Oscar Schmidt e o raro ofício de não se trair
Mais de 49 mil pontos não explicam o essencial: Oscar, obrigado, além de se vestir de grandeza, mostrou o caráter ao permanecer fiel a si mesmo
Washington Araújo - 18/04/2026


O Brasil amanheceu atravessado por uma emoção difícil de conter. Na televisão, a voz de Tadeu Schmidt vacilava diante das câmeras do BBB 26, tentando sustentar o profissionalismo enquanto a perda lhe escapava pelos olhos. Ali, ao vivo, o país compreendeu que não se tratava apenas de um luto familiar: era o adeus a Oscar Schmidt, morto aos 68 anos em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo, após ser levado ao Hospital Municipal Santa Ana já em parada cardiorrespiratória. A notícia não chegou fria; veio carregada de afeto, memória e uma espécie de reverência coletiva.
Nascido em 16 de fevereiro de 1958, em Natal, Oscar construiu sua grandeza longe das facilidades. Seu percurso foi erguido na insistência diária, na repetição quase obstinada do arremesso até que o gesto se tornasse extensão do próprio corpo.
Dessa sua disciplina emergiu um feito que ainda hoje desafia qualquer escala razoável: mais de 49 mil pontos ao longo da carreira, o maior pontuador da história do basquete mundial.
A formação profissional começou no Esporte Clube Sírio, em São Paulo, onde rapidamente deixou de ser promessa para se tornar referência. A carreira seguiu pela Europa, com passagens marcantes pelo JuveCaserta Basket e pelo Real Madrid Baloncesto. Ainda assim, era na Seleção Brasileira de Basquete que sua identidade se revelava com mais intensidade.
Quando a NBA se apresentou como possibilidade concreta, Oscar tomou uma decisão que, vista hoje, exige compreensão histórica: recusou. À época, jogar na liga norte-americana significava abrir mão dos Jogos Olímpicos. Ele escolheu o Brasil. Disputou cinco edições, de 1980 a 1996, e encarou o lendário Dream Team nos Jogos Olímpicos de Barcelona 1992, registrando 24 pontos contra um conjunto que reunia alguns dos maiores nomes da história do esporte.
Há noites que não se apagam. Em 1987, nos Jogos Pan-Americanos de 1987, em Indianápolis, Oscar conduziu o Brasil a uma vitória sobre os Estados Unidos dentro de sua própria casa. O ginásio, tomado por expectativa, assistiu ao deslocamento de uma certeza. Aquele resultado permanece como uma das páginas mais marcantes do esporte brasileiro.
A fala de Tadeu, ainda ecoando, acrescenta uma camada que os números não alcançam. “Nunca deixou os companheiros na mão, nem com a mão quebrada". A frase, dita sob esforço visível, ilumina o traço essencial de Oscar: presença. Estar inteiro, mesmo quando o corpo sugeria recuo. Sustentar o coletivo acima de qualquer cálculo pessoal.
Respirar inaugura um relógio invisível: desde o primeiro choro, cada minuto aproxima o fim. Saber disso não consola, mas exige presença inteira, escolhas firmes e coragem de gastar a própria vida com sentido.
Escrevo de um chão que também é dele. Natal não é apenas um ponto no mapa — é uma cadência, um modo de resistir ao tempo com calor e teimosia.
E, ao pensar em Oscar, não consigo vê-lo apenas como atleta: ele se desloca para além da quadra, como se cada arremesso carregasse algo de música, de imagem, de palavra ainda por ser dita.
Se Oscar fosse cantor, teria a técnica e a emoção de Elis Regina; se fosse fotógrafo, alcançaria a sensibilidade humana de Sebastião Salgado; e, se fosse escritor, pisaria o território indomado da linguagem como Guimarães Rosa.
Mas foi maior porque não precisou ser nenhum deles. Foi inteiro sendo apenas ele — e isso, em qualquer tempo, é raridade. Há uma espécie de reverência que não se aprende, apenas se sente, e hoje ela se instala com peso manso, como quem entende que certas presenças não se repetem.
Morreu em Santana de Parnaíba, deixa esposa e dois filhos e um legado que não se limita ao basquete. Deixa uma ideia de disciplina que atravessa gerações, um exemplo de fidelidade ao próprio caminho, uma memória que não se dissolve facilmente — e deixa também um silêncio que não é ausência vazia, mas campo aberto para que sua grandeza continue ecoando. Oscar Schmidt, descanse em paz, amigo.
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