Quanto tempo uma cidade precisa para conquistar o mundo? (por Washington Araújo)
Grandes cidades ganharão mais de meio bilhão de habitantes até 2050, enquanto centros emergentes tentam converter crescimento acelerado em influência global duradoura
Washington Araújo - 24/08/2026


Nova York e Londres seguem nas duas primeiras posições do Global Cities Index 2025, da Oxford Economics, apesar de, nos últimos 50 anos, a Ásia e o Oriente Médio terem concentrado grande parte do crescimento da riqueza, da população e do poder econômico. O levantamento compara mil cidades por 27 indicadores distribuídos entre economia, capital humano, qualidade de vida, meio ambiente e governança. O dado provoca uma pergunta que Janan Ganesh formulou no Financial Times de 15 de agosto de 2026: qual cidade poderá ocupar, um dia, o primeiro lugar do mundo?
Ganesh ouviu durante meses pessoas que conhecem diferentes metrópoles e encontrou respostas previsíveis apenas na aparência. Singapura surgiu com frequência, apoiada em infraestrutura, eficiência e posição financeira. Dubai apareceu pela conectividade e pelo dinheiro acumulado em poucas décadas. Mumbai oferece escala e uma vida cultural que nenhuma planilha consegue ignorar.
Cada candidata, porém, revela uma lacuna quando confrontada com a combinação de instituições, diversidade, produção cultural, universidades, negócios e reputação internacional, aspectos reunidos em Londres e Nova York.
O preço do tempo
O paradoxo merece atenção porque o dinheiro consegue acelerar quase tudo numa cidade. Aeroportos, metrôs, museus, bairros inteiros e torres de sessenta andares podem surgir dentro de uma geração. Governos ricos contratam os melhores arquitetos, atraem empresas, subsidiam universidades e transformam desertos em centros financeiros.
A influência urbana obedece a um relógio mais lento: depende de instituições que atravessem governos, de sucessivas gerações de imigrantes, de conflitos assimilados, de criação artística e de uma memória compartilhada que só o tempo consegue sedimentar.
A Oxford Economics oferece números que ajudam a retirar a discussão do terreno das preferências pessoais. Em 2024, as mil maiores cidades abrigavam cerca de um terço da população mundial e produziam quase 60% do PIB global.
Em 2025, oito das dez primeiras permaneceram no grupo de elite, enquanto Nova York e Londres conservaram as duas primeiras posições pelo segundo ano consecutivo. A própria consultoria adverte que mudanças econômicas, inteligência artificial, clima, demografia e instabilidade institucional poderão alterar essa hierarquia nas próximas décadas.
Sempre me interessou a diferença entre aquilo que o urbanismo consegue projetar e aquilo que a vida acrescenta depois. Uma avenida pode nascer de uma prancheta; sua importância dependerá das pessoas que a atravessarão, das manifestações que receberá, das lojas que desaparecerão, dos encontros que produzirá e das lembranças que uma geração entregará à seguinte.
O planejamento organiza o espaço, enquanto a história decide quais lugares adquirirão significado muito depois da inauguração. É ou não é assim?
O Brasil no mapa
O Brasil oferece exemplos reveladores dessa distância entre tamanho, prestígio, memória e desempenho urbano. No Global Cities Index 2025, São Paulo aparece em 303º lugar; Brasília, em 339º; Rio de Janeiro, em 449º; e Porto Alegre, em 586º. Logo abaixo vêm Curitiba, em 588º, e Fortaleza, em 598º.
O caso mais severo é Salvador: a primeira capital do Brasil, fundada em 1549, dona de um patrimônio histórico e cultural de projeção internacional, aparece apenas na 792ª posição. As colocações precisam ser lidas dentro da metodologia do levantamento, mas formam um retrato duro: história, prestígio e identidade cultural acumulados durante séculos podem conviver com desempenho urbano contemporâneo muito abaixo de sua importância nacional.
São Paulo concentra finanças, universidades, empresas, indústria criativa e uma escala econômica sem equivalente no país, mas essa potência convive com mobilidade difícil, desigualdade territorial e problemas persistentes de qualidade urbana.
O Rio carrega uma projeção cultural internacional construída como capital do Brasil, porto, centro diplomático, editorial, musical e cinematográfico, embora sua posição atual revele o quanto o prestígio histórico pode se afastar do desempenho contemporâneo.
Brasília, inaugurada em 1960 e reconhecida pela Unesco como Patrimônio Mundial em 1987, prova o quanto um projeto nacional consegue realizar rapidamente; sessenta e seis anos depois, ainda constrói as camadas de memória que nenhuma arquitetura poderia entregar prontas.
Porto Alegre acrescenta outra advertência. A cidade formou uma tradição universitária, editorial, política e cultural que lhe concedeu influência muito superior ao peso demográfico, mas as enchentes de 2024 expuseram brutalmente a vulnerabilidade da infraestrutura e a obrigação de adaptar cidades históricas a riscos que mudaram de escala.
As quatro experiências brasileiras convergem num ponto que merece uma reflexão pausada das administrações municipal, estadual e federal: o patrimônio acumulado, a riqueza e a reputação perdem força quando os governos deixam de transformar essas vantagens em serviços, resiliência, conhecimento e qualidade cotidiana de vida.
A vantagem dos séculos
A comparação internacional também exige cautela. Ganesh reconhece no Financial Times que a própria ideia de “melhor cidade do mundo” pode carregar preferências ocidentais. Durante séculos, Europa e Estados Unidos concentraram capital, impérios, universidades, imprensa, museus e instituições que ajudaram a definir os critérios pelos quais uma cidade global passou a ser julgada.
O viés existe, mas não explica sozinho a persistência das antigas líderes. História acumulada produz vantagens que continuam operando mesmo quando o centro de gravidade econômico começa a se mover. Londres ilustra essa resistência.
A cidade inglesa reuniu durante séculos parlamento, sistema financeiro, universidades, imprensa, teatros, museus, imigração e redes comerciais que alcançaram todos os continentes. Nova York combinou Wall Street, universidades, mídia, artes, tecnologia e sucessivas ondas migratórias numa escala excepcional. Paris atravessou revoluções, impérios, reformas urbanas, guerras e movimentos artísticos que deixaram instituições e símbolos reconhecíveis muito além da França. Nenhuma dessas trajetórias foi linear, e justamente suas rupturas ajudaram a produzir densidade histórica.
O poder muda
Singapura, Dubai, Mumbai, Xangai e outras candidatas terão a seu favor uma transformação que já está em curso. Nas próximas décadas, centenas de milhões de novos moradores serão incorporados às grandes áreas urbanas, enquanto economias emergentes ampliarão sua participação na produção mundial.
A questão será observar quais cidades conseguirão converter crescimento em instituições duráveis, liberdade de criação, universidades fortes, espaços públicos vivos e confiança suficiente para atrair pessoas que desejem permanecer, criar filhos, produzir conhecimento e investir parte da própria vida naquele lugar.
Esse processo também impõe uma escolha aos governos. Uma cidade que derruba sistematicamente sua memória física, abandona serviços públicos, tolera desigualdades territoriais extremas ou trata cultura como ornamento compromete ativos que levaram gerações para existir. Obras monumentais rendem fotografias imediatas; instituições respeitadas exigem continuidade, cobrança pública, competência administrativa e décadas de investimento.
O atraso nessa construção aparece muito depois, quando outra metrópole já aprendeu a reter talentos, produzir conhecimento e transformar diversidade em força econômica.
A prova do futuro
O século XXI certamente produzirá cidades mais ricas, maiores e tecnologicamente superiores a muitas capitais históricas. Algumas poderão ultrapassar Londres e Nova York nos rankings que hoje as consagram.
A conquista mais difícil virá depois, quando o dinheiro tiver erguido tudo aquilo que pode ser comprado e restar o trabalho lento de formar pertencimento, reputação, instituições e memória.
Uma cidade começa a conquistar o mundo quando seus habitantes encontram razões para defendê-la, estrangeiros desejam compreendê-la e gerações futuras recebem algo valioso o bastante para preservar.
(*) Jornalista, psicanalista, mestre em Cinema, psicanalista e conferencista.
