Por que exigimos tanto dos desfavorecidos?
Talento, inteligência e esforço influenciam o destino; ainda assim, nenhuma trajetória se explica sem as condições concretas que antecedem escolhas, oportunidades, êxitos e fracassos individuais
Washington Araújo - 06/11/2026


Fracassamos muitas vezes antes de abandonar formalmente aquilo que começamos. A desistência costuma amadurecer em silêncio, enquanto um livro permanece meses fechado sobre a mesa, um curso continua sendo frequentado sem convicção, um projeto perde força entre sucessivos adiamentos ou um instrumento musical passa de objeto de desejo a peça esquecida dentro do armário. Entre aquilo que alguém imaginou realizar e aquilo que efetivamente conseguiu construir existe uma longa história feita de disciplina, insistência, circunstâncias, mudanças de direção e renúncias.
Angela Duckworth fez carreira investigando precisamente esse território. Psicóloga da Universidade da Pensilvânia, ex-professora de matemática em escolas públicas americanas e vencedora da MacArthur Fellowship, ela procurou compreender por que pessoas com níveis semelhantes de inteligência, talento ou preparação seguem trajetórias tão diferentes ao longo dos anos. Em 2007, um estudo publicado com Christopher Peterson, Michael Matthews e Dennis Kelly colocou uma pequena palavra inglesa no centro dos debates sobre educação, desempenho profissional e psicologia: grit.
Grit, substantivo da língua inglesa escrito como palavra comum, pode ser traduzido por garra, fibra, tenacidade ou perseverança. Duckworth empregou o termo para designar a combinação de paixão e esforço sustentados por objetivos de longo prazo, especialmente quando a novidade desaparece, os resultados demoram e os fracassos começam a cobrar seu preço. A definição alcançou enorme circulação depois de Grit: The Power of Passion and Perseverance, publicado em 2016 e lançado no Brasil como Garra: o poder da paixão e da perseverança.
Ao ler Duckworth pela primeira vez, chamou-me a atenção a simplicidade quase irresistível da hipótese: talento pode abrir uma porta, mas é a permanência diante de anos difíceis que decide quanto alguém conseguirá fazer com aquilo que recebeu. A experiência profissional e humana oferece incontáveis exemplos dessa distância entre capacidade e realização. O perigo aparece quando uma ideia psicologicamente plausível atravessa depressa demais a fronteira da pesquisa e começa a explicar, sozinha, destinos que foram moldados por dezenas de fatores.
O tempo seleciona
Nossa cultura sente fascínio particular pela precocidade. A criança que lê aos quatro anos provoca admiração imediata; o adolescente que aprende rapidamente recebe o rótulo de brilhante; o jovem músico excepcional passa a ser tratado como promessa. Aquele que aprende devagar, insiste durante anos e alcança maturidade depois de sucessivos fracassos raramente desperta igual entusiasmo, embora a história da ciência, da literatura e das artes esteja repleta de trajetórias construídas dessa maneira.
Duckworth encontrou evidências de que a perseverança participa desse processo. Seu estudo de 2007 examinou adultos, universitários da Ivy League, cadetes da Academia Militar de West Point e jovens participantes do National Spelling Bee. Os resultados mostraram associação entre níveis mais altos de grit e fatores como permanência em West Point, escolaridade e avanço em determinadas competições acadêmicas.
Um número do mesmo estudo deveria acompanhar qualquer apresentação rigorosa do conceito: em média, grit explicou cerca de 4% da variação observada nos resultados de sucesso analisados. Em psicologia, quatro por cento podem sustentar uma linha legítima de investigação; transformar essa proporção em chave geral para biografias humanas exigiria ignorar renda, qualidade da educação, saúde, relações familiares, oportunidades, redes de apoio, discriminação, acaso e o lugar social de onde cada pessoa começa.
Foi justamente nesse intervalo que a indústria da motivação encontrou terreno fértil. Uma associação mensurável entre perseverança e determinados resultados passou a circular em palestras, programas escolares e treinamentos empresariais como explicação muito mais abrangente sobre vencedores e derrotados. Quando a ciência perde suas margens de incerteza ao entrar no mercado, o conceito ganha apelo e perde espessura.
Mérito sob pressão
Uma sociedade profundamente desigual encontra conveniência em teorias que concentram o foco sobre características individuais. Quanto maior o peso atribuído à disposição psicológica de cada pessoa, menor tende a ser o espaço reservado às condições concretas em que ela cresce, estuda, trabalha e compete. A linguagem do mérito torna-se especialmente poderosa quando consegue converter vantagens herdadas em aparência de realização exclusivamente pessoal.
Uma criança pode demonstrar disciplina extraordinária e frequentar uma escola sem biblioteca, laboratório ou professores suficientes. Pode acordar antes das seis horas, gastar duas horas no transporte coletivo, dividir um telefone celular com irmãos e chegar em casa sem espaço adequado para estudar. Outra criança, matriculada numa escola de excelência, contará desde cedo com livros, idiomas, computador próprio, atividades culturais, acompanhamento familiar e professores particulares; ambas ouvirão elogios à perseverança, embora tenham iniciado o percurso educacional em posições radicalmente distintas.
Tenho dificuldade em aceitar qualquer leitura do desempenho humano que retire do enquadramento aquilo que precedeu a escolha individual. Atribuir peso excessivo à força de vontade pode deslocar para crianças, adolescentes e adultos uma parcela de responsabilidade que pertence às instituições, às políticas públicas e às condições econômicas das famílias. Uma virtude pessoal perde parte de sua grandeza quando passa a servir, mesmo involuntariamente, como linguagem para naturalizar desigualdades acumuladas durante gerações.
A pesquisa posterior ajudou a estabelecer contornos mais rigorosos. A meta-análise conduzida por Marcus Credé, Michael Tynan e Peter Harms reuniu 584 efeitos de 88 amostras independentes, envolvendo 66.807 participantes, e encontrou forte sobreposição entre grit e conscienciosidade, traço psicológico estudado havia décadas e associado a disciplina, organização e responsabilidade. A perseverança do esforço também mostrou resultados mais consistentes do que a manutenção dos mesmos interesses durante longos períodos.
Persistência e obstinação
Outro aspecto costuma desaparecer das versões populares de grit: a capacidade de abandonar um objetivo pode ser tão importante quanto a capacidade de persegui-lo. Pessoas maduras precisam aprender a distinguir persistência produtiva de obstinação, fronteira raramente nítida quando estamos emocionalmente comprometidos com aquilo que desejamos alcançar. O empresário que insiste numa estratégia acumulando perdas, o pesquisador preso a uma hipótese enfraquecida pelos próprios experimentos e o profissional que entrega décadas a uma carreira esvaziada continuam perseverando; resta saber em benefício de quê.
A vida apresenta situações em que continuar exige coragem e outras em que a coragem se manifesta na mudança de rumo. Qualquer teoria sobre perseverança fica incompleta quando ignora discernimento, revisão de escolhas e capacidade de reconhecer que determinados objetivos deixaram de justificar o preço exigido. Persistir possui valor quando o tempo aprofunda uma construção; em outros casos, apenas multiplica o custo de uma decisão que os fatos já desmentiram.
A própria Duckworth estabeleceu cautelas importantes para a escala criada com o objetivo de medir grit. Em seu site, ela apresenta o instrumento como recurso de pesquisa e autorreflexão e adverte contra usos de alto impacto para julgar escolas ou tomar decisões sobre pessoas. A ressalva delimita o alcance de uma medida psicológica e, ao mesmo tempo, revela quanto instituições desejam converter comportamentos complexos em números simples.
Duckworth amplia o foco
Quase vinte anos depois dos primeiros estudos, Duckworth passou a investigar com maior intensidade aquilo que ocorre ao redor do indivíduo que persevera. Seu livro Situated, publicado em 2026, desloca parte da atenção para ambientes, pessoas, oportunidades e circunstâncias que favorecem ou restringem desempenho e desenvolvimento. A psicóloga conhecida por estudar a força necessária para permanecer numa direção passou a examinar também o terreno social onde essa força precisa operar.
Esse movimento modifica a leitura do mérito porque aproxima disposição individual e contexto. Desempenho continua relacionado a disciplina, escolhas e perseverança, enquanto professores, famílias, instituições, redes de apoio, recursos econômicos e ambientes sociais passam a ocupar o espaço que lhes cabe naquilo que uma pessoa consegue realizar. A biografia deixa de ser lida como produto exclusivo de qualidades interiores e recupera sua relação com a época, o lugar e as oportunidades concretas.
A ampliação do foco corrige uma insuficiência importante num tempo fascinado por histórias de superação individual. Durante décadas, parte da cultura contemporânea difundiu a figura do sujeito capaz de vencer qualquer obstáculo pela combinação de esforço, determinação e confiança em si mesmo. As exceções extraordinárias costumam render livros e filmes; os milhões que trabalharam duramente e permaneceram presos a estruturas estreitas quase nunca entram na narrativa.
A maratona real
Duckworth utiliza a maratona como metáfora para explicar grit: grandes objetivos exigem resistência durante muito tempo. A imagem torna-se mais precisa quando observamos também as condições de largada, porque a vida distribui preparação, alimentação, saúde, educação, tempo, apoio familiar e redes profissionais de maneira profundamente desigual. Alguns começam o percurso com recursos acumulados por gerações; outros entram na mesma competição carregando responsabilidades precoces, escolas frágeis, jornadas de trabalho, violência e pobreza.
O cronômetro social registra quem chegou primeiro e raramente informa o que aconteceu antes da largada. Sempre me interessou essa parte menos visível das trajetórias humanas, porque a biografia dos vencedores ocupa páginas de revistas, livros e documentários, enquanto milhões de histórias interrompidas permanecem sem registro. Entre elas existem desistências provocadas por decisões equivocadas e falta de disciplina, assim como capacidades desperdiçadas porque as condições elementares para seu desenvolvimento jamais foram oferecidas.
Ensinar crianças e jovens a lidar com frustrações, terminar tarefas, desenvolver disciplina e perseguir objetivos duradouros continua sendo responsabilidade central da educação. Essa formação precisa caminhar ao lado de escolas de qualidade, bibliotecas, alimentação adequada, professores preparados, acesso à cultura, proteção social e oportunidades concretas de desenvolvimento. Cobrar perseverança sem examinar a estrutura que distribui possibilidades converte uma qualidade humana valiosa em argumento conveniente para explicar resultados socialmente previsíveis.
Depois de quase duas décadas de pesquisas, o percurso intelectual de Angela Duckworth permite uma leitura mais complexa daquela que se difundiu no primeiro entusiasmo em torno de grit. A perseverança participa das grandes realizações humanas, mas opera dentro de circunstâncias que podem fortalecê-la, limitá-la ou esvaziá-la, e exige inteligência suficiente para reconhecer quando continuar constrói futuro e quando apenas prolonga um erro. Uma sociedade que cobra garra de seus jovens precisa submeter a si própria ao mesmo rigor e responder pela qualidade da pista que coloca diante deles.
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