Quando a bola deixa de ser apenas uma bola

O maior patrimônio do futebol sempre foi aproximar diferenças; quando isso se perde, todos perdem junto com o jogo

Washington Araújo - 17/06/2026

Poucas formas de propaganda contemporânea conseguem ser tão eficientes quanto aquelas que se disfarçam de emoção. Os dois videoclipes que motivam esta análise utilizam o futebol como porta de entrada para algo muito maior do que o esporte. Ambos foram concebidos para despertar sentimentos legítimos no espectador, mas também para conduzi-los em direção a narrativas políticas e identitárias cuidadosamente construídas. A bola está em cena. O objetivo real, porém, encontra-se em outro lugar.

O primeiro vídeo, produzido pela agência iraniana IRNA, apresenta uma construção visual marcada por forte carga simbólica. A narrativa alterna imagens de estádios, bandeiras, paisagens urbanas, monumentos e referências religiosas ligadas ao imaginário xiita. Em diversos momentos, a memória do martírio do Imam Hussein e a ideia de resistência coletiva surgem como elementos centrais da narrativa.

Visualmente, trata-se de uma produção cuidadosa. A fotografia privilegia cNacionalismoontrastes intensos, os enquadramentos procuram transmitir solenidade e a trilha sonora reforça o sentimento de pertencimento nacional. O futebol aparece menos como jogo e mais como linguagem para expressar valores históricos, religiosos e identitários.

O segundo vídeo adota caminho diferente. Em vez da grandiosidade simbólica, aposta na emoção imediata. Crianças entram em campo ao lado dos jogadores, rostos são filmados em close, há abraços, sorrisos e uma atmosfera de celebração. A câmera se aproxima das expressões humanas e transforma pequenos gestos em protagonistas da narrativa.

A simplicidade é a principal virtude dessa segunda produção. O ritmo é mais leve, os movimentos de câmera são mais fluidos e a montagem privilegia a espontaneidade. O resultado aproxima o espectador do aspecto afetivo do futebol e recorda por que milhões de pessoas se apaixonaram por esse esporte.

O futebol como plataforma

Uma obra audiovisual também deve ser julgada pelo que escolhe ocultar. E foi justamente nesse ponto que os dois vídeos despertaram minha atenção. Apesar das diferenças estéticas, ambos utilizam o futebol como plataforma para transmitir mensagens que pertencem a outras esferas da vida coletiva.

No primeiro caso, o esporte é associado à memória histórica e à identidade nacional. No segundo, a emoção infantil e a atmosfera festiva servem de suporte para uma narrativa igualmente vinculada ao orgulho nacional. A linguagem muda. O mecanismo permanece.

Existe aí algo que merece reflexão.

A língua que todos falam

O futebol talvez seja a mais poderosa experiência coletiva criada pela cultura contemporânea. Um esporte praticado em aldeias africanas, bairros latino-americanos, escolas asiáticas e grandes capitais europeias. Uma linguagem compreendida por pessoas que não falam a mesma língua, não professam a mesma religião e jamais se encontraram anteriormente.

Por isso mesmo, é preocupante observar a sua transformação em instrumento de mobilização política e emocional.

Existe um sequestro evidente do futebol, um dos mais nobres esportes coletivos produzidos pela civilização humana. Aquilo que nasceu para reunir pessoas diferentes acaba frequentemente convertido em território para a fabricação de antagonismos, lealdades absolutas e discursos que ultrapassam os limites do próprio jogo.

Esforço de guerra
Em determinados momentos, os dois vídeos produzem a sensação de que estamos diante de uma espécie de esforço de guerra em espaço não convencional. Uniformes, símbolos, referências históricas e imagens cuidadosamente selecionadas procuram transferir para o esporte tensões que pertencem ao universo político. A bola continua rolando. Mas ela já carrega pesos que não lhe pertencem.

Essa instrumentalização é particularmente perigosa porque costuma apresentar o nacionalismo como objetivo em si mesmo, como se a identidade nacional fosse a síntese de todas as virtudes humanas.

A história oferece inúmeras advertências em sentido contrário.

Existe um nacionalismo saudável, capaz de preservar culturas, tradições e memórias coletivas. Mas quando ele passa a se apoiar na superioridade de um povo sobre outro, já perdeu aquilo que possuía de mais valioso. A partir desse ponto, resta apenas a necessidade permanente de criar adversários e alimentar ressentimentos.

As imagens dos dois vídeos são belas. A qualidade técnica é evidente. A emoção é real. Mas emoção, por si só, nunca constituiu garantia de grandeza moral.

Ao longo do século passado, regimes autoritários de diferentes orientações ideológicas aprenderam a utilizar com enorme competência os recursos do cinema, da música e do esporte para mobilizar multidões. A beleza estética jamais imunizou uma narrativa contra seus próprios excessos.

Talvez por isso a pergunta mais importante não seja quem está produzindo essas imagens, mas para qual horizonte humano elas apontam.

Uma única espécie humana

O mundo possui bandeiras suficientes. O que continua escasso é a consciência de pertencermos a uma única espécie humana. Nenhuma nação esgota sozinha as virtudes da civilização. Nenhuma fronteira possui valor superior à dignidade humana. Nenhuma identidade coletiva deveria ser construída à custa da hostilidade em relação ao outro.

Existe algo profundamente melancólico em perceber que um jogo criado para aproximar seres humanos esteja sendo progressivamente convertido em veículo para identidades exclusivas, rivalidades permanentes e projetos de poder. O futebol não foi inventado para ensinar povos a se admirarem diante do espelho, mas para compartilhar emoções comuns. Quando até a alegria passa a ser organizada em torno de fronteiras, sobra pouco espaço para aquilo que realmente importa. O preço pela diversidade sempre foi a convivência. E parece que estamos cada vez menos dispostos a pagá-lo.

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