Traficantes

Aquele provérbio muito antigo dando conta de que todos os caminhos levavam a Roma recebeu atualização tropical — todos os caminhos passam por Daniel Vorcaro

Washington Araújo - 27/09/2026

Antes de frequentar páginas policiais e incontáveis minutos nos telejornais em horário nobre, tráfico designava comércio, trato, circulação. A palavra veio do italiano traffico e foi mudando de companhia até se instalar entre drogas, armas e pessoas.

Ficou uma ideia antiga: alguém domina o caminho, conhece quem guarda a entrada e transforma essa vantagem em dinheiro. No caso Banco Master, essa definição ganhou endereço atualíssimo.

Daniel Vorcaro aparece nas investigações cercado por políticos, magistrados, advogados e parentes de autoridades. Surgem contratos, mensagens, jatinhos, hospedagens, camarotes, encontros e pedidos.

O mais grave no Master é a capacidade vorcariana de aprofundar rapidamente relações úteis onde fiscalização, julgamento e decisão pública, com força de lei, acontece e rendem cifras bilionárias, inclusive compra de banco público.

Nikolas

Nikolas Ferreira procurou Vorcaro para pedir ajuda na liberação de um ativo de minério ligado a um ex-assessor. Disse depois que buscava orientação. O áudio mostra um deputado federal recorrendo a um banqueiro porque acreditava que ele pudesse interceder numa questão privada. Essa naturalidade diz muito sobre a reputação de influência que Vorcaro construíra. A voz melosa do Nicolas, de alguém que parece ter acabado de acordar, revela muito do nível de intimidade pessoal entre os personagens.

Flávio

Com Flávio Bolsonaro, a relação ganhou outra musculatura.

A Polícia Federal o descreve como interlocutor direto do banqueiro nas negociações de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. Vorcaro repassou cerca de R$ 61 milhões ao projeto, e Flávio continuou cobrando recursos. Nos áudios, fala da pressão da produção, pede novas parcelas, chama Vorcaro de “irmão” e, na véspera da prisão, promete estar com ele “sempre”.

Ouvindo esses áudios, impressiona a posição assumida por Flávio diante do banqueiro. O senador surge dependente do dinheiro para manter o projeto de pé, insistindo e pedindo que Vorcaro resolva a situação. A cena constrange. E é humilhante.

Eduardo

Em janeiro de 2025, Flávio e a família viajaram da Flórida a Brasília em aeronave cuja propriedade incluía empresa ligada a Vorcaro. Meses depois, com o banqueiro procurando investidores em Dubai, Flávio ofereceu acionar Eduardo Bolsonaro para encontrá-lo. Eduardo afirma que jamais falou com Vorcaro. Mensagens também mencionam seis encontros entre Flávio e o banqueiro. De todos os personagens se destaca o que pode ter levado o banqueiro preso a fazer tantas extravagâncias milionárias com certos CPFs da república. Um deles será presidente da suprema corte dentro de um ano. O outro está empatado na disputa dessas eleições presidenciais do país.

Kassio

No entorno de Kassio Nunes Marques, mensagens encontradas no celular de Vorcaro mencionam R$ 500 mil mensais associados a Kevin Marques, filho do ministro. Kevin nega ter recebido dinheiro do Master. A chamada “Turma do KN” surge ainda ligada a contrato de até R$ 427 milhões com o escritório da mulher de um juiz do TRF-1, além de hospedagens e favores. Kassio nega favorecimento. Mas são investigados votos de Cássio que beneficiam o Master. E ao que tudo indica são vários os processos que contaram com seu beneplácito.

Familiares de magistrados aparecem próximos de contratos enormes, pessoas ligadas a tribunais recebem facilidades e o mesmo banqueiro preserva relações num ambiente em que decisões podem valer centenas de milhões. Para o jornalismo, há matéria suficiente para investigar até que ponto dinheiro e acesso passaram a frequentar os mesmíssimos ambientes.

Alexandre

Alexandre de Moraes exige precisão. O escritório de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, assinou contrato de R$ 131 milhões com o Master. Metadados indicaram que o ministro e a mulher também utilizaram aeronaves ligadas a empresas de Vorcaro, e o escritório sustenta ter contratado regularmente serviços de táxi aéreo.

Até agora não veio a público voto, decisão ou ato de Moraes no Supremo favorável ao Banco Master ou a Daniel Vorcaro. O ministro afirma jamais ter julgado causa do banco. Contrato e viagens levantam questões sobre prudência e aparência de independência.

Governadores, senadores e deputados, diretores do Banco Central e do Banco de Brasília, se lambuzaram pra valer nas arcas do Banco Master e na lábia do banqueiro preso.

O Master acabou oferecendo um retrato muito realista de como dinheiro procura companhia no poder brasileiro.

Flávio pedindo recursos e jurando irmandade; o entorno de Kassio atravessado por contratos e pagamentos mencionados em mensagens; Moraes ligado a contrato milionário da mulher e a voos de empresas do banqueiro; Nikolas procurando o Dani para resolver interesse de terceiro, um “ativo minerário” como ele chamou e fazendo várias viagens pelo país no jatinho do agora banqueiro em desgraça.

Repetem-se famílias, contratos, favores, aviões, encontros, acessos e a confiança de que determinado nome abre determinada porta.

Tráfico de influência

Tráfico de influência começa nessa conversão da proximidade em ativo. O crime será definido pelos autos; a suspeita jornalística nasce antes, na observação de relações úteis demais para continuar tratadas como sociabilidade.

Vorcaro perdeu o banco e a liberdade. Deixou um catálogo de proximidades que ajuda a entender como o dinheiro procura caminho dentro das instituições. Na antiga linguagem do comércio chamava-se tráfico. No Brasil de hoje, continua sendo negócio de passagem — e a mercadoria, muitas vezes, é chegar a quem decide. Aquele provérbio muito antigo dando conta de que todos os caminhos levavam a Roma recebeu atualização tropical — todos os caminhos passam por Daniel Vorcaro.

https://revistaforum.com.br/opiniao/traficantes/

Cultura

Explorando literatura, cinema e ética contemporânea.

Podcast

contato@palavrafilmada.com

+55 61 98373 3233

© 2025. All rights reserved.