitável. Segundo o IBGE, a população com 60 anos ou mais passou de 11,3% do país, em 2012, para 16,6% em 2025. No mesmo período, domicílios ocupados por uma única pessoa saltaram de 12,2% para 19,7%. Entre quem mora sozinho, 41,2% já tem 60 anos ou mais. Estamos envelhecendo e, ao mesmo tempo, reduzindo o tamanho doméstico de nossas famílias.

Esse assunto está longe de integrar a lista quase infinita de temas que me levam a procurar livros, assistir a filmes, ler entrevistas ou participar de debates. Entrou na minha vida por outro caminho. Em 2011, éramos oito: meu pai, minha mãe, meus cinco irmãos e este que escreve. Cinco anos depois, em 2016, cinco deles haviam morrido — meus pais e três irmãos. Sobrevivemos, aos trancos e barrancos, eu e dois irmãos.

Nem houve tempo para viver o luto necessário por cada um. Foram saindo de cena, um atrás do outro, numa sucessão difícil até de compreender enquanto acontecia. E foi de lascar. A fragilidade da vida deixou de ser máxima filosófica, pensamento de livro ou frase repetida diante da morte dos outros. Tornou-se rotina dentro de casa. Ninguém atravessa tantas despedidas definitivas, em tão pouco tempo, e continua exatamente a mesma pessoa.

Dez anos depois, olhando para trás, imagino uma pergunta que resume aqueles anos:

— Depois de tudo isso, o que aconteceu com você?

A resposta que daria hoje não exige explicação longa:

— Aconteceu a vida.

Testemunhas da infância

Conheço, por isso, a força silenciosa das testemunhas da infância. Um irmão sabe quem fomos antes do currículo, dos títulos, das derrotas escondidas e das versões socialmente apresentáveis que construímos de nós mesmos. Lembra apelidos esquecidos, medos ridículos, brigas por nada, a voz dos pais, o corredor da primeira casa. Sua memória guarda partes de nossa biografia às quais jamais tivemos acesso sozinhos.

Perder um irmão contém uma dimensão pouco examinada. Morre uma pessoa amada e desaparece também uma testemunha. Certos acontecimentos continuam existindo apenas na memória daquele que ficou. Já ninguém pode dizer: “Lembra daquele dia?” e receber como resposta uma correção, uma gargalhada, uma versão diferente.

Brown e seus colegas descrevem essa sobrevivência como um desenraizamento da família de origem. A expressão é precisa. Filhos, netos, amigos e companheiros podem formar vínculos profundos, mas chegam depois. Não estavam naquela cozinha. Não ouviram aquela discussão. Não conheceram nossos pais jovens. Não viram a criança que fomos antes que a vida começasse a acrescentar camadas, responsabilidades, cicatrizes e personagens.

Chegar a ser o último da família significa carregar sozinho um arquivo sem cópia. Fotografias permanecem, documentos permanecem, objetos permanecem.

Falta a outra memória capaz de contradizer a nossa. Ninguém envelhece apenas no corpo; envelhecemos também pela redução das testemunhas.

A longevidade costuma ser celebrada pelo número de anos acrescentados à existência. Pouco se fala sobre o preço de sobreviver. Cada pessoa que parte leva consigo uma versão de nós que nenhum documento poderá recuperar. Até que um dia percebemos algo brutalmente simples: continuamos aqui, mas quase todos aqueles que sabiam de onde viemos já foram embora.

Ser o último da família significa tornar-se simultaneamente sobrevivente, testemunha e arquivo. Guardar nomes, vozes, histórias e cenas que já não podem ser confirmadas por ninguém. E seguir adiante sabendo que certas perguntas permanecerão para sempre sem resposta porque morreu a última pessoa a quem ainda poderíamos fazê-las.

https://revistaforum.com.br/opiniao/o-ultimo-da-familia/

Cultura

Explorando literatura, cinema e ética contemporânea.

Podcast

contato@palavrafilmada.com

+55 61 98373 3233

© 2025. All rights reserved.