Peritos da ONU desmontam a versão oficial de Teerã

Sentenças que somam mais de um século expõem o preço de recusar-se a esconder a própria fé

Washington Araújo - 10/08/2026

Foi em Genebra, no dia 29 de julho, que treze relatores especiais e peritos independentes das Nações Unidas assinaram um comunicado que rompe qualquer ambiguidade sobre o que acontece com a comunidade bahá’í no Irã: prisões arbitrárias, desaparecimentos forçados, tortura e um padrão de repressão que se intensifica desde a revolução de 1979 e ganhou nova violência depois da recente guerra.

Entre os signatários estão Mai Sato, relatora especial da ONU sobre a situação dos direitos humanos no Irã, Nazila Ghanea, relatora especial sobre liberdade de religião ou crença, Alice Jill Edwards, relatora especial sobre tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes, além de Gabriella Citroni e Matthew Gillett, respectivamente presidentes-relatores dos Grupos de Trabalho da ONU sobre Desaparecimentos Forçados e sobre Detenção Arbitrária. Segundo o comunicado, 57 bahá’ís permanecem detidos ou presos no país, alguns deles submetidos a execuções simuladas para arrancar confissões falsas — o caso de Peyvand e Borna Naimi, mantidos em prisão preventiva sob risco declarado à saúde física e mental.

Vesagh Sanaei, porta-voz da Comunidade Internacional Bahá’í em Sydney, descreveu esse mecanismo em entrevista ao canal Iran International, principal emissora internacional em língua persa: cada crise iraniana — social, econômica, política — produz o mesmo roteiro de culpabilização.

As autoridades escolhem um alvo disponível e o expõem à fúria pública por meio de difamação organizada; os bahá’ís ocupam esse papel desde 1979, e a hostilidade ganhou fôlego renovado nos últimos meses, alimentada por acusações infundadas e pela promoção deliberada do ódio religioso. Trata-se de política de Estado deliberada, sustentada por financiamento, aparato jurídico e cobertura constitucional que atravessa o texto legal do país.

A engrenagem jurídica

Cada medida do governo iraniano contra esses cidadãos rompe compromissos internacionais assumidos pelo próprio país, a começar pelos artigos centrais da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948.

A Human Rights Watch já demonstrou, em relatórios sucessivos, que Teerã atua a partir de listas pré-definidas de alvos religiosos, método que expõe a intenção deliberada por trás de cada prisão.

O sistema judicial iraniano, que deveria funcionar como salvaguarda contra o abuso de poder, tornou-se sua principal engrenagem: a soberania religiosa inscrita na Constituição de 1979 confere às instituições jurídicas um mandato ideológico incompatível com qualquer pretensão de imparcialidade.

Nomes por trás dos números

O caso de Moein Mohammadi-Dehaj ilustra essa engrenagem em detalhe. Bahá’í de 39 anos, morador de Yazd, ele foi preso em sua própria residência em 5 de janeiro de 2026 — a terceira detenção de sua vida — e teve a sentença comunicada em 6 de agosto: dezesseis anos, sete meses e dezoito dias de prisão, decretados pela Vara 1 do Tribunal Revolucionário de Yazd e reduzidos a doze anos, seis meses e um dia de cumprimento efetivo pela regra de acúmulo de penas do artigo 134 do Código Penal Islâmico. As acusações — propaganda contra o regime, propaganda desviante por meio da promoção da fé bahá’í e atividades de mídia contra a segurança nacional — resumem o vocabulário jurídico que Teerã emprega para converter fé em crime.

Em Isfahan, dez mulheres bahá’ís foram presas em 23 de outubro de 2023 e condenadas, em outubro de 2024, a um total de noventa anos de prisão pelo Tribunal Revolucionário local, sentença confirmada em recurso pela Vara 47 em 28 de setembro de 2025. Negin Khademi, Shana Shoughifar, Yeganeh Agahi, Parastoo Hakim, Mojgan Shahrezaei, Yeganeh Rouhbakhsh e Arezoo Sobhanian, além de Neda Badakhsh, hoje com 62 anos, receberam dez anos cada; Bahareh Lotfi e Neda Emadi, cinco anos cada.

Padideh Sabeti, porta-voz em língua persa da Comunidade Internacional Bahá’í, relatou o caso também ao canal Iran International: o processo apontou como prova de propaganda desviante as aulas de inglês, arte, música e ioga, além dos passeios pela natureza que essas mulheres organizavam para crianças e adolescentes iranianos e afegãos, muitos deles órfãos ou em situação de vulnerabilidade.

Presa em Dolatabad, Neda Badakhsh convive com diabetes e outras condições de saúde graves sem acesso a tratamento médico especializado, segundo denúncias registradas em julho de 2026 — o corpo doente somando-se à liberdade confiscada, numa dupla punição que nenhuma ordem jurídica minimamente decente toleraria.

Um padrão que atravessa continentes

O Irã aperfeiçoou um repertório que já circula em outras geografias.

Em Mianmar, mais de um milhão de rohingyas seguem exilados em campos superlotados, à espera de medidas que o próprio Tribunal Internacional de Justiça ordenou e que o governo birmanês ainda não cumpriu integralmente.

Na Índia, a Human Rights Watch documentou, em seu Relatório Mundial de 2026, um governo que passou a normalizar a violência contra minorias religiosas por meio de discurso de ódio e perseguição judicial seletiva — para Elaine Pearson, diretora da organização para a Ásia, o país transformou hostilidade em política pública.

No Afeganistão, o regime talibã mantém meninas afastadas da escola secundária e mulheres proibidas de circular sem acompanhante masculino, numa segregação que a própria ONU já classificou como apartheid de gênero.

Na Nicarágua, o governo de Daniel Ortega segue prendendo padres, fechando universidades católicas, confiscando bens da Igreja e cassando a nacionalidade de opositores e jornalistas, com organizações internacionais e episcopais denunciando perseguição religiosa e política sistemática no país centro-americano.

Regimes diferentes, geografias distantes, mesma gramática: escolher um grupo, atribuir-lhe a culpa coletiva por crises que não criou e transformar sua fé, sua etnia, seu gênero ou sua origem em delito administrativo.

A árvore que ainda não deu fruto

Essa é a arquitetura que também precisa ser reexaminada: o sistema internacional de direitos humanos funciona, em boa medida, como uma árvore.

O tronco são os tratados e declarações que os Estados assinam; os galhos, os mecanismos — relatores, grupos de trabalho, comissões de inquérito; as folhas, os relatórios e comunicados que se multiplicam a cada ano; a chuva, o financiamento diplomático; o sol, a pressão da sociedade civil e o testemunho de vítimas e familiares.

O risco é cultivar a maior árvore possível, com mais relatores, mais resoluções, mais páginas, sem que ela produza o único fruto que importa: a libertação de quem está preso por acreditar, a proteção de quem está exilado por sobreviver, a responsabilização de quem tortura em nome do Estado.

O que une essas tragédias distintas é a mesma recusa histórica: reconhecer que a diversidade religiosa, étnica e cultural sustenta a coesão de um país, em vez de fragilizá-la. Enquanto Teerã tratar a Fé Bahá’í como crime de Estado, cada relatório assinado em Genebra, cada nome pronunciado numa entrevista, cada sentença registrada terá de cumprir o mesmo propósito: impedir que o mundo esqueça.

A memória, aqui, funciona como resistência ativa — a única fronteira que ainda separa a impunidade da justiça.

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