Quem protege a infância das máquinas que fabricam imagens?
Uma chefe de governo conseguiu registrar a própria voz para escapar das falsificações digitais; milhões de meninas seguem sem defesa diante da IA que multiplica imagens de abuso
Washington Araújo - 14/10/2026


Ontem, enquanto o Dia das Crianças enchia as redes sociais de pequenos sorrindo diante do bolo, da bicicleta nova, do brinquedo desejado, percorri essas fotos aqui em Brasília com uma pergunta que me acompanhou. Sou avô de netas e conheço muito bem o impulso de mostrar ao mundo a alegria de quem amamos. Desta vez, porém, cada imagem compartilhada me devolvia a um relatório que chegou de Londres há oito dias e me obrigou a olhar para esse álbum coletivo com outros olhos.
No dia 5 de outubro, a Internet Watch Foundation, organização britânica dedicada a combater a difusão de material de abuso sexual infantil, divulgou que no primeiro semestre deste ano detectou 40% mais imagens desse tipo geradas por inteligência artificial do que em todo o ano de 2025. A entidade analisou 6.310 imagens fotorrealistas que se enquadram na definição legal de abuso. Em 98% dos casos, as vítimas retratadas são meninas. Em 79%, têm entre sete e treze anos. Mais de mil imagens envolvem crianças pequenas, de três a seis anos. Cento e noventa retratam bebês de cerca de dois anos de idade.
Releio esses números duas vezes seguidas e preciso parar por alguns minutos. Cada um deles carrega o rosto de alguém.
Como psicanalista, penso no que acontece com uma menina que descobre, na escola, que circula entre os colegas uma imagem falsa e degradante com o seu rosto. A vergonha recai sobre quem foi vítima. O silêncio se instala. A confiança no mundo adulto se rompe. Essas marcas atravessam décadas e chegam aos consultórios muito tempo depois, quando a imagem já se espalhou por lugares que ninguém consegue alcançar. Cuidar dessas feridas custa anos de terapia; produzi-las custa poucos segundos de processamento.
O mecanismo precisa ser conhecido por toda família. Qualquer fotografia publicada em rede social pode ser capturada e manipulada para produzir esse tipo de conteúdo. A foto da praia, do uniforme escolar, da festa de aniversário. Parte dessas montagens é feita por outros adolescentes, às vezes como “brincadeira”, sem medir o estrago. E uma vez criada, a imagem se torna impossível de apagar: circula, alimenta outros sistemas, gera novas falsificações. Os criminosos manipulam também fotografias de vítimas reais, criando novas montagens que voltam a ferir quem sobreviveu. O crime, que um dia teve começo e fim, ganha reprodução infinita.
Anos atrás, esse conteúdo vivia escondido nos porões da dark web. Hoje aparece nas plataformas comuns, ao alcance de qualquer celular, e já existem aplicativos que fabricam imagens ultrarrealistas sob encomenda em poucos segundos. As ferramentas técnicas para detectar e remover esse conteúdo existem. Falta vontade. Nenhuma plataforma gosta de fechar contas, perder audiência ou gastar com moderação.
Empresas costumam mudar quando a omissão passa a custar caro, e algumas instituições começam a impor esse custo. Na Espanha, o conselho internacional de especialistas que assessora o governo publicou na última quinta-feira um manifesto que exige avaliação independente de todo sistema de IA capaz de afetar menores antes de seu lançamento. A União Europeia acordou, em maio, proibir em seu regulamento de inteligência artificial práticas ligadas à geração de material de abuso infantil e, em junho, decidiu tratar como crime o próprio ato de desenhar ou adaptar um sistema para produzi-lo.
Uma notícia lateral, quase anedótica, ganhou outro peso diante desses números. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, registrou a própria voz como marca sonora no Escritório de Propriedade Intelectual da União Europeia, para protegê-la de clones e falsificações. Fez muito bem. Mas observe o contraste. Uma chefe de governo, cercada de assessores jurídicos, consegue blindar sua voz. Uma menina de nove anos, cuja foto foi postada pela avó orgulhosa, segue sem ter a quem recorrer.
O Brasil deu um passo importante. Desde 17 de março está em vigor o ECA Digital, que impõe às plataformas deveres concretos de proteção de crianças e adolescentes, sob fiscalização da Autoridade Nacional de Proteção de Dados. Leis valem o que vale sua fiscalização. O país precisa de uma autoridade com orçamento, pessoal e poder de punir, de empresas obrigadas a retirá-lo do ar com rapidez, de canais de denúncia conhecidos em cada escola do país, e de punições que pesem no caixa das plataformas omissas. A SaferNet Brasil mantém há anos um canal para isso, que deveria ser tão conhecido quanto o número do Samu.
Resta ainda algo que lei nenhuma garante: uma mudança de hábito. Antes de publicar a próxima foto da neta ou do filho, vale perguntar quem mais poderá vê-la e o que poderá fazer com ela. Proteger a infância começa na tela do nosso próprio telefone.
Os escritos bahá’ís ensinam que as crianças são o tesouro mais precioso de uma comunidade, promessa e garantia do seu futuro. Uma civilização se mede pela forma como cuida de seus filhos mais frágeis, sobretudo quando ninguém está olhando. Passada a festa de ontem, a pergunta que fica é se estamos à altura dessa medida.
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