Segundo um algoritmo, os pais fundadores dos EUA escreveram com ChatGPT
A mesma ferramenta que acusou os constituintes de 1787 deixou passar respostas do ChatGPT em avaliações de Psicologia, aprovadas com notas superiores às dos alunos
Washington Araújo - 21/08/2026


Poucos dias atrás, o Substack incorporou a seus recursos um detector da Pangram que estima quanto de uma publicação teria sido escrito por inteligência artificial. Por estudar academicamente, desde 2022, a entrada dessas máquinas nos afazeres cotidianos, submeti quatro artigos de minha autoria, publicados entre 2012 e 2020, quando o ChatGPT ainda nem existia. Dois receberam veredictos de 80% a 90% de escrita artificial; outro alcançou 95%; o mais benevolente marcou 42%. Uma explicação exigiria mediunidade: este pobre carpinteiro do jornalismo teria usado com generosidade uma tecnologia que ainda aguardava o nascimento.
Em dezembro de 2025, a empresa lançou a versão mais recente do sistema, batizada Pangram 3.0, blindada por um estudo da Universidade de Chicago que atestava taxa de falsos positivos abaixo de 0,5%, a menor entre os concorrentes testados. Meses antes, pesquisadores da Universidade de Maryland, usando a mesma tecnologia, haviam calculado que mais de 9% dos textos publicados em jornais americanos continham algum trecho gerado por inteligência artificial. Amparada por esse duplo aval científico e estatístico, a Pangram migrou das salas de aula para redações, agências de notícias e, por fim, para o Substack, sem que a velocidade da expansão fosse acompanhada de qualquer auditoria independente equivalente.
Falso positivo é o nome técnico para o texto inteiramente humano classificado como obra de máquina. Em uma plataforma que hospeda milhões de publicações, mesmo 0,5% representa um exército silencioso de autores atingidos; para cada um deles, a estatística abstrata se abate como um tsunami sobre a criatividade e a honestidade intelectual, arrasando em segundos reputações erguidas ao longo de décadas. Nenhum selo acadêmico, por mais rigoroso, devolve o que esse erro consome.
Sentenças sem provas
A anedota cede lugar ao dano. Porcentagens atingem reputações e carreiras sem revelar método, critérios ou margem de erro. Cinco controvérsias desmontam tamanha segurança. Em julho de 2023, a OpenAI retirou seu classificador depois de reconhecer que ele identificava somente 26% dos textos artificiais e atribuía, por engano, essa origem a 9% dos textos humanos. A criadora do ChatGPT abandonou a ferramenta; seus sucessores prosseguiram distribuindo veredictos.
A Universidade Vanderbilt desativou o detector do Turnitin ao calcular que a taxa anunciada de 1% de falsos positivos acusaria injustamente 750 entre 75 mil trabalhos.
Uma pesquisa de Stanford expôs outra distorção: mais da metade das redações humanas de estudantes cuja primeira língua não era o inglês recebeu classificação artificial. O pretenso guardião da integridade penalizava justamente quem enfrentava maior esforço linguístico.
Em maio de 2023, a Texas A&M University-Commerce reteve diplomas de uma turma inteira depois de um professor submeter os trabalhos ao próprio ChatGPT e aceitar sua resposta como prova de fraude. Semanas depois, a universidade reconheceu o equívoco publicamente.
O caso mais escandaloso envolve a Constituição dos Estados Unidos. Sua elaboração começou em 25 de maio de 1787, na Convenção da Filadélfia. O documento foi aprovado e assinado por 39 delegados em 17 de setembro e publicado no Pennsylvania Packet dois dias depois. A ratificação decisiva ocorreu em 21 de junho de 1788; o governo sob a nova Carta começou em 4 de março de 1789. Mesmo assim, detectores atribuíram autoria artificial a um texto redigido 235 anos antes do ChatGPT.
Quando o algoritmo acusa os constituintes de 1787, sua autoridade desaba, se esfarela, é implodida a céu aberto.
Na Universidade de Reading, pesquisadores inseriram 33 respostas do ChatGPT em avaliações reais de Psicologia. Trinta e duas passaram sem suspeita, índice de 94%, e receberam notas superiores às dos alunos. A ferramenta falhou nas duas margens do problema: deixou passar o conteúdo sintético e lançou suspeita sobre a produção humana, enquanto sua alegada precisão se dissolvia diante dos resultados. Se a resposta artificial imitou com tanta perfeição os critérios de correção, talvez esses critérios já premiassem uma escrita previsível demais para distinguir máquina de aluno aplicado.
A escrita patrulhada
Criou-se um policiamento estilístico grotesco. Travessões, listas, paralelismos, transições e encadeamentos lógicos viraram impressões digitais da máquina.
Escritores mutilam recursos seculares para escapar da suspeita de fraude. O sistema acusa com uma porcentagem, esconde o método e transfere ao autor o ônus de provar que escreveu o próprio texto. Jornalistas que publicam diariamente passam a desconfiar da própria sintaxe, e cada frase nasce obrigada a justificar sua origem. Essa autocensura já produz bloqueio criativo. Colegas de redação confessam reescrever parágrafos inteiros, não para aprimorá-los, mas para descaracterizá-los diante do algoritmo, disfarçando em vez de esclarecer.
Essas ferramentas podem auxiliar em duas frentes: a triagem de grandes volumes e a identificação de mudanças abruptas entre textos da mesma pessoa. Também estimulam conversas sobre transparência, citação e limites éticos da assistência tecnológica. Seu alcance termina aí. Qualquer conclusão exige confronto com versões anteriores, fontes, histórico autoral e conversa direta. Percentuais isolados carecem de valor probatório.
Um veredicto sem instância de recurso
Quarenta e dois anos de ofício e 19 livros publicados em cinco países deram-me familiaridade com a cadência, as escolhas e as pequenas imperfeições que distinguem uma escrita. Universidades precisam coibir a minoria que burla avaliações, interessada mais no diploma, no mestrado ou no doutorado do que em conhecimento e reflexão própria.
Desde 2023, todas as minhas provas começam com os celulares colocados sobre a mesa e apresentam de três a cinco questões discursivas. Os resultados confirmaram a eficácia do procedimento. Como professor universitário, confio mais no olhar formado pela convivência com a escrita. Quinze frases de uma dissertação de Sociologia ou Jornalismo frequentemente bastam para revelar um descompasso: vocabulário incompatível com o repertório do aluno, raciocínio sem memória das aulas, referências inventadas, perfeição súbita sem percurso. Esses sinais justificam uma apuração que reúna evidências, autoria conhecida e direito de defesa.
A Pangram calcula probabilidades e desconhece biografia, hesitação, repertório e o aprendizado silencioso que transforma hábito em estilo. O detector lê a caligrafia estatística e rasga a certidão de nascimento do texto: data, rascunhos, fontes e percurso autoral. Ao classificar como artificial uma obra anterior à tecnologia, transforma correlação em acusação pública. Nenhum tribunal aceitaria hoje uma perícia grafotécnica sem perito identificado ou margem de erro declarada; a escrita merece igual cautela.
Submeter reputações a esse juízo automatizado expõe autores que levaram décadas construindo cada frase e podem perder, em segundos, o patrimônio de uma vida sob uma mentira matemática sem instância de recurso.
https://revistaforum.com.br/opiniao/algoritmo-fundadores-eua-chatgpt/
