Quem ainda define a agenda pública?

Pesquisas internacionais mostram queda na confiança da mídia tradicional e crescimento do consumo de informação em plataformas digitais

Washington Araújo - 11/06/2026

Existe uma disputa silenciosa em curso no jornalismo brasileiro. Ela não se resume ao confronto entre o impresso e o digital. O que está em jogo é algo mais profundo: quem decide quais problemas merecem atenção pública, quais vozes serão ouvidas e quais interesses econômicos receberão tratamento privilegiado. Durante décadas, essa capacidade permaneceu concentrada em poucas mãos. A expansão do jornalismo digital começou a alterar essa lógica e abriu espaço para narrativas que permaneceram ausentes da imprensa tradicional por muito tempo.

Esse poder continua existindo, mas perdeu o monopólio da interpretação. Nos últimos vinte anos, portais independentes, newsletters, podcasts, revistas digitais e coletivos de reportagem passaram a tratar com maior profundidade temas que frequentemente recebiam atenção secundária na imprensa tradicional: pobreza, racismo, povos indígenas, violência contra mulheres, trabalho precarizado, periferias urbanas, desigualdade tributária, crise ambiental e direitos humanos.

Impressos x digitais

A transformação não é apenas uma percepção subjetiva. Os números revelam a dimensão da mudança. O Reuters Institute mostrou em 2025 que apenas 10% dos brasileiros ainda utilizam jornais impressos como fonte regular de notícias. Em contrapartida, mais da metade da população se informa prioritariamente por meios digitais. O DataSenado registrou que 54% dos brasileiros têm internet e plataformas digitais como principal fonte de informação, enquanto jornais e revistas impressos representam uma parcela residual.

Nos Estados Unidos, a mudança é semelhante. Pesquisa do Pew Research Center apontou que apenas 7% dos americanos obtêm notícias regularmente por meio de jornais impressos. A Gallup apontou outro dado revelador: a confiança da população na mídia tradicional atingiu um dos menores níveis das últimas décadas.

Apesar disso, influência e confiança não são conceitos idênticos. Os grandes jornais tradicionais continuam exercendo forte capacidade de pautar governos, mercados financeiros e instituições. Reportagens publicadas pelo New York Times ou pelo Washington Post frequentemente reverberam em parlamentos, bolsas de valores, tribunais e organismos internacionais.

Cobertura neoliberal

No Brasil, porém, uma crítica crescente passou a ser dirigida à imprensa tradicional, especialmente na cobertura econômica. Ao longo de décadas, consolidou-se uma abordagem frequentemente alinhada às teses neoliberais, aos programas de austeridade e às políticas recessivas. Reformas que atingem trabalhadores costumam ser apresentadas como inevitáveis. Programas sociais destinados às populações mais vulneráveis, por sua vez, muitas vezes recebem cobertura marcada por suspeitas fiscais e questionamentos permanentes sobre custos.

Essa percepção não surgiu por acaso. Durante muitos anos, pobres apareceram mais como estatísticas do que como protagonistas. Povos indígenas foram retratados como obstáculos ao desenvolvimento. Mulheres ocuparam espaços reduzidos nas páginas de opinião. A desigualdade racial foi frequentemente tratada como questão secundária. A sociedade brasileira mudou mais rapidamente do que a capacidade de parte da imprensa tradicional em compreender essa mudança.

O jornalismo digital independente
Foi nesse espaço que cresceu o jornalismo digital independente. Evidentemente, não existe superioridade moral automática entre uma plataforma digital e um jornal impresso. Há experiências excelentes e experiências ruins em ambos os ambientes. Entretanto, muitos veículos digitais passaram a depender menos dos grandes anunciantes e mais de assinaturas, contribuições voluntárias e comunidades de leitores. Essa estrutura permitiu maior liberdade editorial e abordagens mais diversificadas.

O resultado tornou-se visível. Cresceu a cobertura sobre feminicídio, racismo estrutural, direitos indígenas, desigualdade social, economia solidária, crise climática e novas formas de trabalho. Mulheres, negros, moradores das periferias e trabalhadores precarizados deixaram de ser apenas objetos de reportagem e passaram a participar da construção das narrativas.

Diálogo com públicos ignorados

Nos Estados Unidos, o próprio debate interno do Washington Post evidencia a profundidade dessa transição. Ex-editores e colunistas passaram a discutir se a imprensa tradicional ainda consegue dialogar com públicos que se sentem ignorados ou sub-representados. A preocupação central é reconstruir vínculos de confiança em uma sociedade cada vez mais fragmentada.

A pandemia de Covid-19 também produziu uma lição importante. Em meio à avalanche de desinformação, milhões de pessoas voltaram a buscar jornalismo profissional. Ao mesmo tempo, canais digitais sérios demonstraram enorme capacidade de traduzir informações científicas complexas para o cotidiano das pessoas.

Representação social

A disputa atual, portanto, não ocorre entre papel e tela. O verdadeiro conflito envolve representação social, diversidade de perspectivas e independência editorial. O jornalismo que sobreviverá não será necessariamente o mais antigo nem o mais tecnológico. Será aquele capaz de investigar o poder, revelar desigualdades, ouvir os segmentos historicamente ignorados e reconhecer que nenhuma democracia se fortalece quando apenas alguns grupos têm o privilégio de definir quais histórias merecem ser contadas.

Em última análise, o futuro do jornalismo dependerá menos do suporte utilizado e mais da coragem de abandonar velhos filtros sociais. Porque uma sociedade plural não pode continuar sendo narrada pelos mesmos interesses de sempre.

https://revistaforum.com.br/opiniao/quem-ainda-define-a-agenda-publica/

Cultura

Explorando literatura, cinema e ética contemporânea.

Podcast

contato@palavrafilmada.com

+55 61 98373 3233

© 2025. All rights reserved.