Robert Trivers e a descoberta científica que explica por que ainda confiamos uns nos outros

Entre biologia, psicologia e teoria dos jogos, Robert Trivers construiu uma explicação poderosa para a cooperação humana e influenciou pensadores

Washington Araújo - 17/03/2026

Soube na manhã de 16 de março da morte do biólogo evolutivo Robert Trivers. Ele havia falecido quatro dias antes, em 12 de março, aos 82 anos, na cidade de Baltimore, nos Estados Unidos. A notícia não ocupava manchetes ruidosas nem vinha cercada de homenagens instantâneas. Ainda assim, carregava o peso silencioso de um acontecimento intelectual raro: partia um homem que havia conseguido iluminar, com poucas páginas de teoria rigorosa, um dos enigmas mais persistentes da vida humana — por que, em um mundo moldado pela competição, ainda insistimos em cooperar.

Fiquei alguns minutos olhando para a tela do computador. A notícia era breve, quase protocolar. Mas o pensamento que me ocorreu foi outro: muitas vezes a história das ideias muda não por causa de livros monumentais, mas por causa de textos pequenos, compactos, quase modestos. Há ideias que cabem em poucas páginas e, ainda assim, reorganizam campos inteiros do conhecimento. Trivers pertence a essa linhagem rara de pensadores que iluminam grandes territórios da experiência humana com instrumentos conceituais simples e elegantes.

Para muitos leitores, o nome talvez não seja imediatamente reconhecível. Mas entre biólogos, psicólogos e estudiosos do comportamento humano, Robert Trivers ocupa um lugar singular. Ele foi um dos arquitetos intelectuais da biologia evolutiva contemporânea e ajudou a construir uma ponte sólida entre evolução e psicologia — entre a história biológica da espécie e aquilo que sentimos, decidimos e fazemos todos os dias.

Robert Trivers nasceu em 1943, em Washington, D.C. Curiosamente, sua formação inicial não foi na biologia. Estudou História em Harvard e atravessou uma juventude marcada por debates políticos intensos e crises pessoais profundas. Foi apenas mais tarde que encontrou na teoria evolutiva de Darwin uma lente poderosa para compreender aquilo que sempre o intrigou: o comportamento humano.

Esse percurso pouco convencional talvez explique o caráter singular de sua obra. Trivers não parecia interessado apenas em produzir artigos técnicos. O que o movia eram perguntas grandes — perguntas que atravessam filosofia, biologia e a própria experiência cotidiana.

Por que ajudamos?

Por que confiamos?

Por que sentimos indignação quando alguém nos engana?

Por que relações de amizade, lealdade e parceria são tão centrais para a vida humana?

Nos anos 1970 ele formularia três ideias decisivas para a biologia comportamental: a teoria do investimento parental, o conflito entre pais e filhos e — sua contribuição mais conhecida — a teoria do altruísmo recíproco.

Essa última apareceu em 1971, em um artigo publicado na revista científica The Quarterly Review of Biology. O texto tinha apenas 21 páginas e um título aparentemente técnico: The Evolution of Reciprocal Altruism.

Dentro dessas poucas páginas estava a solução para um dos enigmas mais antigos da evolução.

Se a seleção natural favorece indivíduos que maximizam sua sobrevivência e reprodução, como explicar a cooperação? Como explicar comportamentos altruístas — ajudar outro indivíduo sem receber nada imediatamente em troca?

Durante muito tempo, a biologia evolutiva parecia incapaz de responder satisfatoriamente a essa pergunta.

Trivers percebeu que a resposta não estava no altruísmo puro, mas na reciprocidade.

Em termos simples: a cooperação pode surgir quando indivíduos ajudam aqueles que também ajudam.

O altruísmo, nesse caso, não é ingenuidade moral.

É uma estratégia que funciona ao longo do tempo.

No próprio artigo ele formula a ideia de forma direta:

“O altruísmo pode evoluir entre indivíduos não aparentados quando existe a expectativa de retorno futuro.”

Ajudo você hoje.

Você me ajuda amanhã.

E ambos lembramos quem cumpriu — e quem não cumpriu — o acordo.

Para explicar por que esse sistema funciona, Trivers recorreu a um modelo clássico da teoria dos jogos chamado dilema do prisioneiro repetido. A lógica é simples e, ao mesmo tempo, reveladora.

Imagine duas pessoas que podem escolher entre cooperar ou trair uma à outra. Se ambas cooperam, as duas obtêm um benefício razoável. Se uma coopera e a outra trai, quem trai leva vantagem naquele momento. Mas se ambas escolhem trair, o resultado final é pior para os dois.

Quando essa decisão acontece apenas uma vez, a tentação de trair pode parecer racional. Afinal, quem trai pode ganhar mais naquele instante.

Mas a vida real não funciona como um encontro único.

Nós encontramos as mesmas pessoas muitas vezes ao longo da vida: colegas, amigos, parceiros, vizinhos. E é justamente aí que entra a ideia do jogo repetido. Quando as interações acontecem repetidamente, a lógica muda completamente. Quem trai pode ganhar uma vez, mas perde confiança, reputação e futuras oportunidades de cooperação. Já quem coopera com parceiros confiáveis tende a construir relações duradouras que geram benefícios ao longo do tempo.

Foi assim que Trivers demonstrou que a cooperação pode ser uma estratégia evolutiva estável.

Para que esse sistema funcione, porém, os indivíduos precisam reconhecer parceiros confiáveis.

E é aqui que Trivers deu um passo decisivo.

Ele mostrou que os seres humanos possuem instrumentos psicológicos complexos moldados pela evolução para sustentar relações de reciprocidade. Entre esses instrumentos estão a confiança, a gratidão, a memória das interações passadas, a preocupação com reputação e também a culpa — não como punição externa, mas como um sentimento interno que surge quando percebemos que quebramos um acordo ou prejudicamos alguém que confiava em nós. Esse sentimento funciona como um mecanismo psicológico que ajuda a restaurar relações e preservar a cooperação dentro de um grupo.

Sem esses mecanismos emocionais e cognitivos, a cooperação simplesmente se tornaria frágil demais para sobreviver.

Em uma passagem particularmente clara, Trivers escreveu:

“A evolução favorece organismos capazes de reconhecer quem coopera e quem explora.”

Em poucas páginas, ele havia criado uma ponte intelectual entre biologia e psicologia que ajudaria a abrir caminho para o surgimento da psicologia evolutiva.

Anos depois, essa perspectiva seria amplamente difundida pelo biólogo britânico Richard Dawkins (1941–), professor da Universidade de Oxford e autor do clássico O Gene Egoísta, publicado em 1976. O livro transformou a teoria evolutiva em um fenômeno cultural global e apresentou a milhões de leitores a lógica evolutiva que explica tanto a competição quanto a cooperação entre organismos.

Outro pensador que destacou a importância dessas ideias foi o psicólogo cognitivo Steven Pinker (1954–), professor da Universidade Harvard e um dos estudiosos mais influentes da mente humana. Pinker mostrou como emoções como gratidão, indignação moral e senso de justiça fazem parte da arquitetura psicológica da nossa espécie — elementos essenciais para sustentar relações de cooperação ao longo do tempo.

Eu tive acesso ao artigo original de Trivers em 2016.

Lembro-me de ler aquelas 21 páginas em inglês com crescente surpresa. Havia ali uma elegância rara: poucos pressupostos, exemplos claros, argumentos rigorosos — e, pouco a pouco, a sensação de que algo fundamental sobre os seres humanos estava sendo revelado.

Ao terminar a leitura, tive a impressão de que muitas situações da vida cotidiana podiam ser vistas sob uma nova luz.

Amizades.

Promessas.

Lealdades.

Traições.

Reputações que se constroem lentamente ao longo dos anos.

Tudo isso pode ser entendido como parte desse antigo mecanismo evolutivo de cooperação condicional.

No fundo, a ideia de Trivers não é apenas biológica. Ela é profundamente humana. Cada relação de confiança que estabelecemos carrega consigo uma memória invisível de reciprocidade. Cada promessa cumprida reforça uma arquitetura social construída ao longo de milhares de gerações. E cada traição não fere apenas um indivíduo — ela corrói o tecido delicado que torna possível a vida coletiva.

Talvez por isso o pequeno ensaio de 1971 continue sendo lido como um daqueles textos raros que atravessam décadas sem perder força. Ele não explica apenas morcegos, aves ou peixes. Explica algo muito mais próximo de nós: o drama permanente entre confiança e oportunismo que estrutura amizades, sociedades e até civilizações.

Trivers passou a vida tentando entender por que cooperamos.

E ao fazer essa pergunta — simples, quase despretensiosa — acabou revelando uma das engrenagens mais profundas da condição humana.

Quando um pensador desses parte, não desaparece apenas um cientista. Desaparece um olhar capaz de tornar visível aquilo que sempre esteve diante de nós.

O que permanece é a pergunta.

E ela continua ecoando silenciosamente em cada gesto de confiança que ainda ousamos oferecer ao outro.

https://www.brasil247.com/blog/robert-trivers-e-a-descoberta-cientifica-que-explica-por-que-ainda-confiamos-uns-nos-outros