Resposta sobre igualdade entre homens e mulheres é antiga e continua sem aplicação
Mais de um século após London Talks, de ‘Abdu’l-Bahá, o mundo acumula dados, discursos e promessas, mas ainda evita enfrentar o núcleo real da desigualdade
Washington Araújo - 10/04/2026


início desta terceira década do século XXI não apenas frustrou promessas de equilíbrio — ele escancarou, com dados, relatórios e vidas concretas atravessadas pela violência, a persistência de uma hierarquia brutal entre homens e mulheres. Em 2026, enquanto guerras se multiplicam do Leste Europeu ao Oriente Médio, a violência não se distribui de forma neutra. Estimativas recentes da Organização das Nações Unidas indicam que mulheres e crianças representam cerca de 70% dos deslocados forçados em zonas de conflito. Em cenários como Gaza, Ucrânia e Sudão, organismos multilaterais têm documentado o uso sistemático da violência sexual como instrumento de guerra — não como desvio, mas como método. A guerra não apenas destrói cidades; ela reorganiza vulnerabilidades com precisão cruel. E, repetidamente, o corpo mais exposto tem gênero.
Fora dos campos de batalha, a desigualdade não desaparece — ela se institucionaliza. A Organização Internacional do Trabalho aponta que mulheres seguem ganhando, em média, cerca de 20% menos que homens globalmente, mesmo em funções equivalentes. A UNESCO registra que mais de 120 milhões de meninas permanecem fora da escola, muitas impedidas por pobreza, insegurança ou normas sociais restritivas. No campo acadêmico, relatórios da própria UNESCO indicam que mulheres representam menos de 30% dos pesquisadores no mundo, apesar de já serem maioria entre graduados em diversas regiões. E o Banco Mundial revela que, em dezenas de países, leis ainda limitam direitos básicos femininos — do acesso à propriedade ao crédito, da mobilidade ao trabalho formal. Não se trata de exceções. Trata-se de um padrão global que distribui oportunidades com desigualdade sistemática.
É nesse cenário, em que os números já não surpreendem porque se tornaram rotina, que surge a necessidade de recuar no tempo. Não para buscar conforto retrospectivo, mas para identificar momentos em que alguém viu antes, disse antes e nomeou antes aquilo que o mundo preferiu adiar. Há episódios que não pertencem apenas à sua época. Permanecem vivos porque continuam a iluminar impasses que a modernidade tecnológica não resolveu.
O livro London Talks
O caso de Londres é um desses momentos. Entre 4 de setembro e 3 de outubro de 1911, ‘Abdu’l-Bahá esteve na capital britânica, onde proferiu falas públicas e manteve encontros com líderes religiosos, intelectuais e mulheres ligadas a movimentos de renovação social e espiritual. Em 10 de setembro de 1911, no City Temple, apresentou ideias que não se limitavam à esfera religiosa, mas dialogavam com uma tradição filosófica mais ampla, ao propor a igualdade entre homens e mulheres como princípio estrutural da própria condição humana. As anotações dessas falas dariam origem ao livro London Talks, publicado em 1912, isto é, quase no calor do acontecimento.
Foi justamente depois de percorrer esses registros, confrontar datas, reler passagens e observar o contexto em que cada fala foi feita, que optei por destacar algumas dessas reflexões — não como peças de arquivo, mas como matéria viva de um debate que atravessou mais de um século sem perder o nervo.
Ao reconstituir essa atmosfera, a cena deixa de ser documento frio e volta a respirar.
Naquela sala em Londres, o silêncio não era ausência de som — era concentração. Havia ali algo que não se deixava capturar inteiramente pelas palavras, algo que se insinuava entre olhares atentos, gestos contidos e a expectativa de quem intuía estar diante de uma ideia capaz de reorganizar o mundo. Não se tratava de mera eloquência. Era reconfiguração de eixo.
Ali estavam homens e mulheres concretos, históricos, cada qual carregando sobre o próprio corpo o peso das convenções de seu tempo. Annie Besant — figura central da Teosofia — e Alice Buckton estavam entre aquelas mulheres que não aceitavam mais o lugar que lhes fora designado. O encontro dessas presenças humanas distintas produzia algo que a biologia, sozinha, não explica: consciência.
As duas asas
É nesse contexto que se dá uma das passagens mais reveladoras daquele encontro. Ao dirigir-se a uma sufragista presente, ‘Abdu’l-Bahá formula uma pergunta direta: por que a mulher deveria ter direito ao voto? A resposta vem com a precisão das ideias que não dependem de excesso de palavras: a humanidade, diz ela, é como um pássaro que não pode voar com apenas uma asa. Se homens e mulheres são as duas asas, negar a uma delas plena participação é condenar o conjunto à limitação.
A metáfora não apenas responde à pergunta — ela reorganiza o problema.
Mas o diálogo não se encerra aí. ‘Abdu’l-Bahá avança um passo além e introduz um movimento decisivo: e se a asa mais forte for justamente aquela que a história tratou de enfraquecer? A pergunta suspende o equilíbrio aparente da metáfora e obriga todos na sala a reconsiderar aquilo que parecia evidente.
É a partir desse ponto que a questão deixa de ser apenas política.
Quando ‘Abdu’l-Bahá pergunta por que a mulher deveria votar, a questão não se limita ao sufrágio. O que se põe à prova ali é o edifício inteiro de uma civilização acostumada a chamar de natureza aquilo que sempre foi construção social. A metáfora da asa revela o problema; a inversão revela sua profundidade.
O riso que percorre a sala não dissolve a tensão; ao contrário, a expõe. Porque toda transformação real começa assim: com uma ideia simples o suficiente para ser compreendida — e forte o suficiente para desestabilizar uma ordem inteira.
Não se trata, portanto, de idealizar a mulher como compensação simbólica para séculos de desigualdade. Trata-se de reconhecer que a leitura dominante sempre foi estreita — e muitas vezes conveniente. Coragem moral, intuição, resistência em contextos de crise, capacidade de sustentar a vida quando as estruturas falham: tudo isso foi reiteradamente tratado como detalhe secundário, quando na verdade compõe o esqueleto invisível de sociedades inteiras.
Digo isso também a partir da experiência. Ao longo de décadas atravessando salas de aula, ambientes de debate e espaços de formação, vi muitas vezes essa força surgir não como exceção, mas como fundamento. Não como estridência, mas como permanência. Há presenças que não precisam disputar volume para estabelecer autoridade. Sustentam. E sustentar, quando tudo em volta ameaça ceder, é uma forma rara e superior de poder.
Quando Maria Madalena sustenta os discípulos após a morte de Cristo, a imagem vai muito além da devoção religiosa. O que se projeta ali é uma mulher impedindo o colapso espiritual e simbólico de uma comunidade inteira. Enquanto os homens recuam, ela reconduz o sentido, reabre a possibilidade, restaura o eixo. Não há espetáculo nesse gesto. Há fundação.
A advertência
É por isso que London Talks não deve ser lido apenas como registro histórico de conversas passadas. O livro captura um instante em que uma visão sobre o mundo foi formulada com clareza diante de uma sociedade que ainda avançava para a catástrofe da Primeira Guerra Mundial. Havia, já ali, uma advertência — não apenas sobre a dignidade da mulher, mas sobre a cegueira de uma civilização que insiste em amputar uma de suas asas e depois se espanta por não conseguir voar.
Mais de um século se passou. Vieram guerras mundiais, reconstruções, revoluções tecnológicas, avanços legais e promessas reiteradas de igualdade. Ainda assim, os dados seguem devolvendo a mesma evidência incômoda: a mulher continua submetida, em múltiplas frentes, a regimes persistentes de desvantagem.
Ao afirmar que, diante de Deus, sexo não faz diferença, ‘Abdu’l-Bahá desloca o critério de valor para um plano mais exigente — e, por isso mesmo, mais desafiador.
No fim, a pergunta deixa de ser histórica e se torna imediata: se já sabíamos, se já compreendíamos, se já formulávamos com clareza — o que ainda nos impede de agir?
https://revistaforum.com.br/opiniao/igualdade-homens-mulheres-antiga-sem-aplicacao/
