Os turistas mudaram de destino

Ameaça substituiu convite, e o turista foi embora dos Estados Unidos. O turismo canadense aos Estados Unidos caiu 25% neste ano, e em março quase 900 mil canadenses a menos cruzaram a fronteira em relação a 2024

Washington Araújo - 03/08/2026

Lembro da fila da embaixada americana em Brasília, num daqueles fins de manhã em que o sol já cozinha o asfalto antes do meio-dia. Vi ali, ao longo dos anos, gente ensaiando respostas no caminho, gente aliviada ao sair com o carimbo aprovado, gente frustrada ao ouvir que precisaria voltar outro dia. Era processo burocrático como outro qualquer, com a diferença de que, do outro lado, havia sempre a expectativa de ser bem recebido ao chegar. Essa expectativa foi destruída em 2025, por decisão de governo, não por acidente do destino. Os números do turismo internacional apenas confirmam, um a um, o que os relatos de fronteira já denunciavam havia meses.

O turismo internacional para os Estados Unidos caiu 5,5% no ano — quase um em cada vinte visitantes que costumavam ir para lá simplesmente desistiu —, a pior queda em quase duas décadas, superada apenas pela pandemia de 2020. E não houve vírus algum em 2025. Houve política deliberada, hostilidade anunciada em rede social, fronteira transformada em armadilha. Traduzido em gente, o número fica ainda mais brutal: quatro milhões de estrangeiros deixaram de visitar o país em relação a 2024, o equivalente a somar as populações inteiras de Fortaleza e Recife e expulsar todo mundo, de uma só vez, para outro destino do planeta. Escrevo este texto sem nenhuma vontade de suavizar a acusação: atrás de cada estatística existe uma família que decidiu, à mesa de jantar, que aquele país deixou de merecer confiança.

Por que desisti, e por que tantos desistiram comigo

Tenho amigos que cancelaram viagens de trabalho e de lazer aos Estados Unidos neste último ano, e nenhum deles o fez por falta de dinheiro. Fizeram-no por medo, palavra que uso sem eufemismo, porque é a palavra correta. Essa é a pergunta que qualquer pesquisa séria de opinião hoje responde sem rodeio: por que tanta gente deixou de querer visitar um país que, até pouco tempo, era destino de primeira escolha? Um levantamento do site especializado Skift constatou que quase metade dos viajantes consultados — 46% — disse estar menos disposta a visitar os Estados Unidos em 2025 por causa das políticas do presidente Donald Trump. Não é opinião marginal. É quase metade do planeta viajante virando as costas para um único governante.

Penso na história de Rebecca Burke, mochileira galesa que fazia a travessia da América do Norte trocando pequenas tarefas domésticas por hospedagem, arranjo comum entre jovens viajantes havia gerações, e que terminou detida por três semanas, levada ao avião de volta algemada, segundo relatou o próprio pai, como se transportassem uma criminosa perigosa. Penso também em Karen Newton, britânica que viajava com documentação legal e passou seis semanas presa por ser considerada culpada pelo visto vencido do marido — punida por vínculo afetivo, não por infração própria. São abusos, e chamo-os pelo nome certo. Relatos como esses, multiplicados aos milhares em plataformas como Threads, moldam a reputação de um país com mais eficácia do que qualquer campanha publicitária consegue desfazer. O Reino Unido e a Alemanha atualizaram seus alertas oficiais de viagem, advertindo os próprios cidadãos de que visto ou autorização eletrônica de entrada não garantem, sozinhos, a travessia da fronteira americana. Quando dois aliados históricos sentem necessidade de avisar seus cidadãos sobre o risco de entrar nos Estados Unidos, algo se rompeu que nenhum comunicado de embaixada consertará depressa.

A conta que aparece no quarto de hotel vazio

Sinto, ao reunir esses relatos, indignação que não nasce de retórica de colunista, nasce da memória de quem já atravessou dezenas de fronteiras e sabe distinguir rigor legítimo de hostilidade deliberada. O gasto de visitantes estrangeiros nos Estados Unidos somou cerca de 176 bilhões de dólares em 2025, quase 5% a menos que no ano anterior — cerca de 8 bilhões de dólares que deixaram de circular pela economia americana e foram gastos, com prazer e sem medo, em outro país. A consultoria Tourism Economics calcula que o estrago real, somado ao crescimento que se projetava antes da virada política, pode chegar à casa dos 25 bilhões de dólares. Enquanto isso, o resto do planeta viajou como há muito não viajava: o turismo internacional somou 80 milhões de deslocamentos a mais no mundo em 2025, justamente no ano em que os visitantes aos Estados Unidos recuaram. A causa não foi conjuntura global. Foi escolha de governo, tomada em Washington, paga por trabalhador em Miami e no Maine.

Essa escolha aparece, sobretudo, no quarto de hotel que ninguém ocupou. No Maine, estado que historicamente vive do turista canadense, mais de quatro em cada dez quartos de hotel ficaram vazios ao longo do ano — situação pior que a do ano anterior —, e atrás dessa diferença estão camareira sem turno de trabalho, restaurante de beira de estrada sem reserva, motorista de van de aeroporto sem corrida marcada. Ninguém no alto escalão do governo americano paga essa conta. Quem paga é gente que nunca leu um discurso presidencial na íntegra e que só percebe, no fim do mês, que o salário veio menor porque um vizinho decidiu, com toda razão, não atravessar mais a fronteira.

O vizinho que deixou de atravessar a rua rindo

Nenhum caso ilustra essa ruptura com mais eloquência do que o canadense, talvez porque nenhuma outra fronteira do mundo tenha sido, por tanto tempo, motivo de humor afetuoso entre dois povos. Pierre Trudeau, primeiro-ministro do Canadá nos anos 1970, resumiu a vizinhança numa imagem que atravessou gerações: viver ao lado dos Estados Unidos, dizia ele, é como dormir ao lado de um elefante — sente-se cada contração e cada grunhido do vizinho gigante, por mais gentil que o animal pareça ser. Décadas depois, a cultura pop transformou a mesma proximidade em piada mais leve, a de que o Canadá seria apenas “o chapéu da América”, acessório fiel colado à cabeça do vizinho maior. As duas piadas nasceram do afeto. O afeto foi tratado com desprezo, e desprezo tem preço.

Um em cada quatro canadenses que costumavam visitar os Estados Unidos deixou de fazê-lo neste ano, e mais de um terço dos que cruzavam de carro pela fronteira terrestre simplesmente parou de atravessar. Só em março, quase 900 mil canadenses a menos entraram no país vizinho em relação ao mesmo mês do ano anterior. Não houve decreto fechando passagem alguma, e por isso o estrago é ainda mais grave: bastou a palavra. Bastaram a ameaça repetida de anexar o Canadá como estado americano e a tarifa comercial usada como punição para que um povo inteiro decidisse, sem que nenhum burocrata assinasse papel algum, que a piada do elefante havia deixado de ser engraçada. O canadense que cancelou a viagem de inverno à Flórida não fez gesto de guerra. Fez gesto de dignidade, e dignidade ferida não se compra de volta com desconto de baixa temporada.

O que fica quando a hospitalidade se retira

A Copa do Mundo de 2026 deveria ter sido a prova cabal de que os Estados Unidos continuavam capazes de atrair multidões. Em parte, foi: mais de 6,8 milhões de pessoas passaram pelos estádios do torneio, número próximo do projetado. Mas o componente internacional dessa cifra fracassou de um jeito que a própria indústria do turismo não teve como esconder. A Tourism Economics havia estimado mais de 1,2 milhão de visitantes internacionais somente para as partidas em solo americano; a previsão precisou ser rebaixada depois que os Estados Unidos se tornaram o único grande país do mundo a registrar queda de turistas internacionais justamente em ano de Copa — vergonha que nenhum outro anfitrião de Mundial já colecionou. Em Seattle, cidade-sede, quase dois em cada dez visitantes internacionais esperados para os jogos simplesmente não vieram, retração puxada sobretudo pela ausência de torcedores canadenses. Uma pesquisa da associação americana de hotéis constatou que a maioria dos hotéis nas onze cidades-sede recebeu reservas abaixo do previsto — em Kansas City, quase nove em cada dez hotéis venderam menos quartos do que haviam planejado vender, apesar de sediar partidas de alto nível.

Enquanto os Estados Unidos viam suas próprias expectativas de bilheteria murchar, México e Canadá colhiam exatamente o efeito inverso, e é justo que colhessem. Analistas do setor registraram reservas mais fortes nas partidas disputadas em solo mexicano e canadense, atribuídas ao custo mais baixo de hospedagem e passagem, mas também à ausência do mesmo clima de suspeita que cercava a travessia da fronteira americana. Um levantamento do Bank of Montreal mostrou que os Estados Unidos, sediando três em cada quatro partidas do torneio, ficaram com quatro em cada cinco dólares gastos pelos torcedores — proporção que parece generosa à primeira vista, mas que, feita a conta por partida, expõe o quanto do gasto de cada torcedor se concentrou fora do território americano, em cidades mexicanas e canadenses que sediaram fração bem menor dos jogos e ainda assim atraíram torcedor disposto a gastar sem medo.

Toda nação com pretensão de protagonismo global aposta em soft power: cinema, universidade, moda, paisagem. Os Estados Unidos possuem quantidade rara desses ativos, e nenhum deles compensou fila de imigração hostil, detenção arbitrária relatada em tempo real nas redes, ou vizinho chamado repetidamente de futuro estado americano em discurso oficial. O órgão federal de turismo projeta que o número de visitantes internacionais só deve voltar ao patamar anterior à pandemia em 2029. Quatro anos de espera por uma confiança que se construiu ao longo de gerações inteiras e foi despedaçada em poucos meses de retórica hostil, por decisão de um único governo, sem que nenhuma fatalidade externa obrigasse a esse resultado.

Escrevo, ao fechar este texto, sem intenção de amenizar o veredicto: reputação de país não se repõe com evento esportivo nem com campanha publicitária de verão. Repõe-se devolvendo à porta de entrada aquilo que foi arrancado dela à força — a certeza, para quem chega de longe, de que será recebido como hóspede, e não interrogado como suspeito.

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