Respondendo a Pilatos

A inteligência artificial aprendeu a fabricar vozes, imagens e acontecimentos. Agora precisa ajudar a reconstruir a confiança nos fatos

Washington Araújo - 23/07/2026

“Que é a verdade?”

Poucas perguntas atravessaram dois milênios com tamanha força. O Evangelho de João registra que Pôncio Pilatos a dirigiu a Jesus pouco antes da crucificação. E registra também, quase de passagem, o gesto que de fato importa: Pilatos não esperou a resposta. Voltou-se para a multidão e deixou a pergunta suspensa no ar.

Convém reter esse detalhe, porque nele está contido o problema inteiro. O drama de Pilatos não foi desconhecer a verdade. Foi não conceder a ela o tempo de chegar.

Desde então, a humanidade produziu bibliotecas inteiras sobre a verdade, mas organizou suas instituições como se ela fosse permanente e capaz de defender-se sozinha. Nunca foi. A confiança entre desconhecidos — fundamento dos contratos, da ciência, da Justiça, do jornalismo e da própria democracia — depende de um acordo silencioso: o de que os fatos existem independentemente de nossas preferências.

Esse acordo começa a apresentar sinais de esgotamento.

Não porque a mentira tenha se tornado mais frequente. Ela acompanha a história humana desde sempre. O que mudou foi sua capacidade de alcançar milhões de pessoas em poucos minutos, vestir-se de autenticidade e sobreviver mesmo depois de desmentida. Pela primeira vez, falsificações digitais reproduzem expressões faciais, timbres de voz, documentos, fotografias e vídeos com precisão suficiente para enganar cidadãos comuns, profissionais experientes e, em determinadas circunstâncias, os próprios sistemas de verificação.

Não se trata apenas de um problema tecnológico. Trata-se de uma alteração profunda na maneira como as sociedades distinguem realidade e ficção. Quando compreendemos que um motorista alcoolizado representava risco coletivo, criamos instrumentos para identificá-lo antes que produzisse novas vítimas. Em 1938, o drunkometer, concebido pelo bioquímico Rolla Harger, entrou em uso policial no estado americano de Indiana; em 1954, Robert Borkenstein apresentou o Breathalyzer, origem dos bafômetros modernos. O objetivo nunca foi punir quem bebia. Foi impedir que uma conduta individual produzisse consequências irreparáveis para terceiros.

Ainda não construímos um equivalente para a mentira.

Quando a ficção saiu do palco

Vale observar o que aconteceu naquele mesmo ano de 1938.

Na noite de 30 de outubro, Orson Welles apresentou pela rede CBS uma adaptação radiofônica de A Guerra dos Mundos, romance publicado por H. G. Wells quatro décadas antes. A dramatização utilizava boletins jornalísticos para narrar uma suposta invasão marciana aos Estados Unidos. Muitos ouvintes sintonizaram a transmissão depois do aviso inicial de que se tratava de uma obra de ficção e interpretaram aquelas interrupções como notícias reais.

Pesquisas posteriores mostraram que o pânico foi menor do que os jornais da época sugeriram. Ainda assim, o episódio permanece histórico por outra razão. Ele demonstrou que uma narrativa construída com aparência jornalística podia modificar o comportamento de milhares de pessoas quase simultaneamente. O rádio não inventou a mentira. Ampliou seu alcance.

A coincidência de datas merece atenção. No mesmo ano em que uma sociedade decidiu medir objetivamente o risco que um motorista embriagado representava para desconhecidos, outra tecnologia demonstrava, em rede nacional, que era possível embriagar multidões inteiras com uma versão falsa da realidade. Construímos o instrumento para a primeira ameaça e o aperfeiçoamos por quase noventa anos. Para a segunda, jamais construímos coisa alguma.

Desde então, cada inovação ampliou a distância entre as duas capacidades. A televisão acrescentou o impacto da imagem. A internet eliminou fronteiras geográficas. As redes sociais transformaram qualquer usuário em distribuidor de informação. A inteligência artificial deu o passo seguinte: passou a produzir, em segundos, conteúdos que a percepção humana já não consegue separar dos autênticos.

Essa sequência costuma ser celebrada como uma história de inovação. Também pode ser lida como a história da sofisticação da mentira.

Quando a mentira destrói vidas

O Brasil conheceu de perto essa transformação antes mesmo da chegada da inteligência artificial. Em março de 1994, a Escola Base, em São Paulo, tornou-se o centro de uma das maiores tragédias já produzidas pela combinação entre investigação precipitada e cobertura jornalística irresponsável. Proprietários e funcionários foram acusados de abusar sexualmente de crianças. Antes que o inquérito reunisse provas consistentes, manchetes, entrevistas e reportagens já haviam construído uma condenação pública. A escola foi depredada, perdeu todos os alunos e encerrou suas atividades. Meses depois, a polícia concluiu que não existiam elementos para sustentar as acusações. A Justiça reconheceu a inocência dos envolvidos, mas nenhuma decisão judicial foi capaz de reconstruir empresas destruídas, recuperar patrimônios perdidos ou devolver a tranquilidade de famílias que passaram a carregar um estigma permanente.

Esse episódio permanece atual porque revelou uma característica pouco discutida da mentira: ela produz efeitos que sobrevivem ao próprio desmentido. A verdade pode restabelecer os fatos, mas raramente consegue percorrer o mesmo caminho, com a mesma velocidade e a mesma intensidade emocional da acusação inicial. A memória coletiva costuma preservar a suspeita muito depois de desaparecerem as evidências que a sustentavam. A absolvição jurídica encontra um obstáculo quase intransponível na condenação social.

Vinte anos depois, a mentira deixou de destruir apenas reputações para passar a eliminar vidas. Em maio de 2014, Fabiane Maria de Jesus, moradora do Guarujá, foi confundida com uma suposta sequestradora de crianças descrita em mensagens que circulavam nas redes sociais. Não havia qualquer prova contra ela. A imagem que acompanhava aquelas publicações não era sequer uma fotografia: tratava-se de um retrato falado antigo, produzido em outro estado, para um caso sem nenhuma relação com o Guarujá. Bastou, entretanto, que dezenas de pessoas aceitassem aquela versão como verdadeira para que uma multidão a cercasse, a espancasse e a arrastasse pelas ruas. Fabiane morreu dois dias depois, vítima não apenas da violência física, mas da rapidez com que uma falsidade encontrou acolhimento entre pessoas que jamais haviam visto qualquer evidência.

Há uma diferença decisiva entre os dois casos. Na Escola Base, a mentira destruiu o futuro de inocentes. No Guarujá, ela suprimiu o próprio direito ao futuro.

E há um dado que deveria constranger qualquer entusiasmo tecnológico. Nenhum desses episódios envolveu falsificação sofisticada. Não houve deepfake, síntese de voz, documento adulterado por algoritmo. Em ambos, os fatos estavam disponíveis para quem quisesse examiná-los. O que faltou não foi informação. Faltou disposição para submetê-la ao teste mais elementar do pensamento crítico antes de convertê-la em certeza. Faltou, em suma, o gesto que Pilatos não teve: esperar.

Guardemos essa observação. Ela delimitará, mais adiante, o alcance real de qualquer solução que se pretenda propor.

A vantagem operacional da mentira

Se a mentira já era capaz disso com meios rudimentares, convém examinar o que ela se tornou capaz de fazer agora.

Costumamos discutir a inteligência artificial por sua aptidão para escrever textos, criar imagens, compor músicas ou produzir vídeos hiper-realistas. Essas aplicações impressionam, mas representam apenas parte do fenômeno. A ruptura verdadeira ocorreu quando se tornou trivial fabricar evidências. Um vídeo pode mostrar um chefe de Estado declarando guerra sem jamais tê-lo feito. Um áudio pode reproduzir a voz de um filho pedindo dinheiro aos pais. Um documento falso pode provocar oscilações financeiras antes que especialistas verifiquem sua autenticidade. Nunca foi tão simples produzir provas de acontecimentos que nunca ocorreram.

Essa mudança altera o equilíbrio econômico entre verdade e mentira. Durante séculos, fabricar uma fraude convincente exigia tempo, recursos e habilidades raras. Hoje, o custo de produzir uma falsificação tende a zero, enquanto o esforço necessário para desmenti-la permanece elevado, artesanal e demorado. A mentira conquistou uma vantagem operacional inédita: espalha-se em escala industrial, ao passo que a verificação continua lenta, fragmentada e frequentemente restrita a especialistas.

Uma assimetria dessa natureza não se corrige com apelos à responsabilidade individual. Corrige-se com infraestrutura.

É por essa razão que considero insuficiente concentrar investimentos apenas em sistemas capazes de gerar novos conteúdos. A próxima fronteira da inteligência artificial não deveria ser a criatividade das máquinas, mas sua capacidade de proteger a autenticidade da informação. Enquanto aperfeiçoarmos apenas os instrumentos de fabricação, seguiremos entregando vantagem permanente a quem explora a mentira como método de manipulação política, econômica ou social.

A infraestrutura invisível da democracia

Defendo que universidades, empresas de tecnologia, organismos multilaterais, centros de pesquisa e instituições jornalísticas iniciem a construção de uma Infraestrutura Mundial de Confiança Digital. Não imagino um órgão encarregado de definir o que as pessoas podem pensar nem um mecanismo de censura revestido de linguagem tecnológica. A proposta é exatamente a oposta. Trata-se de criar uma camada pública, internacional, transparente e permanentemente auditável, destinada a certificar a origem de documentos, vídeos, fotografias, gravações, estatísticas e comunicações oficiais antes que produzam danos irreversíveis. A procedência de um conteúdo precisa tornar-se tão verificável quanto hoje é a assinatura digital de uma transação bancária.

Não parto do zero, e seria desonesto sugerir o contrário. Desde 2021, uma coalizão que reúne Adobe, Microsoft, BBC, Intel e Sony desenvolve o padrão C2PA, que inscreve nos arquivos um histórico verificável de origem e edição. O Ato de Inteligência Artificial da União Europeia estabeleceu obrigações de identificação para conteúdos sintéticos. No Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral determinou, em 2024, a rotulagem obrigatória de material produzido por inteligência artificial na propaganda eleitoral e proibiu o uso de deepfakes. O problema não é a inexistência de soluções técnicas. É a arquitetura dentro da qual elas foram colocadas.

Essas iniciativas compartilham três fragilidades. A adesão é voluntária, o que significa que apenas quem já pretende ser honesto assina o que produz. Os metadados de procedência são rotineiramente removidos pelas plataformas no momento do upload, justamente onde a verificação seria mais necessária. E, sobretudo, a ausência de assinatura nada prova: milhões de registros legítimos — a fotografia feita por um cidadão comum, o vídeo gravado por uma testemunha — continuarão nascendo sem certificado algum. Uma camada pública, universal e obrigatória para instituições resolveria o que a boa vontade privada não resolve.

As aplicações práticas seriam numerosas. Pronunciamentos de chefes de Estado, decisões de tribunais, comunicados de bancos centrais, artigos científicos, bases estatísticas e registros audiovisuais sairiam acompanhados de certificados verificáveis por qualquer cidadão, em qualquer dispositivo, sem intermediários. Em vez de obrigar milhões de pessoas a investigar individualmente cada conteúdo suspeito, a tecnologia ofereceria um padrão público de procedência acessível a todos. A mesma arquitetura poderia proteger outro patrimônio negligenciado: a autoria intelectual, hoje vulnerável não apenas à cópia literal, mas à apropriação silenciosa de raciocínios e percursos de pesquisa.

Vejo espaço, inclusive, para ampliar a transparência da própria atividade jornalística — e reconheço que proponho isto nas páginas de um jornal, o que me obriga a ser preciso. Um Índice Público de Confiabilidade Informacional reuniria indicadores estritamente verificáveis: frequência de retratações, tempo médio de correção, reincidência em manchetes posteriormente desmentidas, transparência na identificação de fontes, histórico de condenações por divulgação de informação falsa. Nenhum desses critérios avalia linha editorial, orientação política ou juízo de valor. Avaliam conduta documentada. Iniciativas privadas de classificação já existem e são justamente criticadas pela opacidade de seus métodos; a resposta a esse defeito não é abandonar a ideia, mas torná-la pública, auditável e aberta à contestação.

O que a assinatura não assina

Chego agora ao ponto que não posso contornar sem trair meu próprio argumento.

A certificação criptográfica prova procedência. Não prova veracidade. Ela informa quem produziu um arquivo e se ele foi alterado desde então — nada além disso. Um comunicado oficial mentiroso, devidamente assinado por quem o emitiu, continuará mentiroso e devidamente assinado. A reportagem que condenou a Escola Base era autêntica em todos os sentidos técnicos do termo: veículos reais, jornalistas reais, imagens reais. Seria certificável do primeiro ao último caractere.

O Brasil oferece a demonstração mais eloquente dessa limitação. Durante anos circularam alegações de que as urnas eletrônicas continham programas secretos, eram controladas por governos estrangeiros ou escondiam mecanismos clandestinos de alteração de votos. Nenhuma resistiu ao exame das provas produzidas pela Justiça Eleitoral, por especialistas independentes ou pelas sucessivas auditorias realizadas ao longo de décadas. A verificação existia. Era pública, técnica, repetida, aberta à fiscalização de partidos e universidades. E não bastou. As narrativas continuaram circulando porque a mentira descobriu uma vantagem que jamais deveria possuir: ela não precisa demonstrar para influenciar. Basta insinuar.

Enfrentamos, portanto, dois problemas distintos, e confundi-los seria o erro mais custoso deste debate. O primeiro é o problema da máquina: distinguir o que foi fabricado do que foi registrado. Esse tem solução técnica, e ela precisa ser construída com urgência, porque sem ela nem sequer chegaremos à discussão seguinte. O segundo é o problema humano: a disposição de esperar antes de acreditar, de suspender o julgamento pelo tempo necessário para que a evidência alcance a acusação. Esse não se resolve com criptografia. Resolve-se com educação, com formação do juízo crítico, com uma cultura pública que trate a pressa em condenar como aquilo que ela é — uma forma de violência.

A infraestrutura de confiança não substitui o discernimento. Torna o discernimento possível. Um cidadão sem instrumentos de verificação não tem como decidir bem, por mais íntegro que seja; um cidadão com todos os instrumentos e nenhuma paciência decidirá mal de qualquer maneira. Precisamos das duas coisas, e apenas uma delas pode ser encomendada a engenheiros.

Quando ainda era muito jovem, encontrei nos escritos de ‘Abdu’l-Bahá uma frase que permaneceu comigo desde então: “A veracidade é a base de todas as virtudes humanas.” Durante muitos anos a compreendi como ensinamento espiritual. Hoje a reconheço também como descrição precisa do funcionamento das sociedades livres. Sem veracidade, contratos tornam-se promessas frágeis, pesquisas científicas disputam espaço com boatos, decisões judiciais deixam de convencer, eleições passam a ser contestadas por conveniência e a convivência cotidiana perde estabilidade. Nenhuma comunidade se desfaz de um dia para o outro. A desagregação começa quando seus integrantes deixam de compartilhar uma referência comum sobre o que realmente aconteceu.

Volto, então, à pergunta formulada por Pilatos. Dois mil anos depois, talvez estejamos em melhores condições para respondê-la — desde que compreendamos onde ele de fato falhou. Pilatos não errou ao perguntar o que é a verdade. Errou ao virar as costas antes que a resposta chegasse. É exatamente o que fazemos quando compartilhamos antes de verificar, quando condenamos antes de examinar, quando aceitamos uma imagem porque ela confirma o que já desejávamos acreditar.

A verdade não é apenas uma questão filosófica nem um ideal reservado aos livros. Ela constitui a infraestrutura invisível sobre a qual repousam a democracia, a economia, a ciência, a imprensa, os tribunais e a confiança entre pessoas que jamais se encontrarão. Proteger essa infraestrutura talvez seja a tarefa pública mais importante da inteligência artificial nas próximas décadas — e, ao mesmo tempo, a tarefa que nenhuma inteligência artificial poderá cumprir sozinha. Se fracassarmos, não será porque as máquinas se tornaram inteligentes demais. Será porque nós, diante da pergunta mais antiga e mais urgente de todas, continuamos sem paciência para esperar a resposta.

https://www.brasil247.com/blog/respondendo-a-pilatos/

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