Zohran Mamdani enfrenta Amazon e desafia o modelo de entregas terceirizadas (por Washington Araújo)

Nova York expõe engrenagem de metas, acidentes, salários desiguais e contratos que afastam responsabilidade de quem controla diretamente os serviços

Washington Araújo - 13/08/2026

Nova York decidiu enfrentar uma engrenagem que durante anos cresceu à sombra da conveniência. Em 10 de agosto de 2026, o prefeito Zohran Mamdani anunciou apoio ao ‘Delivery Protection Act’, projeto apresentado pela vereadora Tiffany Cabán e registrado no Conselho Municipal como Int. 518-2026.

A proposta alcança diretamente o modelo de distribuição adotado por empresas como Amazon e FedEx. Pretende estabelecer regras de segurança, treinamento, licenciamento e responsabilidade trabalhista nos centros chamados de “última milha”, o ponto final da cadeia que leva a mercadoria do armazém à porta do consumidor.

A discussão ganhou força porque Nova York passou a conviver com a expansão acelerada desses centros. Ao menos 18 grandes instalações foram abertas desde 2017, 11 delas a partir de 2020. O Relatório do Controlador da cidade constatou que 78% das áreas próximas a esses depósitos registraram aumento de acidentes com feridos depois de sua instalação. Num raio de meia milha, o crescimento médio dessas ocorrências chegou a 16%. Entre 2022 e 2024, mais de 2 mil lesões de trabalhadores foram registradas em 38 das 50 instalações examinadas.

O custo da pressa

Os números retiram o debate do terreno da propaganda corporativa. A compra feita em poucos segundos no telefone atravessa depósitos, ruas congestionadas, metas de produtividade, sistemas eletrônicos de acompanhamento e jornadas definidas ao minuto.

A rapidez que seduz o consumidor depende de uma infraestrutura humana quase sempre invisível. Cada promessa de entrega acelerada acrescenta pressão a uma cadeia que funciona longe dos olhos de quem apenas acompanha no aplicativo o trajeto de uma encomenda. A Amazon construiu parte importante dessa operação por meio das chamadas ‘Delivery Service Partners’. Essas empresas contratam motoristas e assumem formalmente responsabilidades trabalhistas e operacionais.

Segundo documentos e investigações citados pela prefeitura de Nova York, a Amazon interfere, porém, em elementos centrais do serviço: define rotas, estabelece metas, padroniza uniformes, impõe procedimentos e acompanha o desempenho das entregas. Surge daí a questão que Nova York resolveu colocar no centro da mesa. Quanto controle uma corporação pode exercer sobre o trabalho de milhares de pessoas antes de assumir também as consequências desse controle?

O motorista veste a marca, dirige um veículo associado à marca e entrega o produto vendido pela marca. Segue uma rota organizada dentro do sistema da companhia e trabalha submetida a indicadores ligados à operação. No contrato, porém, seu empregador pode ser uma pequena empresa colocada entre ele e a corporação que organiza toda a cadeia. Essa distância jurídica passa a ter enorme importância justamente quando surgem acidentes, afastamentos e disputas trabalhistas.

Poder terceirizado

A terceirização passou a desempenhar, nesse sistema, função maior que a simples divisão administrativa de tarefas. Ela distribui obrigações entre vários níveis justamente onde o comando permanece concentrado.

O modelo reduz a exposição jurídica de quem dispõe de maior capacidade econômica e transfere riscos para empresas menores e trabalhadores com menor poder de negociação. Essa engenharia contratual ajuda a explicar por que a discussão nova-iorquina ganhou dimensão muito maior que a de uma simples controvérsia sobre entregas.

O projeto de Tiffany Cabán procura interferir nessa arquitetura. A proposta determina que atividades consideradas centrais de entrega e armazenamento sejam executadas, em regra, por trabalhadores diretamente vinculados aos operadores dos centros de última milha.

Também estabelece treinamento periódico, proteção contra retaliações, registros obrigatórios e fiscalização municipal. A intenção é aproximar a responsabilidade formal de quem efetivamente organiza e controla a operação.

Os salários ampliam a distância entre os modelos empresariais. Pesquisa do Shift Project, ligado à Harvard Kennedy School, analisou quase 10 mil trabalhadores da Amazon, da UPS e da FedEx. A remuneração média encontrada entre motoristas vinculados à rede da Amazon ficou próxima de US$ 19 por hora. Na FedEx, alcançou cerca de US$ 25. Na UPS, aproximadamente US$ 35.

Menos da metade dos trabalhadores ligados à Amazon tinha acesso a benefícios como plano de saúde, férias remuneradas e aposentadoria. Entre os motoristas pesquisados da UPS, esses benefícios estavam presentes quase universalmente.

Guerra de números

A Amazon respondeu recorrendo ao argumento apresentado com frequência diante de regulações mais severas: empregos poderão desaparecer, serviços poderão encarecer e operações poderão ser transferidas.

Uma análise da consultoria AKRF estimou que famílias nova-iorquinas poderiam gastar US$ 664 a mais por ano com entregas caso a legislação produza mudanças significativas na logística. O dado merece ser publicado acompanhado de sua origem: o estudo foi encomendado por uma coalizão empresarial contrária ao projeto. A procedência modifica a leitura. Estudos financiados por partes interessadas podem conter metodologia legítima, mas exigem transparência absoluta.

Saber quem pagou pela pesquisa faz parte da própria informação. O leitor tem direito de conhecer tanto o número apresentado quanto os interesses presentes na disputa em que esse número será utilizado. A controvérsia alcança uma questão que deverá aparecer cada vez mais nas economias organizadas por plataformas digitais. Grandes empresas aperfeiçoaram extraordinariamente sua capacidade de controlar processos sem absorver, na mesma proporção, as responsabilidades geradas por eles.

Algoritmos distribuem tarefas, sistemas acompanham produtividade, aplicativos determinam trajetos e métricas estabelecem ritmos de trabalho que seriam inimagináveis poucas décadas atrás. A sofisticação tecnológica passou a permitir níveis de supervisão cada vez mais precisos sobre pessoas que, juridicamente, podem continuar vinculadas a outra empresa.

Comando e risco

A tecnologia ampliou o alcance do comando empresarial. A legislação terá de decidir se a responsabilidade acompanhará esse mesmo movimento. Durante anos, o consumidor foi educado a enxergar apenas a última cena: um pacote diante da porta. A cadeia inteira permanecia fora do enquadramento. Quem descarregou, separou, empilhou, transportou e correu contra o relógio desaparecia atrás da promessa de entrega rápida. Mamdani e Cabán colocaram esses trabalhadores de volta dentro da fotografia.

O Conselho Municipal de Nova York ainda decidirá o destino do Int. 518-2026. A Amazon exercerá sua influência, sindicatos pressionarão, empresas apresentarão projeções e vereadores calcularão consequências econômicas. Esse embate faz parte da democracia e precisa acontecer às claras. O desafio será impedir que a disputa de interesses esconda a pergunta essencial sobre quem controla o trabalho e quem responde pelos danos produzidos durante sua execução.

Responsabilidade integral

O princípio em jogo deveria sobreviver à batalha de números: poder empresarial e responsabilidade precisam caminhar juntos. Uma corporação capaz de determinar como o trabalho será executado, a que ritmo, por quais rotas e segundo quais metas dificilmente pode reivindicar distância absoluta quando surgem acidentes, lesões e conflitos trabalhistas.

A entrega pode terminar na porta de uma casa. A responsabilidade precisa começar muito antes.

(*) Jornalista, professor universitário e mestre em Comunicação e Cinema.

https://sul21.com.br/opiniao/2026/08/zohran-mamdani-enfrenta-amazon-e-desafia-o-modelo-de-entregas-terceirizadas-por-washington-araujo/

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