Prisão de Evin tenta esmagar memória, linguagem e liberdade
Homenageadas pela PEN America, Golrokh Iraee e Mahvash Sabet simbolizam duas faces da repressão iraniana contra escritores, consciência religiosa e liberdade humana
Washington Araújo - 18/05/2025


Na noite de 14 de maio de 2026, em Nova York, o silêncio ocupou o centro do salão antes mesmo dos discursos começarem. Durante o tradicional gala literária da PEN America, duas cadeiras vazias expunham uma realidade que o governo iraniano tenta esconder há décadas: escritores continuam sendo presos no país por aquilo que escrevem, pensam ou acreditam. Naquela cerimônia, a ausência de Golrokh Ebrahimi Iraee e do poeta Ali Asadollahi tornou-se mais eloquente do que qualquer pronunciamento feito no palco.
Fundada em 1922, a PEN tornou-se uma das organizações mais respeitadas do mundo na defesa da liberdade de expressão e dos escritores perseguidos. Naquela noite, a entidade concedeu o Freedom to Write Award aos dois autores iranianos encarcerados.
Mensagem da prisão
A cadeira vazia de Golrokh carregava mais força do que muitos discursos feitos no evento. Nascida em Teerã, em 1982, hoje com 44 anos, ela cumpre pena na prisão de Evin por causa de seus textos críticos e de suas posições políticas contra a repressão estatal iraniana. Em mensagem enviada da prisão, escreveu: “Nós escrevemos para resistir à eliminação física dos seres humanos, ao apagamento do pensamento e à supressão da crença. Escrevemos mesmo quando nossa liberdade está acorrentada.”
O texto ultrapassava a política iraniana. Falava do medo histórico que regimes autoritários sentem diante da palavra livre. Governos podem controlar ruas, tribunais e fronteiras. Têm mais dificuldade diante de ideias que sobrevivem ao cárcere.
Mahvash Sabet
Anos antes, outra mulher iraniana havia recebido o mesmo reconhecimento da PEN. A poeta bahá’í Mahvash Sabet, nascida em Ardestan, na província de Isfahan, em 1953, hoje com 73 anos, tornou-se símbolo internacional da perseguição religiosa no Irã. Diferentemente de Golrokh, presa por suas posições políticas e por seus textos críticos, Mahvash foi encarcerada por ser integrante da religião bahá’í, a maior minoria religiosa do país.
As trajetórias das duas parecem distintas. Uma enfrentou o Estado por suas opiniões políticas. A outra, por sua fé. Ainda assim, suas palavras dialogam de maneira impressionante. Ambas escrevem como quem tenta impedir que o medo transforme seres humanos em sombras silenciosas.
Durante o período em que esteve presa, Mahvash escreveu clandestinamente poemas que escaparam das celas iranianas e circularam pelo mundo. Num deles, registrou: “Eles pensavam que as paredes estreitas da cela poderiam aprisionar a alma humana, mas até na mais longa noite a luz encontra uma fresta para atravessar a escuridão.”
Existe algo particularmente brutal na prisão de escritores. O objetivo não é apenas retirar liberdade física. É sufocar memória, linguagem e imaginação. Um escritor encarcerado vive como alguém obrigado a assistir ao próprio pensamento sendo lentamente colocado numa sala sem janelas.
Um impacto que atravessa gerações
O sofrimento de pessoas perseguidas por suas ideias ou crenças raramente produz imagens espetaculares. Quase sempre acontece longe das câmeras, em interrogatórios intermináveis, empregos negados e universidades fechadas. Mas o impacto atravessa gerações. Jovens aprendem cedo que pensar diferente ou professar outra fé pode custar futuro, dignidade e liberdade.
As duas cadeiras vazias da PEN America revelavam muito mais do que a ausência física de duas escritoras iranianas perseguidas pelo Estado. Funcionavam como acusação moral contra um sistema que ainda transforma livros em ameaça, poemas em delito e consciência individual em caso de polícia. Em pleno século XXI, o Irã continua demonstrando ao mundo que regimes autoritários temem escritores pela mesma razão que temem espelhos: ambos devolvem imagens que o poder preferiria manter escondidas na escuridão.
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