Octávio Malta, a medida alta do jornalismo brasileiro
Octávio Malta enfrentou governos, ditaduras, contrariou aliados, criticou a própria imprensa e preservou aquilo que mais falta ao ofício hoje: independência para pensar e coragem para escrever.
Washington Araújo - 20/09/2026


A história do jornalismo brasileiro reservou a Octavio Malta um espaço muito menor do que sua obra exige. Seu nome atravessa memórias de escritores, políticos, repórteres e homens públicos do século XX, mas raramente ocupa o centro da narrativa sobre a imprensa de sua época. Quanto mais leio seus textos e procuro seus rastros nos arquivos, mais cresce em mim uma convicção de jornalista e professor: estamos diante de um dos grandes profissionais de sua geração, integrante daquele grupo mínimo que ajudou a definir o próprio ofício.
Foi essa sensação que me acompanhou durante a leitura de Octavio Malta: jornalismo de combate, organizado por seu filho, Dácio Malta, para assinalar os 120 anos do nascimento do pai. O livro reúne artigos, perfis, fotografias e lembranças que recompõem seis décadas de vida profissional e, por extensão, um longo trecho da história brasileira. Biografia e país caminham juntos porque Malta trabalhou perto dos acontecimentos, conheceu muitos de seus protagonistas e escreveu enquanto os fatos ainda carregavam a incerteza e o risco do próprio tempo.
O jornalista por inteiro
Octavio Malta nasceu em 13 de fevereiro de 1902, em Nossa Senhora do Ó, então distrito de Nazaré, em Pernambuco. Aos 17 anos, começou como revisor no Diário de Pernambuco e, pouco depois, passou à redação. Para quem ensina jornalismo, esse início possui significado especial. A revisão obriga o jovem profissional a compreender cedo que uma palavra deslocada compromete uma frase, uma informação mal apresentada confunde o leitor e escrever bem começa muito antes do desejo de produzir uma bela página.
Aos 23 anos, ele e Osório Borba aprenderam uma lição menos técnica e bem mais áspera. Os dois criticavam o governador Sérgio Loreto, que passou a exigir a saída deles dos jornais pernambucanos. Acabaram deixando Recife. A experiência ensinou cedo a Malta que a palavra publicada podia produzir consequências muito concretas para quem a assinava.
No Rio de Janeiro enfrentou meses de “boca incerta”, expressão usada por Dácio para descrever aquele período de sobrevivência profissional. Trabalhou em A Folha, vespertino de Medeiros e Albuquerque, e em 1926 tornou-se redator da Tribuna, o “vermelhinho” identificado com a oposição. O jornalismo brasileiro daquela época possuía enorme variedade de títulos, forte presença de escritores nas redações e uma ligação quase física entre imprensa, política, literatura e combate público.
Malta se formou por inteiro nesse ambiente. Sua atividade política avançou juntamente com a carreira e acabou levando-o à prisão em 1935. Secretário-geral do Socorro Vermelho, organização de solidariedade vinculada ao movimento comunista, foi recolhido à Casa de Detenção da rua Frei Caneca, no Rio. Mesmo ali, produziu uma das cenas que melhor revelam sua relação com o jornalismo.
Os jornais chegavam à prisão. Malta os lia, selecionava as notícias e preparava um resumo diário. O médico Campos da Paz, dono de voz poderosa, aproximava-se das grades e lia o texto para os outros presos. Num espaço concebido para interromper a ação política daqueles homens, o jornalista encontrou um modo de manter a informação circulando entre as galerias.
Dácio reproduz uma fotografia daqueles presos. Dezenas de homens aparecem reunidos, muitos sem camisa, braços levantados e punhos cerrados. Estão ali Campos da Paz, Apolônio de Carvalho e Octavio Malta. Entre os rostos reconheci ainda o Barão de Itararé, barba cerrada e cigarro na boca. Um pormenor chama a atenção: quase todos erguem o braço direito; Malta aparece com o esquerdo levantado.
Seguramente foi acaso. A fotografia, porém, ganhou com o tempo uma ironia que combina com o personagem. Naquela fileira de homens submetidos à mesma prisão e reunidos pela mesma causa, a diferença involuntária de seu gesto parece hoje uma pequena travessura da História.
Graciliano Ramos o encontrou naquele universo e o incluiu em Memórias do Cárcere. Décadas depois, Malta reaparece nas lembranças de Darcy Ribeiro, Nelson Rodrigues, Rubem Braga, Paulo Francis, Samuel Wainer e de estudiosos da política brasileira. Essa recorrência impressiona porque nasce da memória alheia. Foram os personagens de seu tempo que continuaram a levá-lo para dentro dos livros.
Malta encontra a História
No fim dos anos 1930, outro encontro mudaria o curso de sua vida. Em agosto de 1938, na redação de A Tarde, Carlos Lacerda apresentou Octavio Malta a Samuel Wainer. A História ainda não distribuíra aqueles três homens nos campos políticos pelos quais seriam lembrados. Lacerda era amigo íntimo de Malta; Wainer começava a experiência de Diretrizes. Mais tarde, Malta diria que daquela apresentação nasceu uma ligação “do tamanho de uma vida”.
Dácio recorda que o pai já desfrutava de grande prestígio no meio jornalístico. Samuel encontrou nele experiência, cultura política, capacidade de edição e uma segurança profissional rara. Em Diretrizes, Malta escreveu editoriais, acompanhou os grandes debates nacionais e internacionais e participou do núcleo intelectual da publicação. Wainer soube posteriormente que o Partido Comunista havia incumbido o amigo de acompanhar politicamente a revista, descoberta que não desfez a relação construída entre os dois.
A convivência ajuda a entender o lugar profissional que Malta já ocupava. Samuel era inquieto, ambicioso, apaixonado pelo jornal e sujeito a grandes entusiasmos e rompimentos; Malta possuía outro temperamento. Dorival Caymmi o considerava o melhor secretário de jornal que conhecera e destacava sua calma diante da quantidade extraordinária de trabalho que realizava. Saber fazer uma redação funcionar também mede a grandeza de um jornalista.
Em 31 de dezembro de 1942, aos 40 anos, Malta publicou em Diretrizes “Que política de guerra deve seguir o Brasil em 1943?”. O país havia declarado guerra à Alemanha e à Itália meses antes, e o artigo reúne política externa, estratégia militar, economia, propaganda, organização interna e mobilização popular. É um texto de fôlego, escrito por alguém que precisava interpretar um conflito ainda em curso.
A peça guarda também as marcas de seu tempo. Malta emprega o vocabulário da guerra, fala em quinta-coluna e reproduz concepções sobre grupos de origem estrangeira que hoje exigem contextualização cuidadosa. O Brasil vivia sob o Estado Novo, enfrentava uma guerra mundial e experimentava vigilâncias, restrições e temores que precisam permanecer visíveis na leitura do documento.
O interesse jornalístico aumenta justamente porque Malta escrevia sem conhecer o resultado dos acontecimentos. Não sabia como terminaria a guerra, que alianças sobreviveriam nem como o Brasil sairia do conflito. Trabalhava com o presente incompleto, matéria-prima de uma profissão obrigada a organizar fatos antes que eles adquiram a coerência retrospectiva dos livros de História.
A oficina de Última Hora
Samuel Wainer lançou Última Hora em 1951 e colocou Octavio Malta no núcleo da nova experiência. O jornal modernizou paginação, fotografia, linguagem e métodos de trabalho, pagou salários competitivos e assumiu posição definida num mercado em que poderosos veículos combatiam Getúlio Vargas. Malta participou dessa construção como redator-chefe, diretor, editorialista e conselheiro permanente de Samuel.
Wainer recorria a ele nos momentos difíceis. Em suas memórias, chama Malta de braço direito; Dácio prefere a expressão “braço esquerdo”, mais adequada ao lugar político ocupado pelo pai. A brincadeira anatômica encobre uma relação profissional profunda: num jornal exposto a crises e campanhas ferozes, Samuel confiava no julgamento daquele companheiro desde Diretrizes.
Foi também em Última Hora que Malta manteve durante muitos anos Jornais & Problemas, coluna que obriga a história da imprensa brasileira a rever uma afirmação repetida por décadas. Ali, comparava versões, examinava editoriais, discutia critérios, apontava contradições, identificava interesses e submetia o comportamento dos jornais ao mesmo tipo de observação crítica reservado pela imprensa aos outros poderes.
Chego aqui a Alberto Dines por uma razão profissional e afetiva. Durante anos escrevi semanalmente no Observatório da Imprensa sob seu comando. Guardo profunda admiração pelo jornalista que dignificou a profissão por sua singularidade intelectual, pelo talento com as letras e por uma concepção ética que recusava privilégios para a própria imprensa. Dines ajudou a consolidar entre nós a ideia de que jornalistas também precisam responder publicamente por seus métodos.
O Observatório levou esse princípio a uma escala inédita, abrindo espaço para discutir coberturas, erros, omissões, linguagem, propriedade dos meios, ética e relações entre imprensa e poder. Foi uma escola de crítica e de contraditório. Justamente por isso, a divergência que faço aqui aplica à história da profissão a exigência que Dines ajudou a tornar permanente.
No depoimento concedido ao CPDOC da Fundação Getulio Vargas, depois publicado em Eles mudaram a imprensa, Dines relata sua chegada à Folha de S.Paulo, em 1975, e a proposta de criar uma coluna dedicada à crítica da mídia. Nascia Jornal dos Jornais, experiência decisiva em sua trajetória e, muitos anos depois, na formação do Observatório da Imprensa. Parte da bibliografia passou a associar a essa coluna o pioneirismo da crítica sistemática de mídia no Brasil.
A posição de Dines era mais sofisticada do que algumas versões posteriores fizeram parecer. Ele conhecia antecedentes e mencionou, entre outros, Octavio Malta. Sua distinção estava no alcance: entendia que aqueles jornalistas examinavam veículos, textos e desempenhos determinados, enquanto seu projeto procurava alcançar também estruturas, processos e o funcionamento do sistema de comunicação. O argumento merece respeito; a cronologia, porém, exige outra leitura.
Antes de Alberto Dines
Jornais & Problemas já exercia, muito antes de 1975, uma atividade regular de exame da imprensa. Malta confrontava versões, discutia omissões, identificava interesses, avaliava escolhas editoriais e cobrava responsabilidade profissional. Samuel Wainer sustentou que aquela era a primeira coluna brasileira dedicada diariamente a comentar os jornais, e Dácio registra que o pai realizou esse trabalho por mais de vinte anos.
Por isso considero Octavio Malta pioneiro da crítica sistemática da imprensa brasileira. Dines ocupa uma etapa posterior e fundamental, na qual essa prática ganhou aprofundamento teórico, outra escala e, mais tarde, uma instituição dedicada inteiramente ao acompanhamento da mídia. A grandeza de um permanece intacta; reconhecer a anterioridade do outro apenas torna a história mais precisa.
Há, para mim, uma coerência especial nessa correção. Trabalhei num espaço criado por Dines para que jornalistas examinassem jornalistas sem reverência automática a nomes consagrados. Se documentos anteriores deslocam uma narrativa estabelecida, o dever profissional é acompanhá-los. Divergir a partir de arquivo, comparação e contraditório me parece uma homenagem mais fiel ao espírito do Observatório do que preservar uma primazia apenas porque se tornou conhecida.
A coluna de Malta tinha ainda uma vantagem decisiva: vinha de alguém que conhecia profundamente a oficina. Sabia como uma manchete orienta a leitura, como uma fotografia altera o sentido de uma página, como um corte modifica uma declaração e quanto uma omissão pode revelar sobre a linha editorial. Criticava a imprensa com a experiência de quem também precisava fechá-la todos os dias.
A escrita por dentro
Nestor de Holanda percebeu uma de suas qualidades ao incluí-lo, nos anos 1960, numa relação pessoal dos dez maiores jornalistas brasileiros. Sua justificativa atravessou o tempo: todo jornalista, diante da máquina de escrever, pediria aos céus a graça de ser claro e simples; Malta seria o único atendido por Deus. A graça funciona porque descreve uma característica facilmente verificável em sua prosa.
Malta possuía cultura vasta e conviveu com escritores como Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, José Américo de Almeida e Érico Veríssimo. O repertório, porém, raramente virava demonstração. Nos perfis de Siqueira Campos, João Alberto, Osório Borba, Edmundo Bittencourt, Gilberto Amado e Getúlio Vargas, prefere o episódio, a frase, o gesto e o detalhe capazes de revelar uma personalidade.
No perfil de Osório Borba, o título “O homem que cuspia marimbondos” instala um temperamento antes da primeira linha. Em Dois Getúlios Vargas, Malta recupera o apelido de Chuchu dado ao líder depois da Revolução de 1930, referência à leguminosa que absorve o sabor do molho. Pouco depois, Getúlio mostraria personalidade suficiente para sepultar o apelido. Malta sabia que um detalhe exato pode iluminar uma época inteira.
Também escreveu “O repórter político, seu dever e arte”, título que resume uma concepção profissional. O dever aponta para a responsabilidade pública; a arte, para o domínio da linguagem, da observação e da forma. Para Malta, apurar e discernir eram inseparáveis da capacidade de narrar com precisão aquilo que o repórter havia conseguido compreender.
O artigo de 1942 permite ver esse método em escala maior. Malta parte da posição internacional assumida pelo Brasil e aproxima gradualmente a guerra da vida nacional: indústria, forças armadas, propaganda, economia, mobilização popular. Os intertítulos organizam a progressão, as perguntas deslocam o raciocínio e as enumerações condensam aquilo que poderia se espalhar por páginas.
Uma frase concentra esse procedimento: “Falta de unidade de ação, falta de um plano estratégico, falta de comando único.” A repetição de “falta” estabelece ritmo, mas a força está na sequência lógica: ação, planejamento, comando. Durante décadas em salas de aula de jornalismo, encontrei nesse tipo de construção um ensinamento mais fértil que muitas fórmulas de redação.
Escrever no meio da crise
A mesma capacidade ganha outra dimensão em 1º de abril de 1964. Naquele dia, Última Hora publicou “A Significação Antipovo da Procissão das Madames”. O movimento militar contra João Goulart já estava em curso, tropas se deslocavam, alianças se rompiam e a estrutura política brasileira começava a desabar diante de quem escrevia. Malta abre o artigo com cinco palavras carregadas posteriormente pela História: “Suponho que vai chover grosso…”
Conhecemos a tempestade; Malta conhecia apenas os primeiros sinais. Essa diferença transforma o artigo num documento jornalístico de enorme interesse. Estamos lendo alguém situado dentro do acontecimento, recebendo telefonemas, cartas, discursos e notícias ainda incompletas, tentando compreender uma realidade que mudava de hora em hora. Nenhuma perspectiva posterior reproduz exatamente essa condição.
O texto é assumidamente opinativo. Malta apoiava João Goulart, defendia as reformas de base e observava os adversários do governo a partir de uma posição política muito clara. Essa localização precisa permanecer diante do leitor, porque permite distinguir a informação disponível naquela hora do julgamento produzido por um articulista comprometido com um dos lados da crise.
Durante anos discuti em sala de aula a ética específica do jornalismo de opinião. O articulista possui liberdade para interpretar e tomar posição, mas continua submetido aos fatos que utiliza para sustentar sua análise. A convicção aumenta a responsabilidade, porque o desejo de convencer pode levar à seleção cômoda de evidências. Malta oferece material precioso justamente para estudar essa tensão.
Depois do golpe, a assinatura passou a ter outro custo. Perseguido e obrigado a permanecer durante algum tempo na clandestinidade, Malta continuou publicando. Em Última Hora utilizou o pseudônimo Manoel Bispo; na Folha da Semana, assinou Luiz da Silva, personagem de Angústia, de Graciliano Ramos. Mudava o nome impresso para conservar a possibilidade de intervir no debate público.
A existência de textos críticos nos primeiros anos do regime militar conviveu com prisões, apreensões, vigilância e diferentes formas de censura, aprofundadas depois do AI-5. Malta sofreu as consequências da nova ordem e escreveu sobre Castelo Branco, estudantes, MDB, reforma agrária, liberdade e violência. Em alguns textos, a militância avança sobre a análise; isso também pertence à obra e precisa permanecer visível.
Entre sabiás e gaviões
Em 1968, “Sabiás e gaviões” revela outro registro de Malta. O Instituto Antonio Carlos Jobim preserva o recorte e o identifica como artigo daquele ano. A peça surge no ambiente da vitória de “Sabiá”, de Tom Jobim e Chico Buarque, no Festival Internacional da Canção, episódio que ofereceu ao jornalista a matéria verbal para construir uma análise muito mais ampla.
O artigo começa pelo petróleo descoberto em Sergipe e pelas reservas de minério de ferro encontradas no Pará. Malta olha primeiro para recursos estratégicos capazes de ampliar as possibilidades econômicas do Brasil. Logo introduz a inquietação política do país e abre caminho para um jogo com os nomes de Jarbas Passarinho, então ministro, e de um deputado chamado Sabiá.
Passarinho, homem da Arena, enviara mensagem ao parlamentar do MDB celebrando a vitória da canção e referindo-se com humor à “família ornitológica”. Malta percebe o material que recebeu. Passarinho e Sabiá entram no artigo, seguidos de aves de voo baixo, aves de rapina e répteis cuja aparência lembra a das aves. A brincadeira vai adquirindo sentido político sem se desligar do assunto inicial.
Petróleo e ferro despertam interesses econômicos e colocam em disputa diferentes projetos para o desenvolvimento brasileiro. Os pássaros passam, então, a carregar uma reflexão sobre soberania. O sabiá deixa a esfera do festival e os gaviões entram como imagem das forças interessadas nas riquezas nacionais. A metáfora faz o percurso completo e devolve o leitor ao problema que abriu o artigo.
Há muita técnica sob essa aparente leveza. Malta aproxima fatos distantes, percebe uma relação linguística e transforma a descoberta numa estrutura narrativa. O humor facilita a leitura sem retirar peso da discussão econômica. Sua ironia trabalha dentro do argumento, uma qualidade particularmente difícil porque a graça, em mãos menos seguras, costuma devorar o assunto que deveria servir.
Essa escrita merece atenção nas faculdades de jornalismo. Ela permite examinar ritmo, estrutura, economia de adjetivos, passagem do fato à interpretação e uso de repertório sem exibicionismo. Também permite uma pergunta mais exigente: até que ponto um jornalista politicamente comprometido consegue preservar liberdade suficiente para compreender o acontecimento antes de submetê-lo às próprias convicções?
O preço da independência
Octavio Malta jamais reuniu suas memórias num livro. Dácio oferece uma explicação plausível: o pai era reservado sobre aspectos da militância política, conhecia histórias envolvendo companheiros ainda vivos e preferia preservar determinadas pessoas. Parte de sua autobiografia acabou espalhada pelos perfis que escreveu sobre Siqueira Campos, João Alberto, Osório Borba, Edmundo Bittencourt, Getúlio Vargas, Gilberto Amado e Samuel Wainer.
Seu livro Os Tenentes na Revolução Brasileira, publicado em 1969, amplia essa memória indireta. Malta conheceu protagonistas e ambientes ligados ao movimento que marcou a política nacional nas décadas de 1920 e 1930, proximidade que lhe permitiu registrar gestos, episódios e tonalidades dificilmente preservados em documentos burocráticos.
A venda de Última Hora, no início dos anos 1970, fechou seu principal espaço na grande imprensa. Malta já havia construído uma carreira suficiente para várias vidas profissionais e poderia ter se recolhido. Continuou escrevendo em publicações menores e acompanhando assuntos que iam da política à reforma agrária, da liberdade de expressão às transformações tecnológicas.
Em “A liberdade e o cérebro eletrônico”, imaginou jornais produzidos por máquinas e brincou com a possibilidade de que elas livrassem jornalistas da prisão. Lida hoje, a provocação conduz a uma questão que atravessou intacta as décadas: instrumentos mudam, velocidades aumentam, mas alguém continua responsável por verificar, selecionar, contextualizar e responder pelo que chega ao público.
Sua independência política aparece de maneira ainda mais concreta numa lembrança de Paulo Francis. Em 1960, enquanto grande parte da esquerda apoiava a candidatura do marechal Henrique Lott, Malta começou a elogiar discursos de Jânio Quadros no Nordeste. Francis se irritou, mas guardou o episódio porque o companheiro conseguia reconhecer algum mérito fora das fronteiras políticas do próprio grupo.
Essa forma de autonomia merece atenção. O jornalista enfrenta pressões de governos, empresários, anunciantes e partidos, mas enfrenta também as expectativas dos amigos e dos que compartilham suas convicções. Malta viveu dentro de organizações políticas e redações fortemente marcadas por posições ideológicas; ainda assim, há momentos em que sua discordância começa justamente entre os mais próximos.
Com Samuel Wainer, a independência conviveu com uma amizade rara. Paulo Francis recordou que Malta cuidou do amigo durante uma tuberculose, num período de profundo desalento. Augusto Nunes, ao trabalhar sobre as dezenas de fitas gravadas para as memórias de Wainer, observou que Samuel atingia quase todos com sua ferocidade, inclusive a si próprio; Octavio atravessava o depoimento preservado. Décadas de convivência explicam o peso desse respeito.
A História morava perto
Octavio Malta entrou em minha vida muito antes desta procura pelos jornais antigos. Em 1979, trabalhava na agência da Rua do Rosário do Banco do Nordeste, no centro do Rio, onde conheci Márcio Malta, então com 28 anos. Dali nasceu uma amizade que atravessou os anos e permanece intacta. Márcio era um dos três filhos do velho Malta: Dácio, o mais velho, já um respeitado jornalista, e os gêmeos Márcio e Sérgio. Passei a frequentar a casa da família, na Rua Senador Vergueiro, 114, apartamento 804, no Flamengo. Hoje, depois de percorrer tantos arquivos em busca do jornalista, há algo especialmente terno em recordar que seu último endereço me era familiar. A História que agora procuro reconstruir em páginas e hemerotecas morava, naquele tempo, na casa de um amigo.
Não sei se caráter também viaja pelo DNA. Creio que não, mas às vezes desconfio. Durante todos esses anos de amizade com Márcio Malta, fui reconhecendo nele algumas qualidades que os depoimentos sobre Octavio atribuem insistentemente ao pai: ética acima das conveniências, lealdade aos amigos, inteligência aguda e um senso de humor peculiar, daqueles que nascem primeiro da observação e só depois encontram a frase certa. Há heranças que não aparecem nas fotografias de família nem dependem de semelhança física. Manifestam-se na maneira de tratar as pessoas, de atravessar dificuldades e de escolher o que realmente merece importância.
Márcio sempre teve também uma característica que admiro especialmente: uma quase resistência a chamar atenção para si. Nunca precisou ocupar o centro da sala para que sua presença fosse percebida. Ao longo de quase meio século, vi essa discrição atravessar alegrias, dificuldades e mudanças sem convertê-lo em personagem de si mesmo. Há uma frase que combina com sua maneira de estar no mundo: a vida é curta demais para ser pequena. Márcio parece ter entendido isso cedo e, sem transformá-la em lema, fez dela uma maneira de viver.
Guardo com nitidez a terça-feira, 10 de abril de 1984. A Avenida Rio Branco recebia do alto dos edifícios uma chuva de papel picado e, às seis da tarde, saímos do banco e seguimos com a multidão até a Candelária. Mais de um milhão de pessoas ocuparam o centro do Rio pelas eleições diretas, com Chico Buarque no palanque, artistas, músicos e algumas das principais lideranças políticas do país. Na memória daquela caminhada permanece também Pelas tabelas, lançada por Chico naquele ano, enquanto gente chegava de toda parte e o amarelo se espalhava pelas ruas. Quinze dias depois, em 25 de abril, Octavio Malta morreria aos 82 anos. Na véspera, ainda fora à janela daquele apartamento da Senador Vergueiro bater panela pelas Diretas.
Naquele mesmo 25 de abril, a Câmara dos Deputados votou a Emenda Dante de Oliveira. A proposta recebeu 298 votos favoráveis, 65 contrários e três abstenções, mas precisava alcançar 320. Faltaram 22 votos para que o país recuperasse imediatamente o direito de escolher o presidente pelo voto direto. A coincidência entre a morte de Malta e a derrota parlamentar de uma campanha pela qual havia se mobilizado produz uma imagem poderosa sem necessidade de adorno.
Rubem Braga foi ao enterro acompanhado de Otto Lara Resende e posteriormente escreveu sobre a cena no Cemitério São João Batista. Os dois permaneceram à sombra de uma árvore, evitando o forte calor e a longa escadaria. Os mais velhos seguiram até a sepultura. Entre eles estavam Barbosa Lima Sobrinho e Luís Carlos Prestes, carregando no corpo quase um século de batalhas brasileiras.
Depois do enterro, Barbosa Lima Sobrinho e Prestes seguiram para a Cinelândia, onde a mobilização pelas eleições diretas continuava. Dácio imagina o pai satisfeito com a escolha dos amigos. Também consigo imaginá-lo assim. A cena combina profundamente com sua biografia: a despedida pessoal terminava e a ação pública prosseguia, como tantas vezes ocorrera ao longo de sua vida.
A medida de uma vida
O livro organizado por Dácio faz mais que reunir lembranças familiares. Ao aproximar artigos, fotografias e testemunhos, devolve volume humano a um personagem que a leitura fragmentada dos arquivos tende a dispersar. Depois de tantas páginas, fica também a impressão de que Octavio Malta pede outra forma de permanência pública, capaz de alcançar gente que jamais abrirá uma hemeroteca ou um velho exemplar de Última Hora.
Vivemos numa época profundamente audiovisual, e a leitura já divide com a imagem e o som a tarefa de preservar a memória de um país. O cinema brasileiro, em vigorosa retomada, descobriu com especial entusiasmo as cinebiografias musicais, algumas excelentes, outras claramente atraídas pela segurança mercadológica de personagens já consagrados por multidões. Cantores, compositores e ídolos populares chegam às telas com rapidez, enquanto o próprio poder público, por meio de municípios e emendas parlamentares, também passou a financiar shows de cachês elevados pelo Brasil, escolha que merece ser examinada diante de tantas prioridades locais.
Nada tenho contra filmes sobre artistas populares, inclusive os grandes nomes do sertanejo; tenho contra uma memória audiovisual estreita demais para a riqueza intelectual e política deste país. Onde estão as grandes produções sobre homens e mulheres que ajudaram a construir nosso sentimento de brasilidade, nossa cultura, nossa educação, nossa compreensão do território e nosso jornalismo de combate? Já passou da hora de Octavio Malta, Darcy Ribeiro, Milton Santos e Paulo Freire receberem cinebiografias de grande produção, pesquisa rigorosa, roteiro consistente e contexto histórico capaz de iluminar suas épocas. Alguns já chegaram ao cinema em documentários valiosos, muitas vezes apoiados em entrevistas, arquivos e depoimentos; ainda aguardamos obras capazes de apresentá-los como personagens dramáticos completos, inseridos nos conflitos de seu tempo, com a dimensão humana, intelectual e histórica que suas vidas oferecem. No caso de Octavio Malta, material sobra. Falta alguém perceber o filme extraordinário que está à espera.
Uma cinebiografia digna de Malta teria, entre suas cenas indispensáveis, a conversa registrada por Paulo Francis em 1969. Ao encontrá-lo no Rio, Francis perguntou o que dizia da situação brasileira. Malta respondeu em três palavras que resumiam uma recusa construída ao longo da vida. A frase só ganha seu verdadeiro peso porque atrás dela estavam prisão, clandestinidade, militância, conflitos políticos e décadas de redação.
Malta viveu do salário de jornalista, cuidou da família, polemizou, tomou partido, enfrentou adversários e contrariou companheiros. Sessenta anos de imprensa também carregam erros, excessos e escolhas discutíveis. Nada disso enfraquece a trajetória; ao contrário, impede que ela seja transformada numa biografia de louvor e torna mais severa a medida pela qual pode ser julgada.
A medida alta anunciada no título resiste ao exame porque não depende de uma biografia sem falhas, e sim de uma obra capaz de suportar leitura, discordância e tempo. Octavio Malta continua oferecendo matéria abundante para quem deseja compreender o jornalismo brasileiro por dentro e perceber como um grande profissional atravessa a História sem se tornar maior que aquilo sobre o que escreve.
Mais de meio século depois daquela conversa com Paulo Francis, as três palavras continuam impondo uma pergunta severa a qualquer vida dedicada à imprensa. Depois de décadas perto do poder, do dinheiro, das pressões políticas e das tentações próprias do ofício, quantos jornalistas poderiam olhar para trás e dizer, com a mesma sustentação biográfica: “Não me vendi”?
https://www.brasil247.com/blog/octavio-malta-a-medida-alta-do-jornalismo-brasileiro/
