Os coveiros invisíveis da internet
Por trás da tela limpa que rolamos todos os dias, trabalhadores anônimos absorvem o horror do mundo, e a empresa que lucra com isso ainda resiste a pagar a conta
Washington Araújo - 16/10/2026


A psicanálise me ensinou que o trauma raramente grita. Ele se instala em silêncio, mora nos pesadelos, nas mãos que tremem sem motivo aparente, na incapacidade de sentir alegria diante do que antes alegrava. Freud chamou de compulsão à repetição esse retorno insistente do que não pôde ser elaborado. Penso nisso aqui em Brasília desde que soube da história de uma mulher que passou três anos em Barcelona limpando a internet para que eu, você e quatro bilhões de pessoas pudéssemos rolar a tela em paz.
Ela foi moderadora de conteúdo da Meta entre 2022 e 2025, contratada por uma terceirizada instalada na Torre Glòries, um dos cartões-postais da capital catalã. Passava o expediente diante de violência extrema, abusos, mortes, crueldades que o algoritmo não sabia julgar sozinho. Segundo a família, desenvolveu estresse pós-traumático. Foi dispensada com uma indenização de 2 mil euros. Morreu por suicídio em Lyon, na França. Os familiares agora cobram da Meta entre 200 mil e 500 mil euros. Nenhuma quantia devolve uma vida; toda quantia, porém, revela quanto uma corporação acha que ela valia.
Adoecimento psíquico
Ela fazia parte de uma legião. Mais de 2 mil pessoas perderam o emprego quando a Meta rompeu o contrato com a subcontratada, em 2025. Naquele escritório, um em cada quatro funcionários chegou a ser afastado por adoecimento psíquico. Mais de 700 ex-moderadores cobram reparação na Justiça espanhola. Repito o número devagar, para que ele pese: um em cada quatro. Nenhuma mina de carvão funcionaria hoje com essa taxa sem que a fiscalização lacrasse a entrada.
Os moderadores são os mineiros da era digital. Descem todos os dias às galerias mais escuras da internet e voltam com uma poeira invisível nos pulmões da alma. A diferença está no que extraem. O carvão aquecia casas. Eles extraem a ilusão de que a plataforma é um lugar seguro, e essa ilusão é o ativo mais precioso do negócio, porque sem ela os anunciantes fugiriam.
A vida alheia
Toda essa engrenagem nasceu de um impulso antiquíssimo. O antropólogo Robin Dunbar sustenta que a conversa sobre a vida alheia, ao redor das fogueiras, ajudou a forjar a linguagem humana. Mark Zuckerberg intuiu que esse impulso podia ser medido, ordenado e vendido. O jovem de camiseta cinza prometia um mundo mais aberto e conectado. Entregou um mundo mais vigiado e mais dividido. A socióloga Shoshana Zuboff deu nome ao modelo: capitalismo de vigilância, sistema em que nossa experiência íntima vira matéria-prima gratuita para prever e moldar comportamentos.
Com o News Feed, o algoritmo passou a escolher o que vemos primeiro, e escolheu o que nos prende: indignação, medo, inveja. Vieram o Instagram, em 2012, e o WhatsApp, em 2014. Hoje metade da humanidade passa pelos corredores de uma única empresa. Em 2018, a Cambridge Analytica mostrou como esses corredores podiam conduzir eleitores. Em 2021, a engenheira Frances Haugen revelou documentos internos segundo os quais a própria empresa sabia que o Instagram piorava a relação de muitas adolescentes com o próprio corpo. Sabia, e seguiu em frente.
As desculpas de Zuckerberg
Em 2024, diante do Senado americano, Zuckerberg precisou se virar para pais que seguravam fotos de filhos mortos ou adoecidos e pedir desculpas. Um ano depois, encerrava a verificação independente de fatos nos Estados Unidos e sorria na posse de Donald Trump. Em 2026, fechou com 47 estados um acordo de 18 bilhões de dólares para encerrar as acusações de que desenhou Facebook e Instagram para viciar crianças. Rolagem infinita, notificações incessantes, a roleta das curtidas. Nada disso nasceu por acaso. Foi engenharia, calculada e testada.
Junte as duas pontas desta história e o desenho fica nítido. Numa ponta, adolescentes presos a telas projetadas para não soltá-los. Na outra, trabalhadores anônimos, no Quênia, nas Filipinas, em Barcelona, no Brasil, absorvendo o veneno que essas mesmas telas produzem. A empresa lucra nas duas pontas e terceiriza o sofrimento em ambas. Quando a conta chega, paga em suaves parcelas ao longo de uma década. Em nenhum elo dessa cadeia aparece a palavra cuidado.
Escrevo isto também como usuário, e a constatação me envergonha. Cada vez que rolo a tela e encontro receitas, gatinhos e fotos de viagem, alguém, em algum lugar, viu antes de mim aquilo que eu jamais suportaria ver. Minha tranquilidade digital tem custo humano. Foi comprada com as noites mal dormidas de pessoas cujo nome nunca saberei.
Atividade de risco psicológico
Cobro, como jornalista e como cidadão, o mínimo. Que a moderação de conteúdo seja reconhecida como atividade de risco psicológico, com limite de jornada, acompanhamento clínico permanente, indenizações à altura do dano e responsabilidade direta da plataforma, sem o biombo das terceirizadas. Toda máquina tem dono, e todo dono responde pelo que sua máquina faz, inclusive com quem a alimenta nos bastidores. Quem exige produtividade de quem filtra o horror precisa responder por cada pessoa que o horror destrói.
A Meta democratizou a palavra ou monetizou a solidão? A resposta talvez esteja escrita no silêncio de uma família em Lyon.
https://revistaforum.com.br/opiniao/os-coveiros-invisiveis-da-internet/
