Quatro anos de poder, quarenta de consequências
“Escrever o Futuro” nos lembra uma convicção cara a Shapoor Monadjem: nenhuma sociedade se torna melhor quando reserva para amanhã as perguntas que deve enfrentar hoje
Washington Araújo - 28/09/2026


No próximo domingo, 4 de outubro, o Brasil escolherá presidente, governadores, senadores e deputados. Conhecemos a data, os cargos, os candidatos. Falta uma resposta: que Brasil cada um propõe para daqui a vinte anos? É uma pergunta simples. Talvez por isso seja tão difícil ouvi-la em campanha.
Entre tantos documentos, reportagens e análises que recebo diariamente, uma proposta encaminhada pelo “Escrever o Futuro” me fez parar. Conheço a organização há muitos anos. Conheci também Shapoor Monadjem, que ajudou a colocá-la de pé e morreu há poucos anos. Era dono de uma inteligência rara, de convicções humanistas firmes e de uma percepção do mundo que jamais se acomodava às fronteiras do presente. Os escritos de Shoghi Effendi (1897-1957) marcaram profundamente sua formação intelectual. Ao ler o documento, pensei nele. A responsabilidade por quem virá depois de nós estava entre suas preocupações.
A proposta é que os candidatos assumam o compromisso de convocar um Conselho para o Futuro. Cidadãos escolhidos segundo critérios públicos teriam um ano para formular uma visão de longo prazo e indicar reformas institucionais capazes de sustentá-la. A ideia merece debate. Estamos a dias da votação e ainda discutimos muito mais quem ocupará o poder do que o país que deverá existir quando esse ocupante sair.
Shapoor Monadjem – Foto: Arquivo Pessoal/Neissan Monadjem
Cem pessoas, milhões de vidas
O desenho prevê uma lista inicial de mil convidados. Após a aplicação de critérios públicos e uma consulta nacional, seriam escolhidos cem integrantes com experiências diversas. Campanhas pessoais para entrar no Conselho ficariam proibidas. Seus membros também assumiriam o compromisso de não disputar eleições nem ocupar cargos eletivos por pelo menos dez anos depois da função. Há aí uma tentativa de impedir que o trabalho coletivo se converta em currículo eleitoral.
É uma precaução necessária, mas insuficiente. Ninguém entra na vida pública sem história, relações e interesses. Se um conselheiro tiver vínculos com empresas, partidos ou entidades que possam se beneficiar de suas recomendações, a sociedade precisará conhecê-los.
Independência não se proclama no ato da posse. Demonstra-se com critérios claros, informações abertas e fiscalização durante todo o processo.
Também será preciso responder a uma pergunta decisiva: quem escolhe os cem e com que autoridade? O Brasil não cabe na fotografia habitual das mesas de especialistas em Brasília.
Sei, pelos 21 anos em que trabalhei na Secretaria-Geral da Mesa do Senado, que uma boa formulação pode perder legitimidade quando o caminho entre a sociedade e a decisão permanece obscuro. Consulta pública precisa permitir participação real, discordância e resposta.
A reforma começa pela pergunta
Costumamos debater reformas começando pelo instrumento. Fala-se em PEC, projeto de lei, reorganização administrativa ou mudança tributária antes de explicar o resultado que se espera alcançar. O Conselho propõe começar pela finalidade: que país queremos construir e quais instituições podem ajudá-lo a chegar lá?
Amartya Sen, economista e filósofo, atribui à discussão pública um lugar central na democracia. O voto escolhe governantes; o debate permite que a sociedade examine razões, conteste prioridades e cobre consequências. Se vier a existir, o Conselho terá de expor suas ideias ao desacordo. Cem pessoas podem organizar perguntas e apresentar caminhos. Não podem pensar no lugar de mais de duzentos milhões de brasileiros.
O documento prevê o envio das conclusões ao Congresso Nacional e sua possível tradução em estratégias e políticas pelo Executivo. Esse percurso deve respeitar as competências e os procedimentos constitucionais. Uma proposta destinada a fortalecer o futuro do Brasil precisa ser rigorosa também na forma como chega às decisões do presente.
O país que já está mudando
A necessidade de pensar adiante aparece nos números. Segundo a projeção do IBGE, em 2070 o Brasil terá 75,3 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, equivalentes a 37,8% da população. Quem será atendido? Quem prestará os cuidados? Como estarão organizados o trabalho, as cidades, a previdência e o sistema de saúde?
Essa realidade não começará em 2070. Suas respostas dependem de escolhas feitas agora.
Roman Krznaric, autor de “O bom ancestral”, defende que nossas decisões alcancem pessoas que ainda não nasceram. Gosto da exigência moral contida nessa ideia, mas ela tem uma tradução muito prática: orçamento, escola, saneamento, pesquisa e instituições capazes de manter compromissos quando muda o governo. O futuro não se protege com uma bela declaração ao fim de um encontro. Protege-se quando prioridades sobrevivem à próxima posse.
O Brasil dedica enorme energia a decidir quem governará os próximos quatro anos e energia muito menor a formular o país que pretende construir para os próximos quarenta. A OCDE identificou a capacidade de enfrentar desafios de longo prazo entre os fatores ligados à confiança dos brasileiros no governo.
Há uma razão compreensível para isso: quem vê seus problemas atravessarem décadas têm o direito de exigir respostas que atravessem mandatos.
Por isso, quero ver essa proposta debatida em público, com seus critérios à vista. Quem fará a seleção? Como serão declarados os vínculos? De que modo um cidadão poderá contestar uma conclusão? O que acontecerá com o relatório depois que chegar ao Congresso? São perguntas que dão consistência à iniciativa.
E há uma última, dirigida aos candidatos: depois da eleição, haverá um projeto de país ou apenas um plano de governo? O mandato termina. As consequências das decisões tomadas nele ficam conosco — e com quem ainda não tem idade para votar. O “Escrever o Futuro” nos faz, em boa hora, uma cobrança que não pode esperar para a próxima eleição: pensar o Brasil de amanhã e agir hoje.
https://revistaforum.com.br/opiniao/4-anos-poder-40-consequencias/
