Quem decidiu que viver é para poucos e sobreviver para a maioria?
Nas imagens de Ugur Gallenkuş, riqueza extrema e sofrimento absoluto ocupam o mesmo espaço, revelando um mundo fraturado
Washington Araújo - 19/03/2026


Não é arte decorativa. É um choque deliberado contra a indiferença — um gesto visual que interrompe a anestesia moral de um tempo que aprendeu a conviver com a dor alheia como se fosse paisagem.
As composições do artista turco Ugur Gallenkuş operam com uma precisão desconfortável: duas realidades, um único enquadramento. De um lado, a normalidade protegida; do outro, a ruptura permanente. Não há transição suave entre esses mundos. Há corte. Há fratura. Há denúncia.
Quando um parque de diversões suspenso no ar divide o mesmo espaço com uma cidade devastada por bombardeios, não se trata de estética — trata-se de hierarquia. O prazer de alguns não é apenas simultâneo ao sofrimento de outros; ele existe em um sistema que tolera essa coexistência sem constrangimento suficiente. O mundo contemporâneo não ignora a desigualdade. Ele a administra.
Essa administração se revela com brutal clareza nas imagens que contrapõem infâncias. Crianças que crescem entre livros, brinquedos e expectativas de futuro são colocadas frente a frente com crianças que crescem entre escombros, trabalho precoce e medo constante. Não é destino. É desenho estrutural. É uma engrenagem global que distribui oportunidades de forma seletiva e desigual, determinando quem terá o direito de imaginar o amanhã e quem será obrigado a sobreviver ao presente.
A questão da justiça surge, então, despida de retórica. O que essas imagens mostram é a falência prática de um ideal amplamente proclamado. Em um lado do mundo, hospitais equipados, escolas organizadas, mercados abastecidos. No outro, a ausência sistemática do básico. Falta água, falta comida, falta segurança, falta Estado. Não por acaso. Mas por escolhas históricas que concentram riqueza, poder e proteção em determinadas geografias, enquanto relegam outras à condição de invisibilidade permanente
E ainda assim, a normalização persiste.Talvez porque a anestesia seja funcional. A repetição de guerras, crises humanitárias e deslocamentos forçados criou um tipo de tolerância silenciosa. O sofrimento tornou-se fluxo contínuo de imagens consumidas sem retenção. Vê-se, reage-se por instantes, e segue-se adiante. Como se a dor tivesse prazo de validade. Como se a distância fosse argumento suficiente para a indiferença.
As imagens de Gallenkuş rompem essa lógica ao eliminar a distância. Ao fundir o confortável e o insuportável no mesmo campo visual, ele retira do espectador o direito de se eximir. Não há mais “lá” e “aqui”. Há um único mundo, organizado de forma desigual, onde privilégios e carências coexistem em silêncio cúmplice.
Muitas vezes penso que a minoria que concentra riquezas que fariam faraós corarem parece anestesiada, vacinada contra a solidariedade. Vive sem fome, sem insegurança, criando um vocabulário onde justiça e amor não existem. Em noites insones, pergunto: quando voltaremos a ouvir que somos ramos da mesma árvore e gotas do mesmo mar?
Essa reflexão não é retórica. É diagnóstico. Porque enquanto uma parcela significativa da humanidade enfrenta fome crônica, insegurança permanente e ausência de direitos básicos, outra parcela opera como se essas condições fossem irrelevantes para a estabilidade do todo. Não são. A desigualdade extrema não é apenas injusta — é insustentável.
A solidariedade, nesse contexto, não pode ser episódica. Não pode ser reduzida a gestos pontuais que aliviam consciências sem alterar estruturas. Ela precisa assumir a forma de compromisso político, social e econômico com a redução efetiva das assimetrias que essas imagens expõem. Isso implica rever prioridades, redistribuir recursos, pressionar sistemas e, sobretudo, abandonar a confortável ideia de que o sofrimento alheio não nos envolve.
Porque envolve.
Ao final, o que essas composições produzem não é apenas impacto visual. Produzem incômodo ético. Elas obrigam o olhar a reconhecer aquilo que a rotina tenta apagar: que a humanidade não se mede pelo nível de conforto alcançado por alguns, mas pela disposição coletiva de enfrentar as injustiças que atingem muitos. Ignorar isso não é neutralidade. É crime de lesa-humanidade.
